sábado, 11 de setembro de 2010

Escorregar é Pecado?!



Cidadezinha do interior acontece de tudo. Numa dessas cidades, bem perdidas no interiorzão de Minas, uma pacata população estava às voltas com alguns eventos da modernidade, como por exemplo, as relações extraconjugais.

E cidade pequena todo mundo dá notícia de tudo. Todo mundo sabe a vida de todo mundo! Sabia-se quem traia o marido e com quem e qual marido traía a esposa e com quem.

Com tantas incidências extraconjugais acontecendo, o padre, já velhinho, resolvera também inaugurar o novíssimo confissionário para as confissões individuais. A homilia, das missas do domingo, serviram para enfatizar os convites à "regeneração" dos cristãos.

E deu certo. Nas semanas seguintes as mulheres intensificaram a procura. E aí começou a acontecer um outro problema. Elas já iniciavam pelo pecado mais mortal. E diziam de forma escancarada:
- Seu padre, eu transei em traição, duas vezes nessa semana.
- Seu padre, eu "trepei", traindo, três vezes nessa semana.

E assim se sucediam os relatos. Um após o outro, nos mesmos moldes.

O padre, extremamente conservador e pudico, resolveu que tais palavras não deveriam ser ditas ali. Assim, a cada mulher que o procurava para confessar-se, ele recomendava que, a partir daquele instante, ela apenas mencionasse que havia escorregado. Se escorregara uma, duas, três ou mais vezes, bastava que dissesse quantas vezes havia escorregado. Frisou bem a palavra escorregar. Insistiu nela.

Cidade do interior também tem essa facilidade de adaptação, de acostumar-se com as coisas mornas, se bem que isso não era nada morno. Mas as pessoas acostumaram-se com a expressão que o padre solicitara. E o tempo encarregou-se daquele costume. Estavam tão acostumados que a cidade toda já sabia.

O padre, cada dia mais idoso e doente, veio a falecer. Uma multidão compareceu,  pessoas de todos os credos, inclusive das cidades vizinhas, onde também  o padre era muito querido. E, logo na mesma semana, a diocese já designara um novo padre, recém ordenado, para assumir a paróquia.

Logo na chegada já fora informado que o atendimento às confissões se dava todos os dias, além das missas e visitas à zona rural.

Mal o padre se posicionou no confissionário e já foi surpreendido:
- Seu padre, eu escorreguei três vezes essa semana.
- Mas minha filha, escorregar não é pecado.
- Não seu padre. É pecado sim. Me dá logo a minha penitência.

E assim sucederam-se inúmeras confissões. O padre, novato na cidade, decidiu que falaria com o prefeito sobre aquela situação. Ao longo dos dias observara as ruas mal calçadas, com pedras pontiagudas sobrando, buracos tomados por uma lama vermelha, prestes a tingir as roupas que ali repousassem. Becos, ruelas, chão batido, poeira... Definitivamente, a cidade precisaria ser melhor iluminada, assim as pessoas escorregariam menos. Foi o que pensou.

Ao procurar o prefeito, soube que estava em reunião com uma comitiva do governo, composta por deputados e secretários de Estado. E claro, todos os vereadores da cidade e cidades vizinhas também estavam no salão, numa confraternização. Ainda assim, foi convidado a entrar.

O prefeito, mesmo ressabiado, avistando-o, convidou para que se juntasse a todos. O padre, percebendo ali uma boa oportunidade para a conversa, puxou-o pelo braço e disse-lhe que precisava falar sobre as mulheres que andavam escorregando pelas ruas da cidade.

O prefeito, soltando altas risadas, não aguentou e chamou a atenção de todo mundo que ali estava. Era uma oportunidade que nenhum "politicozinho" perderia!
- Pessoal! Um minuto de atenção por favor! O padre, que acabou de chegar na cidade, disse que veio me procurar por estar preocupado com as mulheres que andam escorregando em nossas ruas.

E cairam todos na risada. Até mesmo os componentes da comitiva cairam na risada, pois  os "escorregões" foram, em outras confraternizações, assuntos de muitas e muitas piadas. Riram. E riram a valer!

Como não paravam de rir, o padre tomou o microfone que estava sobre o púpito e começou a falar. E falava sério. E quanto mais sério, sem saber porque, mais risadas arrancava daquela platéia indomável.
- Senhor prefeito! Eu venho aqui com a maior das boas intenções, fazer uma reinvindicação justa e o senhor me trata assim?! As ruas dessa cidade são mesmo mal cuidadas, estão esburacadas, muito mal iluminadas. Isso é até um caso de saúde pública, pois isso implica em gastos! E o pior, senhor prefeito, é que esse problema tem afetado principalmente as mulheres.

Pronto! Aí é que as gargalhadas aumentaram de verdade! As pessoas já estavam vermelhas de tanto rir. Batiam palmas. Batiam na mesa! E riam, riam alto a valer.

O padre, já bravo, não se conteve. Era mesmo inadmissível e repugnante  o escárnio sofrido.
- Senhor prefeito! Não vou mais tocar nesse assunto. Isso é responsabilidade do senhor. Mas veja bem o que vou lhe dizer. O senhor, como muitos dos senhores aqui presentes,  como muito dos senhores vereadores, inclusive das cidades vizinhas... É, parece que o problema não pertence somente a esta cidade. Pois bem, todos vocês, ouviu senhor prefeito, todos correm um grande risco na própria família. A sua esposa, inclusive, escorregou nas últimas três semanas e nesta semana já foram três escorregões! O senhor está avisado.

Silêncio total

Conto adaptado

18 comentários:

  1. Vou escorregando de fininho e adiantando que este negócio de escorregar é bom demais da conta. Como é bom vir aque e dar boas gargalhadas. Abçs.

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  2. Afe! Que padrezinho fofoqueiro! Pois se o que lhe foi dito foi em sigilo confissional, como é que ele dá nome aos bois? Veja você, meu amigo Gilmar, o ego cegou os olhos do padre, e ele rompeu um dos sacramentos mais invioláveis da Igreja Católica: o segredo da confissão! Excelente, um beijo, Deia

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  3. Oi Gilmar...

    Estou tão ausente da blogosfera ultimamente. Estou tentando voltar as postagens e visitas mas ando muito desanimada com tudo.
    Obrigada Gilmar pelo carinho das suas visitas e comentários sempre muito gentis.

    Um grande abraço

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  4. Ola Gimar! A inocência não é pecado,mas como tem gente da cidade de "Geni e o Zepelin".

    Tenha um ótimo domingo.

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  5. Oieee Gilmar, adoro te ler, é muito, muito bom!
    GÓSDIMAIS DA CONTA!
    Beijos em teu coração e um lindo final de semana!

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  6. Meu amigo querido! Estou adorando essa história, e, mais ainda, nossas especulações sobre ela! Venho explicar meu ponto de vista, embora já agregue um ponto fornecido por você lá no Rumo. Acompanhe meu raciocínio: se as senhoras da cidade foram confessar o escorregão, logo o tema passa a ser segredo de confessionário. No entanto, consigo ver o pobre padre, na inocência - e não por ego, como eu havia anteriormente aventado - acreditando que "escorregar" não era pecado! E aí reside a grande graça: se todas as senhoras trataram do assunto como pecado, digno de confissão, apesar da indignação do padrezinho, ele não podira ter contado isso para absolutamente ninguém, visto que ele deu até penitência para o pecado de escorregar! rsrs! Bem, esse é o meu argumento para afirmar que, por não entender o "pecado" o padre não o levou à sério, e tratou como problema de ordem pública! O oposto de confessionário! rsrs! Ai, meu amigo, a prosa está muito boa! Mal posso esperar para ouvir os seus contra argumentos!! Quem diria que a blogosfera poderia ser tão divertida? Um beijo, Deia

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  7. Conheço pessoas ingênuas assim, tal qual este padre, e eu as acho lindas, porque há uma certa pureza na ingenuidade, e isto está ficando cada vez mais raro, mesmo em cidades bem pequenas...

    Como assim vc está falando muito lá em casa? rs
    Vc é o falador-mor do meu blog, tem passe livre, carta branca, e de longe o melhor comentarista que passa por lá, espero não perder esse privilégio tão cedo...
    Isso tudo prá dizer que vc é um querido de qualquer jeito, fique à vontade para falar ou não, só olhar e não falar nada... (porque sou contra esse negócio de ter que postar por obrigação, porque o outro postou em seu blog)

    Meu abraço sempre terno e fraterno!

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  8. Gilmar, muito bom! Adorei o conto e pensar que o padre com toda a sua boa intenção acabou por contar de todos os escorregões sofridos e os que riram a valer? Gostaria de ver suas caras! Isso sim, seria motivo para boas gargalhadas!
    Um beijo

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  9. Uma história divertida e muito bem contada. Adorei. Comecei meu domingo rindo.
    Aproveito para agradecer o carinho que teve comigo.
    beijos

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  10. MUito boa!!!! Só acordamos para vida quando ocorre conosco.
    Gostei de vir aqui.Obrigada pela sua visita no blog.
    Abraços criativos

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  11. Oiiiii Gilmar!
    Muito bom, muito bom!! Rsrs
    Bom domingo pra vc.
    Bjsssssssss

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  12. rsrsrsrsr... político merece!!!! Eles traem o povo na maior descaração... merecem um bom par de chifres... rsrsrrs
    Adorei a história.
    Amigo, fui convidada a postar no "Poetizando" por JuanK, que é o "dono" do blog. Gostou de lá? Fiquei muito feliz com sua presença.
    Beijokas.

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  13. Gilmar que ótimo! Enquanto as escorregadas eram alheias tudo bem né???
    beijocas,
    Mari.

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  14. Coitado do padre na sua inocência tentando resolver o problema das mulheres escorregarem acabou quebrando o sigilo do confessionário... essa á a vida.
    Como sempre Gilmar adoro ler suas histórias e já estou ficando viciada.
    O que também sinto falta é quando não passas para fazer a sua crítica aos meus escitos de principiante.
    Agora gostaria de te parabenizar pela medalha de mérito que recebestes, pois não deu para ler direito.

    Beijos e boa semana

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  15. Olá amigo Gilmar,
    Não sabia que fazia contos assim, me surpreendeu todo o texto, pela criatividade e nas entrelinhas a ingenuidade sendo colocada como algo ainda presente em algumas poucas pessoas, àquelas com o coração puro, onde não há maldade em suas ações!
    Muito legal o final, após o desrepeito, o tapa com luva de pelica, mesmo que não intecional no político.
    Boa semana amigo e obrigada mais uma vez pelos comentários sempre entendo o ponto de vista de assuntos que muitas vezes me intriga...
    Abs e fiquem com Deus!

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  16. Tá vendo só no que dá ficar inventando palavras para "disfarçar" fatos reais? (no caso da historinha)... tá vendo só? hahahahahahahaha... coitado do padreco...
    Amei a história... que aliás, só podia passar lá pelo interior de Minas messssssss....
    Beijos, flores e muitos sorrisos!

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  17. Adorei amigo rsrsrs... pois é ...só tem graça quando é com os outros...rsrsrs...
    Beijos...
    Valéria

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  18. Muito boa, será que o padre pediu transferência?
    Tenhas um lindo dia.

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Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

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