Mostrando postagens com marcador Baú do Caminhar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Baú do Caminhar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Caminhar & Ruminar: memórias de um blog. O livro!

 


Remexendo o baú, uma vez mais...

Entre 2010 e 2021, este blog foi estrada, pousada e encruzilhada. Aqui caminhei e ruminei: rastros do cotidiano, metáforas da estrada, causos de beira de caminho, paragens de decantamento, alucinações escaldantes, veredas e bifurcações... Passos que começaram quase apagados e que foram se firmando na caminhada.

Agora, parte desse percurso virou livro. Caminhar & Ruminar: memórias de um blog reúne textos escolhidos dessa estrada, revistos com carinho, sem retoques que lhes tirassem a essência, e acompanhados de ilustrações novas, no traço singelo das pegadas.

Não é obra para vitrine. É registro, é memória, é gratidão. E fica aqui, à disposição de quem, por acaso, tropeçar nesses escritos e achá-los dignos de alguma leitura.

O livro é gratuito e pode ser lido, guardado e compartilhado à vontade, com o crédito do autor, sem fins comerciais e sem alterações.

📘 Baixe em PDF: Memórias de um blog
📗 Baixe em EPUB (para leitores digitais e celular): Memórias de um blog

A todos que caminharam comigo por aqui, comentando, discordando, provocando e acolhendo: este livro também é de vocês.

Até a próxima curva! Grato!

sábado, 4 de junho de 2011

Baú do Caminhar: Precisa-se!


Foto: Estrada Fria, de Bruno Ramalho
 Baú do Caminhar

Precisa-se!

Texto publicado em 24 de junho de 2010.

 

Preciso pedir desculpas por andar tão distante dos blogs. Não tenho visitado e, pior ainda, não tenho retribuído o carinho e a presença de tantos caminheiros... Algumas mudanças, de ordem profissional, estão a tomar-me o tempo, além da corriqueira rotina.

 

E, em tempos de tantas outras atribulações, o texto que hoje republico reflete muito dos passos em curso... Já na próxima semana espero poder retomar as visitas a cada um que ainda passa por aqui... Por enquanto, então, um fraternal abraço!

 




Precisa-se de alguém que ensine a alegria, quando a dor dilacera o espírito. Alguém que mitigue a mágoa e o rancor, porque a perda foi por demais dolorida. Alguém que ensine passos de dança, talvez um bolero, um tango, ou quem sabe um foxtrot, para aliviar os pés metidos na lama do desencontro. Que faça o corpo inquietar-se ao som da música, já que a mesmice paralisa os movimentos.


Precisa-se de alguém que ensine a assobiar músicas antigas, das mais melodiosas ao chorinho bem ligeiro, assim, quem sabe, a voz se erga e não mais retorne ao chão. Alguém que saiba acender fogo atritando paus ou triscando pedras, no meio do nada e no vazio do ser, assim, quem sabe, a alma se aqueça no sopro e no abano e resolva não mais chorar.

Precisa-se, desesperadamente, de alguém que ensine o olhar da lua, majestosa em seu brilho, e assim acalmar a desesperança. Alguém que saiba oferecer o abraço, para impedir que a distância aumente. Alguém que ensine plantar rosas vermelhas, em canteiros de terra em água salobra, assim, quem sabe, o adubo da cumplicidade faça nascer pétalas de ânimo.

Precisa-se, com extremada urgência, de alguém que empreste uma lamparina e assim as sombras da solidão, mirando no filamento de luz, permitam-se à claridade do outro. Alguém que saiba receitas de chás de raízes e que as conheça muito bem, é para evitar que as ervas daninhas se proliferem no coração e acabem sendo servidas com gosto de remédio caseiro.



Precisa-se, irremediavelmente, de alguém que ensine a magia do circo. Que ensine malabares, trapézio, mágica e acrobacias. Quem sabe, assim, seja possível aprender flexibilidade e tolerância. Aprender a generosidade do palhaço, que espalha o riso, para não deixar que jamais morra a criança que ainda se esconde sob lonas carcomidas e cheia de furos.



Precisa-se de alguém que saiba conjugar verbos complexos, que explique com clareza o pretérito imperfeito e o gerúndio. Quem sabe, assim, o futuro do presente se evidencie nas atitudes e elas não mais regridam no tempo em busca de respostas que já se perderam.


Precisa-se de alguém que seja exímio em matemática, para desmistificar a subtração e a divisão que se vestem do pranto e ensinar, então, a soma de fragmentos, ora desconexos, e a multiplicação de valores que não morreram, só esmoreceram.




Precisa-se de alguém que saiba consertar molduras e ensine como restaurar o quadro que reflete a história de vida. Ensine a pincelar ranhuras expostas, a colorir com vivas cores o cinza dos percalços. Quem sabe, assim, se aprenda a olhar prá dentro de si mesmo, admirar o desenho das conquistas e constatar que outras interpretações ainda são possíveis.



Precisa-se de alguém que ensine exercícios de respiração, para que o abdômem perceba-se importante e o diafragma apague a sofreguidão da agonia. Talvez, assim, sejam soprados, para muito longe, a tristeza nos olhos, o silêncio no coração e a solidão das palavras.



Precisa-se, mais que nunca, de alguém que saiba implodir prédio humano, derrubar paredes de ódio e desmanchar telhados de covardia. Alguém que saiba ao menos esboçar projetos. Assim, quem sabe, ainda restará um fio de esperança na reconstrução de um novo sujeito, com paredes solidárias e apaziguadas, cobertas por telhas de lealdade.



Precisa-se de alguém que não seja míope: é para ajudar a encontrar os óculos da verdade, perdidos nos descaminhos da frustração.



Precisa-se, desesperadamente, de uma "vuvuzela" que faça dispersar os pesadelos, vibrar com o time dos sonhos e acordar, definitivamente, para si mesmo. Reconhecer-se errante, mas amparado em todas e cada uma das necessidades gritadas.


Precisa-se, sem pressa alguma, com toda paciência, de um beijo demorado, de um sorriso balbuciando frases desconexas, de um abraço ofegante e de olhos que fazem suspirar a paixão.





Precisa-se...






Créditos das fotos:
1- Tango: Isabel Silva
 2- Lua: Hermínio
3- Palhaço: José Neves
4- Pintura: João Vasco
5- Implosão: Paulo Liebert
6- Vuvuzela: Darko Vojinovic
6- Beijo: Gutobp

sábado, 21 de maio de 2011

Baú do Caminhar: Metamorfose

Metamorfose

A idéia de republicar textos tem mesmo esse propósito de revisitar construções forjadas ao longo da estrada. Metamorfose é um desses textos instigadores do necessário aprendizado de vida. Saber-se "em trajetória incompleta" e sujeito aos "tempos" e ritmos exigidos impõe uma permanente predisposição à reflexão... É sempre tempo de resignificar passos...

Texto publicado em 4 de junho de 2010. 


     ”...Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.
    Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito. Eu o esquentava, impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las. 
    Curvando por cima dela, eu a ajudava com o meu hálito, em vão. Era necessária uma paciente maturação,o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol; agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo. Ela se agitou desesperada e alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.
     Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois, hoje, entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis. Temos que não nos apressar, não ficarmos impacientes, seguir com confiança e ritmo eterno”.
Nikos Kazantzákis


Tudo tem o seu tempo certo. E como aprender a vida se assemelha à metáfora, à metamorfose! Veja como as convidativas e necessárias rupturas incessantemente desafiam. É como vencer o invólucro! É preciso trabalhar esse processo... Tempo!

Os ambientes onde construímos nossas aprendizagens do cotidiano são igualmente eivados de possibilidades contraditórias, diferenças, surpresas e tantos outros senões... É que lidamos com o ser humano, com sua incompletude, sua incerteza, sua beleza, sua mágica exuberância e sua contundente complexidade, de seus múltiplos e diversos valores.

Ali, nesses mesmos ambientes, nos confrontamos, por certo, com tropeços do nosso discernimento, com a insensatez que perambula solta e com a pequenez que retumba da turbulência de tempos idos, ainda não mitigada. Feridas expostas, quase gangrenadas. Dores lancinantes.

Precipitamos escolhas e embarcamos a rumos desconhecidos. Depois, mal resolvidos, queremos a todo custo desembarcar do trem a toda velocidade. Queremos pular. E pulamos mesmo! É quando nos damos conta das feridas que agora marcam o pulo. Cicatrizes de escolhas.

Quantas e quantas vezes sopramos mais do que devíamos! Alimentamos mais ainda as dores, porque não lhe concedemos o tempo de cura! As frustrações viram mágoas, o hálito quente da obsolescência faz aumentar a perda. A ira se aquece no sopro do ostracismo, fica à margem dos passos. A sede de justiça, vilipendiada, ao calor do orgulho ferido, fulmina a verdade num silencioso "autoextermínio". A integridade, ferida de morte, na quentura do revide, abraça o revanchismo tosco, inconsequente e bestial.

No afã de respostas, reparos à dor sentida, nos metemos num ciclo de marginalidade, onde tornamo-nos algozes das utopias que forjaram nossos já combalidos valores. A consciência do duradouro esfacela-se na escaldante incompreensão de efemeridades. O infinito dos sonhos vira ponto final, finito das buscas.

Sopramos mais do que devíamos... Protagonizamos grandes desencontros cravados de interpretações dúbias de nós mesmos. Já não há estupefação! Vaidades exacerbadas servem à subjetivação da empáfia. Teimamos abdicar da verdadeira condição de aprendizes. Não se desenvolve a atitude da paciência, do diálogo, do autorespeito, do autocuidado. Os compromissos evolutivos são desmanchados.

A humanidade, desencontrada de si mesma, faz descortinar esses cenários. Assistimos, impávidos, balas perdidas ceifando inocentes; transgressões no trânsito virando desmanche de famílias; avidez por dividendos virando massacre social, pobreza esquecida e estigmatizada; amores desencontrados virando jazigos que silenciam a esperança. E assim, cada um, filho das lágrimas que violentam a vida, passa a negligenciar o respeito a si e outrem, maculando a dignidade. Sopramos mais do que devíamos... Julgamos fácil, ao sabor das próprias incompletudes cegadas.

A reversão dessa chacina exige, antes de soprar em demasia, o imprescindível mútuo respeito, procurando resolver as discordâncias, não pela aceitação passiva ou autoviolentadora, mas pela síntese dos contrários, por uma postura crítica, revisionista e compreensiva, à luz de uma visão holística requerida. É indispensável aprender a confiar no ser humano, a estabelecer um credo de fé na humanidade.

A Psicopedagoga  Antonia Nakayama argumenta, em relação ao aprendizado, que é preciso levar na alma um pouco de marinheiro e o entusiasmo pela travessia; um pouco também do pirata, aventureiro de mares desconhecidos e um pouco de poeta, para mostrar a busca do aprender como metáfora da própria vida, e ainda, muita paciência para esperar o momento em que se possa assumir o controle do próprio barco, para somente depois, alcançar outros tantos portos com o que se construiu de conhecimento e de si mesmo. O processo de apreender a vida, no qual somos atores e autores – nós nos confundimos nesse palco –, só pode ter como meta a autonomia, mas não nos esqueçamos da borboleta em seu casulo... É preciso ser paciente nessa construção, posto que isso pressupõe a construção do outro e de si.

É preciso servir atitudes de empatia e inclusividade, enquanto atenção não preferencial, enquanto posturas acolhedoras das polaridades que transitam no nosso universo. O isolacionismo não tem lugar. De costas e escondido das pessoas que partilham o mesmo trajeto que eu, não consigo ver onde erro, não tenho a dimensão dos meus acertos. Não avanço. Corro o risco de sofrer o mal da paralítica arrogância.

O convite se coloca para aprender a trabalhar as ansiedades, no ritmo e tempo exigidos, a corrigir caminhos, retomar rumos, autocorrigir-se constantemente, propor e aceitar mudanças, melhorias graduais de nós mesmos, gerando assim a irreversibilidade dos grandes encontros de vida conquistados.

Proponho então, antes dos afoitos sopros, que aprendamos a semear sementes da coragem, da vontade, da superação, da disposição e de valores humanos. E que cada um as aqueça, no casulo do coração, para que os brotos possam ser transplantados a outros que caminham a ermo, na escuridão dos seus desencontros.


domingo, 8 de maio de 2011

Baú do Caminhar: A Mediocridade do Meio

Foto: Ian Britton



A Mediocridade do Meio 

Gosto deste texto também, mesmo porque, ele complementa os dois textos que o antecederam, ou seja, Mania de Pressa e Sapo Escaldado. Se a intenção era sintetizar as reflexões, penso que o objetivo não foi alcançado. Ao contrário, este texto permite outras extrapolações nas reflexões. E tamanha foi a pluralidade nas compreensões e análises comentadas, valorizando extremamente os meus rabiscos, que seria imperdoável não lhe dar lugar neste Baú de republicações.

Texto publicado em 27 de maio de 2010.  




"Não Espere Pelo Epitáfio... Provocações Filosóficas", é um prazeroso livro de Mário Sérgio Cortella, que reune crônicas publicadas na Folha de São Paulo, entre 1994 e 2004. O livro foi publicado em 2005. Ainda assim, os argumentos são contemporâneos, atualizadíssimos.

Discutindo sobre o "caminho do meio" ou os riscos provocadores de transbordamentos, há trechos da crônica "Não espere pelo epitáfio", quatro parágrafos, que precisam ser reproduzidos, tamanha reflexão permitida.

"Ora, há dezenas de mitos, fábulas e histórias com a finalidade de exaltar a exclusividade e preferência do caminho do meio; o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade. Em nome da sobriedade, da prudência e do comedimento, o máximo que se obtém em muitas situações é a mornidade mediana, regrada e constantemente refreada".

O autor prossegue discutindo a questão da "mornidade", se é que podemos dizer assim, e a necessária e cabível compreensão do que é radicalismo e sectarismo. E continua nas provocações...

"É preciso ter limites, mas, estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um 'eu devia ter...' Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros Titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora (e muitos com eles): 'Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer'...

A sabedoria para equilibrar essas inquietações pode ser encontrada na reflexão feita no século 5 a.C. pelo filósofo chinês Confúcio: 'Eu sei por que motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém'."

E ele conclui: "Radicalidade  é uma virtude; o vício está na superficialidade".

Por que eu quiz trazer esse texto à tona? É que, numa abordagem anterior (Mania de Pressa), eu discuti a questão do nosso ritmo frenético. A maneira como esse mundo globalizado está a exigir respostas rápidas. Mal conseguimos respirar em meio a passos atordoados. E a gente acaba se esquecendo de olhar coisas tão simples do cotidiano. Nossa leitura sofre o revés do óculos da pressa.E por meio dele criamos conceitos, concluimos, definimos atitudes. Eu continuo concordando com Antonio Porchia: "as pequenas coisas são o que é eterno, e o resto, todo o resto, é brevidade, extrema brevidade".

Já numa outra discussão (Sapo Escaldado), discuti a nossa intolerância às mudanças graduais, a forma como nos acostumamos e nos permitidos acomodar. O quão inertes ficamos ante as desacomodações necessárias. E o quando é imperioso o inconformismo consciente.

Mas então, o caminho certo é o do meio? Nem pressa e nem acomodação? Cortella entende que o meio pode ser mediocridade. O meio é medo de ousar. O meio é acomodação.

É um convite interessante esse, o da ousadia, dos transbordamentos. Contudo, somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.

A "blogueira" Pri Sganzerla, do "Devaneios e Metamorfoses" fez um comentário extremamente relevante, acerca do "Sapo Escaldado":
"Só trazendo um testemunho: realmente não é nada fácil adotar essa postura. E nem sempre isso é uma escolha, tem gente que simplesmente 'nasce' assim. E enfrenta muitos percalços ao longo do caminho por ser 'diferente'. Difícil adaptar-se a um mundo que, a todo instante, insiste em te cozinhar vivo. Mas sucumbir não é uma opção pra mim. Porque eu sei que a dor de perder a si mesmo é bem maior do que a de lidar com a dificuldade de ser diferente".

Então, penso que o ponto é esse: a dor de perder a si mesmo...Se abdico da ponte que me liga a outros transbordamentos, então me perco.

Não dá prá fugir de uma simples verdade pedagógica: o ritmo e o tempo de aprendizagem é diferente em cada um. A transitoriedade dos atos que constróem qualquer sujeito, pode colocá-lo, em algumas circunstâncias, no meio. Não significa estacionar por ali. Permanecer inerte. Significa, isso sim, que há um tempo exigido para novas reconstruções do ser.E o simples fato de melhorar a minha compreensão de mundo, de reagir à acomodação, de impulsionar outros sonhos, por menor que seja, é um transbordamento, na respectiva medida de cada um.

Perder a si mesmo é não ter norte. Não saber o caminho. Não acreditar nas escolhas. É permitir-se ser subjugado. É não aprender a consciência de lugar, de cidadania. É por isso que ainda permaneço na dúvida, mesmo na concordância com Cortella.Contraditório, não? O meu meio é ancoradouro de reminiscências de aceitação? É estágio de transgressões? É ponto de parada e estacionamento? Ou é degrau que exige o próximo passo? É parte da construção que faço de mim mesmo ou são estereótipos que se acomplam à minha face? É abrigo de minhas ambiguidades e idiossincrasias ou é visão de futuro, metas e utopias de vida? É medo, paralisia e indolência ou é instância de reflexão e ação? É bem? É mal?

Propositadamente essa discussão permanecerá, aqui, inacabada. Devo permitir que se manifeste em cada um, conforme a visão de "estrada" que se constrói individualmente. E você? O que acha?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Baú do Caminhar: Blogar, Simplesmente!



Blogar, Simplesmente! 

Texto publicado em 01 de junho de 2010. Republico agora, propositadamente, em razão do aniversário do Caminhar & Ruminar, amanhã. E o faço porque traduz muito do que penso acerca do verbo blogar, aliás, como o próprio texto diz, ou seja, "conjugar o verbo blogar é desafiador e ao mesmo tempo hipnótico.

Gosto muito deste texto, principalmente porque transcrevo uma fala do JefhCardoso que é simplesmente magistral. Tomara que você também goste!



Dia desses, fui invadido pela curiosidade, após visitar um blog que acompanho e me deparar com um convite para a “2ª Blogagem Coletiva”, cujo tema era “Fotografe e conte a história”.

Blogueiro iniciante que sou, mesmo ressabiado, lembrei-me de um texto que publicara semanas atrás. Não contive o ímpeto e decidi que deveria viver a experiência.

Contatos feitos, ajeitei meu texto, inseri o ícone da 2º Blogagem proposta pelo Espaço Aberto e mergulhei na maratona. Visitei cada um dos blogs participantes, cinqüenta no total! Cada qual mais bonito que outro, recheados de efeitos, cores cintilantes, arranjos e layouts convidativos. Tanta vibração! Tantas vidas se misturando! Tanta gente, se fazendo conhecer e costurando relações de amizade e mútua cumplicidade!

O tema, único, revelou plurais compreensões e, em igual medida, múltiplas formas de expressão: poesia, prosa poética, crônicas, enfim, rimas e textos exuberantes, a explicitar sentimentos e verdades confessadas na virtualidade dos encontros.

Eu, navegante do instante, busquei em cada comentário postado, ser um pouco analista e sintetista, interpondo à racionalidade, grandes pinceladas de intuição, com a devida humildade para assumir o meu próprio tamanho. Ainda assim, insisti na consciência dual, buscando enxergar a mínima parte no todo e o todo na imensidão da parte. Só podia nascer encantamento!

Conjugar o verbo blogar é desafiador e ao mesmo tempo hipnótico. Ninguém melhor do que JefhCardoso para falar sobre isso:

“O Blog, á nossa maneira, á maneira do blogueiro amador, blogueiro por amor, não dá dinheiro; mas dá prazer. Isso sim. Quando bem trabalhado dá muito prazer. Quando elaboramos uma postagem nos percorre os sentidos uma onda de alegria. Somos tomados por uma euforia pueril. Tornamo-nos escritores ou escritoras que “parem” seus filhos; tornamo-nos editores; ou produtores; ou mesmo jornalistas, ainda que não o sejamos; tornamo-nos poetas e poetisas; contistas e cronistas; romancistas; críticos até. Queremos compartilhar o quanto antes aquilo que criamos. Criar é uma parte deliciosa do “blogar”; e blogar é a expressão máxima da democratização literária – e os profissionais que não façam caretas, pois, se somarmos todos os leitores de blog que há por aí divididos fraternalmente entre os milhões de blogs espalhados pelo grande mundo virtual, teremos mais leitores que Dan Brown e muitos clássicos adormecidos sob muitos quilos de poeira.
Postar é tudo de bom! Quando recebemos comentários o prazer é dobrado. Vem gente mais letrada que a gente, vem gente simples como a gente, vem gente nova e gente experiente; vem toda a gente; ou simplesmente não vem gente. Em meu caso, especificamente, quando não veio gente eu chamei as pessoas de meu convívio; ofereci um papelzinho do tipo convite com o link e fiquei esperando, ou então enviei o link por email; os amigos não me decepcionaram. (sorrio). A eles sigo muito grato. Pois se não são os comentários... Ai de nós blogueiros quando solitários! Confortamo-nos com a possibilidade das visualizações dos leitores tímidos”.

O Jefh foi  extremamente feliz neste texto! Conseguiu exprimir, com primazia, os sentimentos dos quais, todos nós blogueiros, somos tomados.

Penso que os comentários têm então a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado.

Os comentários, necessariamente, devem consentir a ampliação do ser humano, que se direciona, na individualidade de cada um, para a autorealização e, claro, na virtualidade da coletivização em direção à inter-relação.

Não se trata, portanto, de conspirar ou rechaçar egoísticamente a pluralidade de manifestações. Antes, porém, trata-se de aprender a conhecer-se refletido no outro e apreender o outro como possibilidade de melhorar o ser que habita nossa simples alma de blogueiro.

Resta pois, voltar a cada um dos blogs, perscrutando leituras. Saber mais. Sorver mais. Saborear mais. E sem dúvida, uma vez dentro, comentar: concordar, discordar, acordar...

sábado, 9 de abril de 2011

Baú do Caminhar: Mãos de Educadores!


 

Mãos de Educadores! 

Texto publicado em 19 de maio de 2010, logo no início do Caminhar, quando ainda me perguntava por onde deviam ser os passos... Este foi um texto que escrevi e apresentei num Seminário de Educação Comunitária, ainda em Brasília.

Não há nada de extraordinário no texto. Ao contrário, é bem simples, mas guarda sintonia ao vídeo, que é magistral! Entáo, ainda na proposta de republicar alguns escritos, fica o convite: apenas imagine!


O vídeo de Ilana Yahav, uma artista que desenha na areia, sobre uma mesa de vidro, usando apenas os dedos e as mãos, confunde-se às "mãos" do educador... "mãos" que constróem a exuberância humana.

Mãos, que criam movimentos na areia viva, grão a grão, formando cenas e permitindo que a emoção ouse sussurrar o verbo encantar...

Mãos, que desenham o oceano humano e as peripécias das ondas, no constante movimento do aprender a aprender...

Mãos, que num mágico movimento, de areias lançadas, convidam nosso olhar ao redesenho do ser...

Então, imagine os movimentos das asas dos sonhos trazidos aos bancos da escola... dos sonhos que alimentam nossas crenças... nossos propósitos...

Imagine como o sol de cada aula acolhe, no diálogo do aprender, as vidas que se constróem nos gestos, olhares, sorrisos e afagos que o mestre empresta!

O sublime ato de educar "se identifica com o pensar e o refletir. E tanto o prensar como o refletir ocorrem a partir da construção do texto de cada um. Na verdade, ao pensar construímos dentro de nós um texto, um discurso, uma fala para dentro. Quando ensinamos, aprendemos, nós mesmos, a tomar posse de nossa reflexão, em nós ou no outro" (Carlos Abdalla).

Permita-se, antes, durante e depois das aulas mais cinzentas, ser pássaro, de asas brancas cor-de-paz, construindo gente... a cada dia... a cada instante!

Assim é você, educador: um grande artista da alma humana. Capaz de juntar cada grão de areia e dar-lhe vida, forma, cor e sentido! Suas mãos, Mestres, tecem o nascer do sol que faz respirar o amanhã!

Apenas Imagine!

 

sábado, 26 de março de 2011

Baú do Caminhar: Reclames da Educação

"lúdico...", de Solange Contrera


Reclames da Educação! 

Texto publicado em 10 de maio de 2010, ainda no início de tudo e trazendo à tona alguns registros da caminhada pedagógica. É um texto atemporal, ou seja, ainda cabe perfeitamente num cotidiano de exclusões e escolhas políticas equivocadas.

O educador, comprometido com seu sonho, em nome de um projeto existencial coletivo, tem cada vez mais aflorada e sensibilizada sua visão prospectiva de mudanças... Educação! Eis aí o grande desafio! Subjugada que sempre foi e clamando por luzes oniscientes, brotadas das mais sérias e compromissadas estirpes de educadores...
Educação que reclama passos firmes e mãos dadas num caminho aberto ao infinito da esperança. Que reclama a presença da verdade, o predomínio da prática-vida e a abominação do discurso vazio. Ela reclama o sonho que em todos os dias é sonhado num banco de escola: o sonho de se fazer presença-guia num cotidiano de exclusões sociais. A educação reclama ética!
    
Reclama o libertar das amarras covardes de ideologias escusas e a abolição da subserviência. Reclama do holocausto a que os mais distantes rincões são submetidos: por onipotência, por omissão, por ingenuidade. A educação reclama a mais explícita vontade política!
    
Reclama ouvidos aguçados, para os gritos sufocados, lânguidos, que se repetem como ecos e se perdem pelos vales sem sol. A educação reclama lucidez!
    
Reclama a coletividade para o sensibilizar, para o auscultar, para o planejar e para o construir. Reclama a fertilização do chão em que se pisa, onde tantas vezes se erguem estátuas ao tempo, abrigo de iletrados e de onde se levantam monumentos que não se explicam e nem se justificam, mas que reluzem aos olhos dos hipócritas e incoerentes. A educação reclama o desvelar da mentira onipresente!
    
Reclama um chinelo para os pés descalços, para os dedos já feridos por tantos tropeços, para que as pegadas sejam demarcadas no tempo e não se percam no horizonte que a humanidade faz descortinar. Reclama coragem, a falta de medo, o repúdio à covardia, para que o homem deixe de fingir o que sabe e abra-se ao saber do outro. Reclama o fim da dicotomia ostensiva e incongruente. A educação reclama pesquisa!
   
Reclama a aula “arco-íris”, que se curva ludicamente na sua volta ao abrigo onde nasceu, mas que encanta, que alegra, que motiva, que se torna um “escorregador” por onde a aprendizagem brinca e se diverte livremente. A educação reclama a criatividade!
Reclama corpo e alma se entregando às descobertas das próprias limitações e capacidades. Reclama a sede ardente do dualismo na educação-miragem hoje vigente. Reclama a sensatez: para a humildade, para o aprender, para o permitir-se, para o aceitar, para  o questionar e para o fazer... Sim... Para o fazer!
    
Reclama o que podemos dar: a disponibilidade de ser. Ser útil, ser disseminador do saber, ser aglutinador de encaminhamentos e profícuo articulador de propostas condizentes. A educação reclama a nossa parceria! E ela só quer o nosso pensar crítico convertido em um fazer responsável!
   
Está feito o convite!
Texto publicado, originalmente, em 10 de maio de 2010.

sábado, 12 de março de 2011

Baú do Caminhar: Sapo Escaldado!


Sapo Escaldado! 

Texto publicado em 23 de maio de 2010, logo no início da caminhada. É um texto especial! Diz muito das minhas buscas e desencontros, à época. E diz muito da forma como penso, ainda hoje, sobre tantos e tantos tropeços! 

 

Acostumamo-nos a não prestar atenção nas pequenas coisas. Habituamo-nos às mudanças bruscas e não às graduais e lentas. Há adaptações cegas às pequenas mudanças...

Somos mais ou menos assim. Somente aquilo que nos toma de assalto nos faz gritar e pular. Aquilo que nos sequestra a paz e violenta nossa boa índole, a inocente confiabilidade nos outros.

Em muito nos parecemos com a metáfora do sapo escaldado, da qual Peter Senge faz uso na “Quinta Disciplina”. É que, se colocarmos um sapo numa panela de água fervendo, ele tentará sair de qualquer forma, não vai se aquietar um só instante e tentará, por todos os meios, pular fora. Todavia, se colocarmos água fresca, numa temperatura agradável, ele simplesmente não fará nada. Vai ficar quietinho. Vai adorar a paz do aconchego.E se acendermos o fogo sob a panela com água fresca, onde se acomoda o sapo e aumentarmos gradativamente a temperatura, ainda assim, ele continuará lá. E mais, ficará quietinho, como quem gosta do que recebe.  Quanto mais a temperatura subir, mais ele continuará estático. Sem poder de reação. Quanto mais a temperatura aumentar, mais ainda o sapo vai calar-se, até que, escaldado, cozido, fenecerá com a mesma empáfia de sua acomodação. O mecanismo interno, que responde pela detecção de ameaças à sua sobrevivência é regulado apenas para identificar mudanças bruscas. Súbitas alterações. O sapo é inepto às ameaças graduais.

Quantas vezes e em tantas circunstâncias, também nós, meros mortais, criamos o hábito da plena quietude. Numa ilusão de ótica, tudo parece calmaria no mundo que mora lá fora. Entretanto, ao calor da vida, dos desencontros, tropeços, sofrimentos doídos, relações rasgadas e desapontamentos de toda sorte, essa mesma quietude faz abrir uma lacuna, uma grande distância. Já não vemos nada. Não enxergamos nada. Não escutamos nada. Somos consumidos, aos poucos, por esse mesmo mundo, do qual esquecemos fazer parte.

Criamos o hábito da acomodação nos pequenos e diferentes mundos, ricos em ausência de criticidade, vazios em consciência cidadã e humanística. Por vezes somos também admoestados a permanecer no mais absoluto silêncio, quando as poderosas mídias, com suas hipocrisias, bairrismos e idiossincrasias, faz o convencimento do "jeito certo" que cabe a cada um. É a submissão ao escárnio da “massa”, falida em vontade e autoestima... Zombeteiros de plantão, por vezes somos levados a acreditar, com fé inarredável, de que a verdade vem sempre de outra direção, é sempre soprada por outros ventos. E, na cegueira de abismos emocionais, ignoramos o sublime livre arbítrio a que temos direito exercer.

Marina Colasanti fala do quanto a gente se acostuma às coisas. A gente se acostuma ao cansaço do cotidiano; a pagar mais pelo que se quer; a travar batalhas sem fim, para ganhar o pão de cada dia, afinal os sonhos têm preços. “... A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma".

Feito o sapo escaldado na aconchegante água morna, quanto mais a voz se cala, não se sente mais o fogo brando... A gente teima em "empurrar com a barriga" os desconfortos a que somos submetidos, porque assim permitimos... E sem perceber, aos poucos desfacelemos.

Penso que o estágio adequado é o de inconformismo. É preciso aprender a dizer não, quando a vontade é de dizer não. É preciso aprender a dar passos em direção oposta, a retroceder dois passos e avançar apenas um...

Não é tarefa fácil a rebeldia. Não é decisão fácil a oposição. E as discordâncias não podem significar uma mera bandeira de resistência. Não se trata de “pintar a cara” e estabelecer mais um rótulo. É, antes de tudo, uma questão de dignidade. Trata-se da não aceitação da vantagem fácil. Da recusa ao egocentrismo mesquinho. Trata-se da crença na ética. Trata-se de enxergar, sem o rubor da vergonha, a mesma face no espelho, todos os dias ao acordar.

Não é uma questão de acolher conceitos impositivos ou habilmente incutidos. Trata-se do hábito de cultivar o discernimento e a criticidade. Não é a atitude da conciliação passiva, submissa e cabisbaixa ante o domínio da eloqüência dos que se vestem de poder, dos travestidos de bondade e serventia. Trata-se de refutar, com a mais cristalina das vontades, a opulência de moedas saqueadas na exclusão social. Trata-se de educar-se na retidão e, sobretudo, de ser leal a si mesmo. Trata-se da recusa intensa, indecente até se for preciso, em não tolerar ser fantoche em qualquer que seja o palco. Trata-se de não permitir ser cozido vivo, não ser levado à morte, ao imobilismo estratégico e vil. Trata-se de escolher a vida. Trata-se de viver, no sentido mais intenso e completo que o verbo permitir.

Cabe aqui resgatar uma fala providencial da Elenita: “Não se trata do tamanho do desafio, se trata do seu tamanho. Ou você é uma pessoa que se deixa deter ou é uma pessoa que não se deixa deter. A escolha é sua. Pensamentos conduzem a sentimentos, sentimentos conduzem a ações e ações conduzem a resultados”.

O hábito pode tornar-se aceitação passiva do que não pode mais ser tolerado.




“Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de minha altura”.
Fernando Pessoa



Imagem: http://sergiostorch.com/wp-content/arquivos/boiling-frog-300x264.jpg

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Baú do Caminhar: Mania de Pressa!

"Pressa...", de Rui Barreira

 Baú do Caminhar

A gente tem mania de pressa... Somos movidos a urgências. E a gente corre, quando devia acalmar os passos.

Talvez, daqui a algum tempo, a memória venha cobrar contas difíceis. Exigir reparo a tantas transgressões idas, sob a égide da pressa.

Nossa ordem de prioridades raramente contempla a efetividade da afetividade. Somos premidos por resultados. Respostas ágeis ao labor dos dias mais nublados.

Apressa-se o olhar. Ele já não carrega tanta ternura e compaixão. Os corpos em movimentos laterais, os que se colocam adiante dos passos  e até mesmo aqueles prostrados nas calçadas, são apenas pontos demarcados no espaço para desvio de rota. São objetos sobre os quais já não se presta tanta atenção. Há pressa de cruzar a rua. Chegar noutro lado.

Os seres "inanimados", que circundam minhas adjacências, também emprestam a mesma redundante pressa no olhar. Engraçado isso! Estranhos tão próximos, quase sempre numa mesma rua, numa mesma esquina... mas ainda estranhos. São mais estranhos que a vitrine da loja. Nessa os olhos costumam repousar, ainda que a avidez exija olhar tudo em tempo recorde.

Se os passos são rápidos e largos, alguns encontros são também sufocados, quando não, fugazes. Há pressa no abraço. Por vezes ele é trocado por um rápido aperto de mãos, isso quando, por intransigência do outro, já não é mais possível oferecer apenas um sorriso morno, com pequenos movimentos alternados das sombrancelhas. Uma melancólica tentativa de justificar a pressa.

Por conta da pressa, desaprendemos a arte de escutar os sons relâmpagos do cotidiano. Minha voz precisa eclodir, antes de qualquer outro. A intolerância exige ritmo acelerado. A paciência se esvai. A pressa não permite tais banalidades. Tais deleites  são refugados na contraordem do ritmo frenético.

Desaprendemos a procrastinar...É isso mesmo! Talvez se assim o fizéssemos, poderíamos reter o tempo... acalmar os passos... abafar o tic-tac do relógio tarefeiro e, quem sabe, olhar com a alma a simplicidade das "coisas" esquecidas.

É na calmaria, longe das turbulências incontidas, que o horizonte faz descortinar outras possibilidades. É como diz o poeta:
"Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir"
.

Música: Ando Devagar , de Almir Sater
Postagem original:  dia  21 de maio de 2010

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Baú do Caminhar: Lobos e Avessos

Baú do Caminhar

Gosto muito deste texto! Foi publicado, originalmente, no dia 12 de maio de 2010.
Ainda hoje, sempre que reflito sobre escolhas, eu me lembro da metáfora dos lobos e deste texto.
Tomara que gostem também, pois ele inaugura o espaço quinzenal do Baú do Caminhar!

"Lobos", de Pedro Serra

É muito conhecida a metáfora dos dois lobos, divulgada amplamente na internet. Ela se parece muito com nossas escolhas, com nossas intempéries atitudes e, claro, confunde-se, o tempo todo, com cada um de nós, simples seres mortais. A metáfora é assim:

“Um velho avô disse ao seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo, que lhe havia feito uma injustiça:
— Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio daqueles que aprontaram tanto, sem qualquer arrependimento daquilo que fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos...
E ele continuou:
— É como se existissem dois lobos dentro de mim, numa luta constante. Um deles é bom e não magoa. Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo fazer isto. E da maneira correta. Mas, o outro lobo, ah! Este é cheio de raiva. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira! Ele briga com todos, o tempo todo, sem qualquer motivo. Ele não pode pensar porque sua raiva e seu ódio são muito grandes. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar coisa alguma! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito.
O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou:
— Qual deles vence, Vovô?
O Avô sorriu e respondeu baixinho:
— Aquele que eu alimento mais freqüentemente".

Eu me deparo brigando com meus limites, com minhas escolhas. Ao longo dos dias cultuei valores, propaguei atitudes e extrapolei constructos. Reconstruí concepções, reformulei compreensões e uma vez mais, debato-me, numa incessante luta, com meus percalços limítrofes.

O aprendizado mais difícil é exatamente esse, o de revirar-se por completo, desnudar-se e, ante o espelho do cotidiano, deparar-se com o seu avesso.

A morada desse avesso apropria-se, de forma intangível, mas ao mesmo tempo de uma maneira eloquente, de suas incongruências inconfessas. São lobos soltos no tempo, com mandíbulas robustas e caninos afiados. Ao menor descuido se prontificam a vesti-lo noutra roupagem e chantageiam suas crenças, num abraço infindável à fragilidade exposta.

As unhas esfomeadas dilaceram o coração, tornando-o pateticamente poético e romantesco. A nova roupagem já começa a ditar as frases desconexas.

A volúpia do abraço mortífero já não reconhece quaisquer resistências. Aos poucos tudo é despedaçado e vorazmente consumido. O avesso vive. Prostitui o meu norte.

Entretanto, nessa incontida briga, a consciência reclama e chora cada pedacinho de utopia assentada na argamassa do abrigo esmorecendo. Afinal, o que mais alimentei na caminhada? O que, de fato, sustenta meus propósitos? E, por que no vacilo do tropeço, remexeram meu avesso?

É porque me descuidei. Permiti a solidão da dor. Ressenti as perdas. Não diligenciei minhas vicissitudes. Não auscultei minhas angústias. Não respeitei meus medos. Não acreditei nas minhas verdades extenuadamente vividas. Assim, frágil de amor próprio, combalido e atordoado, letargicamente perdido e ferido, assisto o meu avesso vestir-se para a festa. Vai comemorar meu vergonhoso fracasso.

Na briga, que persiste, um sopro de luz, um pequenino e tênue sopro de luz ainda faz respirar a alma inerte. Acesos, os olhos já não fogem da horrenda visão que o avesso impõe. A memória reconstrói forças. Na sofreguidão do abismo, as mãos já conseguem agarrar-se às histórias de cada uma das encruzilhadas vencidas, onde cada escolha redesenhou-me, de forma transformadora.  Impetuosamente, o que dilacerado estava, se ergue refeito. Na consciente fúria refuto os lobos carniceiros, dispo-me das roupas emprestadas e o instinto de sobrevivência faz recobrar a pulsação. É a minha metamorfose do renascimento.

Uma vez refeito, depois de tantas desacomodações, aquieto-me num novo aprendizado: a compreensão das minhas imperfeições. Desta feita, porém, sei que o outro lobo não morreu, apenas se afastou e escondido permanecerá. Com certeza, na ânsia de se fazer vivo, ele tentará se alimentar das migalhas que eu oferecer em cada ato, em cada gesto, em cada atitude... em cada escolha!

Agora cada passo dado rumo ao infinito já sabe a face do avesso, por isso mesmo é firme e constante. E cada pegada, largada na estrada, me assegura que os desencontros são pontes que constroem grandes encontros.  

Esse deve ser o propósito! Sempre!