sábado, 25 de setembro de 2010

O Nome do Filho

 
Foto: "Ups... desculpa!", de Isidro

O nome fora ouvido em algum lugar, do qual não se lembrava mais. E era mesmo mágico pronunciá-lo! Quanto esplendor! Quanta pompa ensejava! E ela, no seu nono mês de gestação, não parava de perambular pela vizinhança, soprando, nos ouvidos disponíveis, aquele nome fabuloso! Era assim que queria batizar o filho que chegaria em breve! E era também assim que colhia as opiniões, aproveitando-se, com esperteza, para ajudar que gravassem a pronúncia correta. A rua inteira já participava daquela "enquete"!

Tudo havia sido cuidadosamente verificado: a pronúncia e a escrita! Nada lhe escapara. Karl-Heinz Rummenigge! Esse era o sonhado e adorado nome! Karl-Heinz Rummenigge de Souza! Coincidentemente ela e o marido assinavam Souza, embora fossem de famílias distintamente de origens diferentes.

E a vizinhança até que se acostumara às investidas daquela mulher. Não era o primeiro filho! O casal já tivera outros dois, uma menina e um menino. E, claro, os nomes eram comuns, nada sofisticados. A menina chamava-se Ângela, em homenagem à avó materna e o menino chamava-se Paulo, em homenagem a São Paulo, de quem a  avó paterna era devota!

Se nas outras vezes não pudera fazer valer a sua vontade, desta não escaparia. Na primeira fora sua mãe a exigir que homenageasse a avó e na segunda a sogra não deixou por menos.

Karl-Heinz Rummenigge! Ela adorava esse nome. Já havia bordado babadores, viramantas, toalhas e mantos, aos montes. E o mais incrível é que ela nem dava notícias sobre quem fora aquele alemão que tinha aquele nome. Somente a cinco dias do parto é que um vizinho resolveu intrometer-se na conversa das comadres e informou  que se tratava de um ex-jogador de futebol da alemanha. Fez grandes elogios, dizendo tratar-se de um verdadeiro craque da bola.

Mais convicta ela ficou. Craque? Então meu filho terá o nome de um grande homem! E ela estava tão decidida e entusiasmada que sequer partilhava com o marido os seus desejos. Na verdade a gravidez, depois do quarto mês, provocou o afastamento do casal. Ela não suportava o cheiro de suor do marido. Dava náuseas intermináveis. Ele, matuto de pouca prosa, também não se incomodou com aquilo, mesmo porque, pensava ele, "mulher prenha num tem jeito de bolinar". E, nós aqui bem sabemos, casal que abdica do diálogo nem sempre encontra harmonia.

O parto foi natural, como os outros dois. "Ela é uma boa parideira", pensava o marido já calmamente fumando seu cigarrinho de palha.

O tempo foi passando e com ele vieram alguns "carinhosos" apelidos. A avó chamava o pequenino de "Kazinho", a outra avó, para ser diferente, chamava de "Ruguinho". Os vizinhos ora optavam por um, ora por outro. Nome difícil aquele.

Ela, no entanto, não arredava mão da pronúncia correta e completa: Karl-Heinz Rummenigge. O "Souza" sempre ficava para segundo plano, esquecido na pronúncia. Ainda assim, havia um brilho nos olhos, de orgulho extremo, e a cada visita, "estufava" o peito para dizer em alto e bom som: Karl-Heinz Rummenigge!

Chegou o dia de registrar a criança. Ela foi logo despachando o marido:
- Vá logo homem! Não quero que passe muito tempo sem o registro.

Ele, com toda a calma do mundo, típica de um matuto tranquilo, respondeu  entremeando o cigarrinho de palha nos lábios, molhando e enrolando o "pito":
- Tá bom! Eu vou. Mas eu num sei dizer o nome não! Você vai ter que escrever no papel aí, senão vou fazer confusão. O nome é danado de difícil.

Assim feito, lá foi ele cumprir sua obrigação! E os dias foram passando. Visitas chegando. Família se reunindo. E os apelidos, para contrariedade dela, já formavam uma grande lista. Havia o Kazinho, o Kaka, O Ru, o Ruguinho e tantos outros. Até piadinhas já faziam:
- Heins?
- Quehins?

Num domingo, com família reunida, aí é que os apelidos soavam alto! A própria mãe já aceitava o simples Rummenigge. Aí ele, o marido, já não aguentando a situação, resolveu que devia acabar com aquela confusão toda. No meio da varanda da casa, na cabeceira daquela enorme mesa, ele se levantou, pigarreou e soltou a bomba:

- Olha pessoal, eu até acho bonitinho os apelido que ocêis colocaram no moleque. Cada um falando de um jeito, cada um inventando uma forma, mas eu acho melhor ocêis acostumarem a chamar ele pelo nome, senão depois não vai ter mais jeito.

Ao tempo em que falava, a mulher sorria, orgulhosa. Finalmente alguém iria dizer o que precisava, sair em sua defesa. Nem chegou a avançar em pensamentos, enquanto ele continuava:

-  Olha gente, é sério mesmo! Acho melhor a gente mudar isso logo. Todo mundo deve se acostumar a chamar o molequinho pelo nome dele e não esses apelidos aí, que ocêis arranjaram. Melhor acostumar. O nome dele não é esse tal de "Cal" ou "Rumenigue". O nome dele de registro é Izaac! Izaac de Souza Filho!

15 comentários:

  1. E aí tá feita a confusão! Já imaginou o que essa pobre mulher fez depois disso?? Esse casamento tá com os dias contados. Tá certo que é bem mais fácil de falar, mas vai dar um trabalho enorme pra engolir... rsrsrrs
    Ótimo texto, meu amigo, e maravilhosamente escrito. Seus textos são uma delícia de ler.
    Beijokas.

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  2. Olá meu bem humorado amigo Gilmar, que maravilha! Adorei! Fantástico. E pelo jeito, o nosso "Rumenigue" ou Izaac, não virou craque...que eu me lembre não! Que a primevera seja de muita paz e harmonia e um feliz final de semana.

    forte abraço

    C@urosa

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  3. Aff... que "salada" de nome acabou virando... amigo que conto bem escrito...gostoso demais de ler...adoro estas prosas meio da roça....rsrsr...beijinhos...
    Ótimo sábado amigo...beijos...
    Valéria

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  4. Belíssimo! Gilmar,
    eu tenho dois sobrinhos que amooooo
    um quando nasceu virou Bezinho,ele já está com 6 anos e me diz meu nome é Gabriel Arthur,e o outro irmão dele com 5 anos é o coquinho,e ele ja me diz:Mickael Heitor não esquece kkk
    Boas energias amigo e obrigada pelo carinho,
    Mari

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  5. Olá, Gilmar
    Tenha uma SURPREENDENTE E MARAVILHOSA primavera!!!
    Excelente Domingo!!!
    Hoje ofereci a VOCÊ uma música especial... por seguir-me.
    Abraços fraternais

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  6. Gilmar

    Que história é essa! Pobre do menino ter que viver com um nome desse para satisfazer a caprichos da mãe. Ainda bem que o pai usou de sua autoridade e registrou um nome decente.

    Desculpe a minha sinceridade, mas é isso que acho. Eta familia complicada essa.

    Adorei amigo em passar aqui e ler o que escreve que gostoo demais.

    Já tinha passado aqui para te avisar do novo capítulo, mas queria ler o post antes de comentar e como tinha que cuidar do lanche deixei para mais tarde.

    Que bom que apareceu lá e como é importante a tua opinião.

    Beijos e um bom domingo.

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  7. Muito boa..rs Essa mania de nomes estranhos. Acabaram trocando seis por meia dúzia. O primeiro nome é mais complicado mas os dois nomes são esquisitos para nós.
    O ritmo do conto está muito bom e termina bem legal.
    Gostei.
    beijos

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  8. ...eu queria ser um mosquito
    naquela hora só pra ver o olhar
    da mãe direcionado ao marido!

    rsrs

    e pensar que o coitadinho do
    menino veio só para alegrar
    a família.

    obrigada pela visita
    e palavras lindas!

    bj, menino!

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  9. Oi , Gilmar !

    Adorei seu mini conto .
    Inteligente ,bem humorado ...

    Obrigada pela visita .

    Bjo e um Bom Domingo !

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  10. Meu amigo, a casa e família sobreviveu a tão bombástica revelação?
    Acredito que isso deve ter dado pano para muitas mangas e a mulher dever ter ficado muito brava com o marido.
    Obrigada pela sua preocupação e só consegui diminuir mesmo. Parar, ainda não.
    Um beijo e bom domingo

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  11. Mas Gilmar...

    Vc faz parte do meu primeiro mural de amigos que fica ao pé do meu blog, vc já esqueceu???

    Esse segundo mural são de amigos mais recentes e vou ter que fazer um terceiro ainda pois não couberam todos..rs

    E olhe há um mural no meu coração que é para raros, e vc está nele, viu?! Este sim é o mais importante...

    Grande beijo, amigo querido!

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  12. MUITO OBRIGADA PELA VISITA E PELAS AMAVÉIS PALAVRAS...MUITO GENTIS POR SINAL...INESQUECÍVEIS...
    ASSIM QUE FOR POSSÍVEL VOU TENTAR SEGUIR A SUGESTÃO E COLOCAR O POEMA A ACOMPANHAR...

    EM RELAÇÃO DO TEXTO,BRILHANTEMENTE ESCRITO...ASSEMELHA-SE A FILME...
    E NESTE CASO TUDO POR UM NOME...

    QUANDO OS PAIS PENSAM COLOCAR UM NOME PARA UMA CRIANÇA SERIA BOM QUE PONDERASSEM MUITO BEM ANTES...HÁ NOMES MUITO PESADOS, DESAJUSTADOS...E QUE VÃO SER MOTIVO DE TROÇA...

    DAQUI,DESTE LADO

    SEM COMPLICAÇÕES TAMBÉM VAI

    UM CARINHOSO BEIJO

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  13. AMIGOS SÃO COMO PRESENTES..
    É SEMPRE UM GRANDE PRAZER EM RECEBÊ-LOS.
    Amizade

    A verdadeira amizade é uma pérola
    de valor inestimável.

    Cultive a amizade.
    Corresponda às gentilezas.
    Não se encolha.
    Nem se afaste dos outros.
    Aproxime-se.
    Há muito de amor trancado em você.
    Procure ser o amigo das horas difíceis.
    Dê demonstrações de sua amizade,
    mas não espere ser correspondido(a).
    Compreenda que nem todos
    são como você.
    Tolere as faltas dos seus amigos.

    Tenha amizade pura e desinteressada.
    Não deixe que o tempo a consuma.

    Não pode ser amigo,
    quem não AMA INCONDICIONALMENTE.

    Texto do Livro
    Gotas de Esperança de
    Lourival Lopes

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  14. Essa história de escolher nome de filho não é brincadeira rsrsrs Eu e meu marido estamos passando por isso, rsrsrs
    Beijos

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  15. kkkkkk
    Só voce Gilmar pra me fazer rir e voltar a tossir rsrs
    estou voltando devagar ainda meio bamba,mas certa que estou bem.
    Adorei a saida do matuto , ele é como bom mineiro , quando a gente pensa que não , eles aprontam uma !! rsr
    muito boa |Gilmar
    deixo um grande abraço com saudades

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