quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Mediocridade do Meio

Foto: Ian Britton

"Não Espere Pelo Epitáfio... Provocações Filosóficas", é um prazeroso livro de Mário Sérgio Cortella, que reune crônicas publicadas na Folha de São Paulo, entre 1994 e 2004. O livro foi publicado em 2005. Ainda assim, os argumentos são contemporâneos, atualizadíssimos.

Discutindo sobre o "caminho do meio" ou os riscos provocadores de transbordamentos, há trechos da crônica "Não espere pelo epitáfio", quatro parágrafos, que precisam ser reproduzidos, tamanha reflexão permitida.

"Ora, há dezenas de mitos, fábulas e histórias com a finalidade de exaltar a exclusividade e preferência do caminho do meio; o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade. Em nome da sobriedade, da prudência e do comedimento, o máximo que se obtém em muitas situações é a mornidade mediana, regrada e constantemente refreada".

O autor prossegue discutindo a questão da "mornidade", se é que podemos dizer assim, e a necessária e cabível compreensão do que é radicalismo e sectarismo. E continua nas provocações...

"É preciso ter limites, mas, estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um 'eu devia ter...' Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros Titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora (e muitos com eles): 'Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer'...

A sabedoria para equilibrar essas inquietações pode ser encontrada na reflexão feita no século 5 a.C. pelo filósofo chinês Confúcio: 'Eu sei por que motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém'."

E ele conclui: "Radicalidade  é uma virtude; o vício está na superficialidade".

Por que eu quiz trazer esse texto à tona? É que, numa abordagem anterior (Mania de Pressa), eu discuti a questão do nosso ritmo frenético. A maneira como esse mundo globalizado está a exigir respostas rápidas. Mal conseguimos respirar em meio a passos atordoados. E a gente acaba se esquecendo de olhar coisas tão simples do cotidiano. Nossa leitura sofre o revés do óculos da pressa.E por meio dele criamos conceitos, concluimos, definimos atitudes. Eu continuo concordando com Antonio Porchia: "as pequenas coisas são o que é eterno, e o resto, todo o resto, é brevidade, extrema brevidade".

Já numa outra discussão (Sapo Escaldado), discuti a nossa intolerância às mudanças graduais, a forma como nos acostumamos e nos permitidos acomodar. O quão inertes ficamos ante as desacomodações necessárias. E o quando é imperioso o inconformismo consciente.

Mas então, o caminho certo é o do meio? Nem pressa e nem acomodação? Cortella entende que o meio pode ser mediocridade. O meio é medo de ousar. O meio é acomodação.

É um convite interessante esse, o da ousadia, dos transbordamentos. Contudo, somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.

A "blogueira" Pri Sganzerla, do "Devaneios e Metamorfoses" fez um comentário extremamente relevante, acerca do "Sapo Escaldado":
"Só trazendo um testemunho: realmente não é nada fácil adotar essa postura. E nem sempre isso é uma escolha, tem gente que simplesmente 'nasce' assim. E enfrenta muitos percalços ao longo do caminho por ser 'diferente'. Difícil adaptar-se a um mundo que, a todo instante, insiste em te cozinhar vivo. Mas sucumbir não é uma opção pra mim. Porque eu sei que a dor de perder a si mesmo é bem maior do que a de lidar com a dificuldade de ser diferente".

Então, penso que o ponto é esse: a dor de perder a si mesmo...Se abdico da ponte que me liga a outros transbordamentos, então me perco.

Não dá prá fugir de uma simples verdade pedagógica: o ritmo e o tempo de aprendizagem é diferente em cada um. A transitoriedade dos atos que constróem qualquer sujeito, pode colocá-lo, em algumas circunstâncias, no meio. Não significa estacionar por ali. Permanecer inerte. Significa, isso sim, que há um tempo exigido para novas reconstruções do ser.E o simples fato de melhorar a minha compreensão de mundo, de reagir à acomodação, de impulsionar outros sonhos, por menor que seja, é um transbordamento, na respectiva medida de cada um.

Perder a si mesmo é não ter norte. Não saber o caminho. Não acreditar nas escolhas. É permitir-se ser subjugado. É não aprender a consciência de lugar, de cidadania. É por isso que ainda permaneço na dúvida, mesmo na concordância com Cortella.Contraditório, não? O meu meio é ancoradouro de reminiscências de aceitação? É estágio de transgressões? É ponto de parada e estacionamento? Ou é degrau que exige o próximo passo? É parte da construção que faço de mim mesmo ou são estereótipos que se acomplam à minha face? É abrigo de minhas ambiguidades e idiossincrasias ou é visão de futuro, metas e utopias de vida? É medo, paralisia e indolência ou é instância de reflexão e ação? É bem? É mal?

Propositadamente essa discussão permanecerá, aqui, inacabada. Devo permitir que se manifeste em cada um, conforme a visão de "estrada" que se constrói individualmente. E você? O que acha?

domingo, 23 de maio de 2010

Sapo Escaldado



Acostumamo-nos a não prestar atenção nas pequenas coisas. Habituamo-nos às mudanças bruscas e não às graduais e lentas. Há adaptações cegas às pequenas mudanças...

Somos mais ou menos assim. Somente aquilo que nos toma de assalto nos faz gritar e pular. Aquilo que nos sequestra a paz e violenta nossa boa índole, a inocente confiabilidade nos outros.

Em muito nos parecemos com a metáfora do sapo escaldado, da qual Peter Senge faz uso na “Quinta Disciplina”. É que, se colocarmos um sapo numa panela de água fervendo, ele tentará sair de qualquer forma, não vai se aquietar um só instante e tentará, por todos os meios, pular fora. Todavia, se colocarmos água fresca, numa temperatura agradável, ele simplesmente não fará nada. Vai ficar quietinho. Vai adorar a paz do aconchego.E se acendermos o fogo sob a panela com água fresca, onde se acomoda o sapo e aumentarmos gradativamente a temperatura, ainda assim, ele continuará lá. E mais, ficará quietinho, como quem gosta do que recebe.  Quanto mais a temperatura subir, mais ele continuará estático. Sem poder de reação. Quanto mais a temperatura aumentar, mais ainda o sapo vai calar-se, até que, escaldado, cozido, fenecerá com a mesma empáfia de sua acomodação. O mecanismo interno, que responde pela detecção de ameaças à sua sobrevivência é regulado apenas para identificar mudanças bruscas. Súbitas alterações. O sapo é inepto às ameaças graduais.

Quantas vezes e em tantas circunstâncias, também nós, meros mortais, criamos o hábito da plena quietude. Numa ilusão de ótica, tudo parece calmaria no mundo que mora lá fora. Entretanto, ao calor da vida, dos desencontros, tropeços, sofrimentos doídos, relações rasgadas e desapontamentos de toda sorte, essa mesma quietude faz abrir uma lacuna, uma grande distância. Já não vemos nada. Não enxergamos nada. Não escutamos nada. Somos consumidos, aos poucos, por esse mesmo mundo, do qual esquecemos fazer parte.

Criamos o hábito da acomodação nos pequenos e diferentes mundos, ricos em ausência de criticidade, vazios em consciência cidadã e humanística. Por vezes somos também admoestados a permanecer no mais absoluto silêncio, quando as poderosas mídias, com suas hipocrisias, bairrismos e idiossincrasias, faz o convencimento do "jeito certo" que cabe a cada um. É a submissão ao escárnio da “massa”, falida em vontade e autoestima... Zombeteiros de plantão, por vezes somos levados a acreditar, com fé inarredável, de que a verdade vem sempre de outra direção, é sempre soprada por outros ventos. E, na cegueira de abismos emocionais, ignoramos o sublime livre arbítrio a que temos direito exercer.

Marina Colasanti fala do quanto a gente se acostuma às coisas. A gente se acostuma ao cansaço do cotidiano; a pagar mais pelo que se quer; a travar batalhas sem fim, para ganhar o pão de cada dia, afinal os sonhos têm preços. “... A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma".

Feito o sapo escaldado na aconchegante água morna, quanto mais a voz se cala, não se sente mais o fogo brando... A gente teima em "empurrar com a barriga" os desconfortos a que somos submetidos, porque assim permitimos... E sem perceber, aos poucos desfacelemos.

Penso que o estágio adequado é o de inconformismo. É preciso aprender a dizer não, quando a vontade é de dizer não. É preciso aprender a dar passos em direção oposta, a retroceder dois passos e avançar apenas um...

Não é tarefa fácil a rebeldia. Não é decisão fácil a oposição. E as discordâncias não podem significar uma mera bandeira de resistência. Não se trata de “pintar a cara” e estabelecer mais um rótulo. É, antes de tudo, uma questão de dignidade. Trata-se da não aceitação da vantagem fácil. Da recusa ao egocentrismo mesquinho. Trata-se da crença na ética. Trata-se de enxergar, sem o rubor da vergonha, a mesma face no espelho, todos os dias ao acordar.

Não é uma questão de acolher conceitos impositivos ou habilmente incutidos. Trata-se do hábito de cultivar o discernimento e a criticidade. Não é a atitude da conciliação passiva, submissa e cabisbaixa ante o domínio da eloqüência dos que se vestem de poder, dos travestidos de bondade e serventia. Trata-se de refutar, com a mais cristalina das vontades, a opulência de moedas saqueadas na exclusão social. Trata-se de educar-se na retidão e, sobretudo, de ser leal a si mesmo. Trata-se da recusa intensa, indecente até se for preciso, em não tolerar ser fantoche em qualquer que seja o palco. Trata-se de não permitir ser cozido vivo, não ser levado à morte, ao imobilismo estratégico e vil. Trata-se de escolher a vida. Trata-se de viver, no sentido mais intenso e completo que o verbo permitir.

Cabe aqui resgatar uma fala providencial da Elenita: “Não se trata do tamanho do desafio, se trata do seu tamanho. Ou você é uma pessoa que se deixa deter ou é uma pessoa que não se deixa deter. A escolha é sua. Pensamentos conduzem a sentimentos, sentimentos conduzem a ações e ações conduzem a resultados”.

O hábito pode tornar-se aceitação passiva do que não pode mais ser tolerado.



Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de minha altura”.
Fernando Pessoa



Imagem: http://sergiostorch.com/wp-content/arquivos/boiling-frog-300x264.jpg

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mania de Pressa

A gente tem mania de pressa... Somos movidos a urgências. E a gente corre, quando devia acalmar os passos.

Talvez, daqui a algum tempo, a memória venha cobrar contas difíceis. Exigir reparo a tantas transgressões idas, sob a égide da pressa.

Nossa ordem de prioridades raramente contempla a efetividade da afetividade. Somos premidos por resultados. Respostas ágeis ao labor dos dias mais nublados.

Apressa-se o olhar. Ele já não carrega tanta ternura e compaixão. Os corpos em movimentos laterais e diante dos passos (e até mesmo aqueles prostrados nas calçadas), são apenas pontos demarcados no espaço para desvio de rota. São objetos sobre os quais já não se presta tanta atenção. Há pressa de cruzar a rua. Chegar noutro lado.

Os seres "inanimados" que circundam minhas adjacências também emprestam a mesma redundante pressa no olhar. Engraçado isso! Estranhos tão próximos, quase sempre numa mesma rua, numa mesma esquina... mas ainda estranhos. São mais estranhos que a vitrine da loja. Nessa os olhos costumam repousar, ainda que a avidez exija olhar tudo em tempo recorde.

Se os passos são rápidos e largos, alguns encontros são também sufocados, quando não, fugazes. Há pressa no abraço. Por vezes ele é trocado por um rápido aperto de mãos, isso quando, por intransigência do outro, já não é mais possível oferecer apenas um sorriso morno, com pequenos movimentos alternados das sombrancelhas. Uma melancólica tentativa de justificar a pressa.

Por conta da pressa, desaprendemos a arte de escutar os sons relâmpagos do cotidiano. Minha voz precisa eclodir, antes de qualquer outro. A intolerância exige ritmo acelerado. A paciência se esvai. A pressa não permite tais banalidades. Tais deleites  são refugados na contraordem do ritmo frenético.

Desaprendemos a procrastinar...É isso mesmo! Talvez se assim o fizéssemos, poderíamos reter o tempo... acalmar os passos... abafar o tic-tac do relógio tarefeiro e, quem sabe, olhar com a alma a simplicidade das "coisas" esquecidas.

É na calmaria, longe das turbulências incontidas, que o horizonte faz descortinar outras possibilidades. É como diz o poeta:
"Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir"
.

Música: Ando Devagar (Almir Sater )
Voz: Maria Bethânia

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mãos de Educadores



O vídeo de Ilana Yahav, uma artista que desenha na areia, sobre uma mesa de vidro, usando apenas os dedos e as mãos, confunde-se às "mãos" do educador... "mãos" que constróem a exuberância humana.

Mãos, que criam movimentos na areia viva, grão a grão, formando cenas e permitindo que a emoção ouse sussurrar o verbo encantar...

Mãos, que desenham o oceano humano e as peripécias das ondas, no constante movimento do aprender a aprender...

Mãos, que num mágico movimento, de areias lançadas, convidam nosso olhar ao redesenho do ser...

Então, imagine os movimentos das asas dos sonhos trazidos aos bancos da escola... dos sonhos que alimentam nossas crenças... nossos propósitos...

Imagine como o sol de cada aula acolhe, no diálogo do aprender, as vidas que se constróem nos gestos, olhares, sorrisos e afagos que o mestre empresta!

O sublime ato de educar "se identifica com o pensar e o refletir. E tanto o prensar como o refletir ocorrem a partir da construção do texto de cada um. Na verdade, ao pensar construímos dentro de nós um texto, um discurso, uma fala para dentro. Quando ensinamos, aprendemos, nós mesmos, a tomar posse de nossa reflexão, em nós ou no outro" (Carlos Abdalla).

Permita-se, antes, durante e depois das aulas mais cinzentas, ser pássaro, de asas brancas cor-de-paz, construindo gente... a cada dia... a cada instante!

Assim é você, educador: um grande artista da alma humana. Capaz de juntar cada grão de areia e dar-lhe vida, forma, cor e sentido! Suas mãos, Mestres, tecem o nascer do sol que faz respirar o amanhã!

Apenas Imagine!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Rio Sem Discurso


http://www.sacrahome.com.br/look/index.php/v/fotos/lugares/
"Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate".

Na bela e instigante poesia de João Cabral de Melo Neto quantos universos, traçados na virtualidade de tantos e tantos blogs, encontram ecos em falas sopradas sem medo... Construções e reconstruções do ser. Assim, e por isso mesmo, sobram algumas poucas palavras: que os nossos discursos saibam soprar vida e, que no leito dessa vida, os poços encontrados sejam abraçados e ao rio devolvidos, revitalizando também a vida que ali jazia.Que haja o saber fazer, o saber ser rio. Que o discurso não seja vazio e ao contrário,  que ele seja carregado de dialogicidade e utopia.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Lobos e avessos


"Lobos", de Pedro Serra

É muito conhecida a metáfora dos dois lobos, divulgada amplamente na internet. Ela se parece muito com nossas escolhas, com nossas intempéries atitudes e, claro, confunde-se, o tempo todo, com cada um de nós, simples seres mortais. A metáfora é assim:

“Um velho avô disse ao seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo, que lhe havia feito uma injustiça:
— Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio daqueles que aprontaram tanto, sem qualquer arrependimento daquilo que fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos...
E ele continuou:
— É como se existissem dois lobos dentro de mim, numa luta constante. Um deles é bom e não magoa. Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo fazer isto. E da maneira correta. Mas, o outro lobo, ah! Este é cheio de raiva. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira! Ele briga com todos, o tempo todo, sem qualquer motivo. Ele não pode pensar porque sua raiva e seu ódio são muito grandes. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar coisa alguma! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito.
O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou:
— Qual deles vence, Vovô?
O Avô sorriu e respondeu baixinho:
— Aquele que eu alimento mais freqüentemente".

Eu me deparo brigando com meus limites, com minhas escolhas. Ao longo dos dias cultuei valores, propaguei atitudes e extrapolei constructos. Reconstruí concepções, reformulei compreensões e uma vez mais, debato-me, numa incessante luta, com meus percalços limítrofes.

O aprendizado mais difícil é exatamente esse, o de revirar-se por completo, desnudar-se e, ante o espelho do cotidiano, deparar-se com o seu avesso.

A morada desse avesso apropria-se, de forma intangível, mas ao mesmo tempo de uma maneira eloquente, de suas incongruências inconfessas. São lobos soltos no tempo, com mandíbulas robustas e caninos afiados. Ao menor descuido se prontificam a vesti-lo noutra roupagem e chantageiam suas crenças, num abraço infindável à fragilidade exposta.

As unhas esfomeadas dilaceram o coração, tornando-o pateticamente poético e romantesco. A nova roupagem já começa a ditar as frases desconexas.

A volúpia do abraço mortífero já não reconhece quaisquer resistências. Aos poucos tudo é despedaçado e vorazmente consumido. O avesso vive. Prostitui o meu norte.

Entretanto, nessa incontida briga, a consciência reclama e chora cada pedacinho de utopia assentada na argamassa do abrigo esmorecendo. Afinal, o que mais alimentei na caminhada? O que, de fato, sustenta meus propósitos? E, por que no vacilo do tropeço, remexeram meu avesso?

É porque me descuidei. Permiti a solidão da dor. Ressenti as perdas. Não diligenciei minhas vicissitudes. Não auscultei minhas angústias. Não respeitei meus medos. Não acreditei nas minhas verdades extenuadamente vividas. Assim, frágil de amor próprio, combalido e atordoado, letargicamente perdido e ferido, assisto o meu avesso vestir-se para a festa. Vai comemorar meu vergonhoso fracasso.

Na briga, que persiste, um sopro de luz, um pequenino e tênue sopro de luz ainda faz respirar a alma inerte. Acesos, os olhos já não fogem da horrenda visão que o avesso impõe. A memória reconstrói forças. Na sofreguidão do abismo, as mãos já conseguem agarrar-se às histórias de cada uma das encruzilhadas vencidas, onde cada escolha redesenhou-me, de forma transformadora.  Impetuosamente, o que dilacerado estava, se ergue refeito. Na consciente fúria refuto os lobos carniceiros, dispo-me das roupas emprestadas e o instinto de sobrevivência faz recobrar a pulsação. É a minha metamorfose do renascimento.

Uma vez refeito, depois de tantas desacomodações, aquieto-me num novo aprendizado: a compreensão das minhas imperfeições. Desta feita, porém, sei que o outro lobo não morreu, apenas se afastou e escondido permanecerá. Com certeza, na ânsia de se fazer vivo, ele tentará se alimentar das migalhas que eu oferecer em cada ato, em cada gesto, em cada atitude... em cada escolha!

Agora cada passo dado rumo ao infinito já sabe a face do avesso, por isso mesmo é firme e constante. E cada pegada, largada na estrada, me assegura que os desencontros são pontes que constroem grandes encontros.  

Esse deve ser o propósito! Sempre!


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Reclames da Educação

    O educador comprometido com seu sonho, em nome de um projeto existencial coletivo, tem cada vez mais aflorada e sensibilizada sua visão prospectiva de mudanças... Educação! Eis aí o grande desafio! Subjugada que sempre foi e clamando por luzes oniscientes, brotadas das mais sérias e compromissadas estirpes de educadores...
    Educação que reclama passos firmes e mãos dadas num caminho aberto ao infinito da esperança. Que reclama a presença da verdade, o predomínio da prática-vida e a abominação do discurso vazio. Ela reclama o sonho que em todos os dias é sonhado num banco de escola: o sonho de se fazer presença-guia num cotidiano de exclusões sociais. A educação reclama ética!
    Reclama o libertar das amarras covardes de ideologias escusas e a abolição da subserviência. Reclama do holocausto a que os mais distantes rincões são submetidos: por onipotência, por omissão, por ingenuidade. A educação reclama a mais explícita vontade política!
    Reclama ouvidos aguçados, para os gritos sufocados, lânguidos, que se repetem como ecos e se perdem pelos vales sem sol. A educação reclama lucidez!
    Reclama a coletividade para o sensibilizar, para o auscultar, para o planejar e para o construir. Reclama a fertilização do chão em que se pisa, onde tantas vezes se erguem estátuas ao tempo, abrigo de iletrados e de onde se levantam monumentos que não se explicam e nem se justificam, mas que reluzem aos olhos dos hipócritas e incoerentes. A educação reclama o desvelar da mentira onipresente!
    Reclama um chinelo para os pés descalços, para os dedos já feridos por tantos tropeços, para que as pegadas sejam demarcadas no tempo e não se percam no horizonte que a humanidade faz descortinar. Reclama coragem, a falta de medo, o repúdio à covardia, para que o homem deixe de fingir o que sabe e abra-se ao saber do outro. Reclama o fim da dicotomia ostensiva e incongruente. A educação reclama pesquisa!
    Reclama a aula “arco-íris”, que se curva ludicamente na sua volta ao abrigo onde nasceu, mas que encanta, que alegra, que motiva, que se torna um “escorregador” por onde a aprendizagem brinca e se diverte livremente. A educação reclama a criatividade!
    Reclama corpo e alma se entregando às descobertas das próprias limitações e capacidades. Reclama a sede ardente do dualismo na educação-miragem hoje vigente. Reclama a sensatez: para a humildade, para o aprender, para o permitir-se, para o aceitar, para  o questionar e para o fazer... Sim... Para o fazer!
    Reclama o que podemos dar: a disponibilidade de ser. Ser útil, ser disseminador do saber, ser aglutinador de encaminhamentos e profícuo articulador de propostas condizentes. A educação reclama a nossa parceria! E ela só quer o nosso pensar crítico convertido em um fazer responsável!
    Está feito o convite!
 Foto:Henrique Oliveira Pires

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Um último discurso

O cansaço da viagem, dos três últimos dias, por entre acentuadas curvas das montanhas de Minas, não permitiu outras postagens. Então, mais uma vez, recorro às lembranças  reviradas... Deparo-me com o último discurso que fiz numa formatura da FACEB, quando convidado por talentosos alunos do Curso de Turismo. O que foi dito guarda relação com um "amontoado" de outras coisas do cotidiano. É só uma questão de permitir-se. Eis o texto:

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Meus queridos alunos,

O que falar a vocês quando a emoção embarga a voz, provoca a lágrima e faz encher a alma de carinho, afeto e pertença?!
Hoje preciso confessar a minha incompetência para encontrar palavras capazes de traduzir o que se passa dentro deste educador! Então, com toda a humildade, recorro a Fernando Sabino e ouso parafraseá-lo, notadamente quando diz:

De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que estamos sempre começando...
a certeza de que é preciso continuar...
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
 PORTANTO DEVEMOS
 fazer da interrupção um caminho novo...
da queda, um passo de dança...
do medo, uma escada...
do sonho, uma ponte...
da procura, um grande encontro!  

A caminhada que fizeram, ou melhor, que juntos fizemos, numa Casa de Educação que não teve medo e nem se acovardou no seu ato sublime de fazer a verdadeira educação; que se escancarou a todos que dela se serviram e que comungou, com fidelidade, dos sonhos que vocês ousaram erguer em suas vidas, essa caminhada, com certeza absoluta, permitiu a formação de seres humanos ricos em valores e princípios, mas também de inquestionável e indiscutível competência, sobretudo porque emprestaram as suas melhores atitudes e propósitos nessa formação profissional.
Eu, enquanto educador, continuo acreditando na utopia de fazer educação conjugando o verbo coletivizar. Coletivizar competências, propósitos, verdades, transparência, sonhos, ideários... Coletivizar princípios e valores reclamados num mundo, ainda hoje, tão conturbado e de tantos desencontros.
Eu aprendi, nessa jornada, a grande lição que agora faço questão de propagar, onde quer que eu esteja: a lição da pertença!
Então, caros alunos, não se distanciem daquilo que me ensinaram. Busquem viver, em profundidade, a lição da pertença!
Pois, que adianta a eloquência, se a arrogância é o que se sabe oferecer?
Que adianta o alto desempenho, se a prepotência é a atitude conservada?
Que adianta a capacidade de organizar e desenvolver propostas e projetos, se a ausência de respeito e humildade fazem imperar o ranço podre do poder e do mandonismo?
Que adianta a capacidade de empreender, se não aprendo a exercitar a lição da coletivização das competências dos que me cercam, pois afinal, o ignóbil status de estrela solitária precisa sobressair?
Que adianta a performance de excelência em resultados, se encimesmado, subjugo a ética e violento a honestidade e a integridade dos seres que perfilam ante a minha avidez por dividendos?
Não é pela licenciosidade que a autonomia do pensar e do ser será construída. Ao contrário, será por meio da aflorada criticidade e capacidade de transitar, respeitosa e sabiamente, nas diferenças. Caso contrário, ainda que eu me considere um esplêndido profissional, a grande verdade é que não passarei de um medíocre, submisso, subserviente e descartável escudeiro de outros interesses.
Então, peço a cada um de vocês, que aguerridamente alcançaram a formação que agora saboreiam:
1- Nunca se esqueçam da grande lição de pertença que ensinaram;
2- Jamais se afastem dos princípios que norteiam suas vidas;
3- Em hipótese alguma ignorem a história de vida que constróem, dia após dia, com verdade, ética e justiça.
Obrigado por me ensinarem tanto! Fica o convite de Sabino: construir escadas e pontes para os grandes encontros que a vida oferecerá! 
Eu me orgulho muito, mas muito, de cada um de vocês!
Um grande e enorme beijo no coração de cada um!
Sejam muito felizes!

domingo, 2 de maio de 2010

Olhares da Janela

Texto para a Blogagem Coletiva sugerido pelo Espaço Aberto


Do alto, olhares entremeados por grades, vislumbram movimentos frenéticos da vida que corre lá fora. Transeuntes apressados, passos largos, outros tantos desleixados, mornos... Buzinas infernais, ronco de motores, freios... Gente que vai, gente que volta. Vidas que desfilam, anonimamente, ante olhares já estupefatos.

Nesse caos, de intermitentes sons, um silêncio prende a atenção. Lá está ela. A mulher sozinha, em seus diálogos imaginários e gestos intermináveis. Com uma pequena faca na mão,ou algo parecido, aos poucos o mato é desbastado. Célere e incansável, ela faz os galhos e ramos se desprenderem da cerca e ao chão se entregarem. E ali, paralisados, ao calor do sol escaldante, desfacelem.

E a mulher, de roupas imundas, rasgadas no incansável uso, não abre mão da sua touca vermelha. É seu protetor solar que enfeita a face já maltratada pelo tempo...

Dizem que se chama Lúcia. Ali, naquela rua, sua casa imaginária é limpa, às custas de uma velha vassoura carcomida, já quase aposentada. Seu fogão, sem trempes, não sabe o que é uma panela... acostumou-se à velha latinha, dessas de embalagens descartáveis, todavia, o fogo permanece leal. Não faz escolhas. Nem predileção tem. O que será cozinhado? A “farta” refeição cabe ali, na minúscula vasilha, colorida de preto por conta de tanto fogo aturado.

Vez por outra eu já a vi pentear, incessantemente, os emaranhados fios de cabelo, que multiplicam o volume de forma exuberante. Ela os detém, amarra uma fita, os faz aquietarem-se à força. Esse gestual é feito sempre ao cair da noite, quando a escuridão invade-lhe a “casa” e ela precisa buscar um teto que faça diminuir o frio... Nada melhor que o aconchego sob o viaduto da Amazonas. O cheiro é insuportável, bem diferente de sua “casa” tão limpa... Mas, resignada, ali se refaz para um novo dia.


De longe eu imagino a voz e as questões discutidas... Com quem será ela conversa? O que diz? E por que tanto gesticula? Cessa os movimentos... novamente gesticula, ora com uma mão, ora com a outra... retoma a “capina” daquela cerca de terreno abandonado. Uma trilha de ramos e galhos jazidos demarcam o extenuante labor.

Quem será aquela mulher?! Em qual encruzilhada, na estrada, seus sonhos foram perdidos? Qual foi o desencontro que roubou-lhe a sanidade? Será que aprendeu a driblar a solidão? Que laços afetivos rompeu ou até construiu?




Não resisto. Da janela mesmo eu tiro uma fotografia daquela cena. E, esse pontinho, longe, aí na  foto, é ela, a Lúcia. A foto espelha bem a invisibilidade social a que se submete aquela mulher... Ou que nós, que emprestamos apenas os olhares curiosos, a fazemos submeter-se.

E agora? Serei invasivo se mudar-lhe a escolha? Nada a fazer... O Serviço Social bem que tentou... Ela, intrépida e resoluta, permanece firme no seu propósito de manter-se fiel à sua escolha, aos seus diálogos, à sua “casa” e à incessante “capina”.

Então, nada me resta senão olhar e, quem sabe, aprender um pouco mais sobre tantas e tantas escolhas do cotidiano.

Imagens dos Caminhos