quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Pombo Enigmático

Foto de Sandro Silva - Amanhecer na Candelária-RJ


                Na inelutável necessidade do amor (era quase primavera), pombo e pomba marcaram um encontro galante quando voavam e revoavam no azul do Rio de Janeiro. Era bem de manhãzinha.
                —Às quatro em ponto me casarei contigo no mais alto beiral  —disse o pombo.
                — Candelária? — Perguntou a noiva.
                —Do lado norte — respondeu ele.
                —Tá — assentiu com alegria e pudor a pomba.
                Pois, às quatro azul em ponto, a pomba pontualíssima pousava pensativamente no beiral. O pombo? O pombo não.
                A pombinha, que era branca sem exagero, arrulhava, humilhada e ofendida com o atraso, contemplando acima do campanário todas as possibilidades da rosa-dos-ventos. Mas na paisagem do céu voavam só velozes andorinhas garotas, porque as andorinhas mais velhas enfileiravam-se nas cornijas, pensando na morte, como gente fina, lá dentro, nos dias solenes de missa de réquiem.
                Quatro e dez. Quatro e um quarto. Uma pomba sozinha à mercê quem sabe de um gavião, lendário mas possível. Sol e sombra. Como custa a passar um quarto de hora para uma noiva que espera o noivo no mais alto beiral. Como a brisa é triste. Como se humilha em revolta a noiva branca.
                Ah, arrulhou de repente a pomba, quando distinguiu, indignada, o pombo que chegava caminhando pelo beiral mais alto, do outro lado, lá onde, um pouco além, gritavam esganadas as gaivotas do mar pardo do mercado. Irônica, perguntou a pomba:
                — Perdeste a noção do tempo?
                — Perdão, por Deus, perdão — respondeu o pombo — Tardo mas ardo. Olha que tarde!...
                — Que tarde? — perguntou a pomba.
                — Que tarde! Que azul! Que tarde azul!
                — Mas e eu? — disse a pomba  — Sozinha aqui em cima!
                — A tarde era tão bonita —disse o pombo gravemente  — a tarde era tão bonita, que era um crime voar, vir voando.
                — Mas e eu?! Eu!? — queixava-se a pomba.
                — A tarde era tão bonita — explicou o pombo com doce paciência  — que eu vim andando, que eu tinha de vir andando, meu amor.


Paulo Mendes Campos. O Pombo Enigmático, in Quadrante. 
Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1962, pp. 93-94.

7 comentários:

  1. Pobre pomba, entende pouco da poesia masculina. O que é o tempo, hem Gilmar!, senão o espaço entre o aqui e o acolá. Pobre pomba! Abçs.

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    1. É... rsrsrs Pobre pomba! Perde a oportunidade da cumplicidade na contemplação "daquilo" que deveria ser o ninho do amor anunciado... Pobre coitada!!!

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  2. Faltou a telepatia dos golfinhos nos pombos ou, ter asas para quê, se podemos andar? ;)

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  3. VOU TE ESPERAR AMANHÃ NESTE CANTINHO BEM ESPECIAL http://sandrarandrade7.blogspot.com.br/
    TEM SURPRESA BEM ESPECIAL PARA OS AMIGOS ESPECEIAIS. VENHA VOU TE ESPERAR, NA CURIOSA TANBÉM TEM O LINK PARA A GRANDE SURPRESA, NÃO DEIXE DE VIR. VOCÊ É O MEU(MINHA) CONVIDADO(A) ESPECIAL.
    CARINHOSAMENTE.
    SANDRA
    AMIGOS COMPARTILHAM. PRINCIPALMENTE NESTA DATA BEM ESPECIAL DA MINHA VIDA.
    CELEBRE A VIDA.

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  4. Olá, Gilmar
    O amor se perde do amor... é costumeiro!!!
    Abraços fraternos de paz e bem

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  5. He he. Adorei. Mas não há problema. ... Mas tardes bonitas há muitas. ... E se fosse ela quem chega tarde???

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  6. Olá, Gilmar
    Passo, com calma, bem antes da data, para desejar-lhe, com carinho fraterno, que vc tenha Boas Festas neste fim de ano!!!
    "A felicidade é com a gota de orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois que leve oscila e cai como a lágrima de amor".
    Que vc seja muito abençoado e feliz!!!
    Abraços fraternos de Boas Festas

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