segunda-feira, 17 de maio de 2010

Rio Sem Discurso


http://www.sacrahome.com.br/look/index.php/v/fotos/lugares/
"Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate".

Na bela e instigante poesia de João Cabral de Melo Neto quantos universos, traçados na virtualidade de tantos e tantos blogs, encontram ecos em falas sopradas sem medo... Construções e reconstruções do ser. Assim, e por isso mesmo, sobram algumas poucas palavras: que os nossos discursos saibam soprar vida e, que no leito dessa vida, os poços encontrados sejam abraçados e ao rio devolvidos, revitalizando também a vida que ali jazia.Que haja o saber fazer, o saber ser rio. Que o discurso não seja vazio e ao contrário,  que ele seja carregado de dialogicidade e utopia.

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