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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"Dedique uma canção a quem você ama!"




Há diversas músicas que marcaram situações e momentos vividos, entretanto, não me lembro de nenhuma que seja assim decisivamente marcante, pelo menos as confessáveis!

Então, trago uma situação que me emociona até hoje e que diz respeito ao meu filho Lucas e a mãe. Ele tinha 5 anos e a escola de Educação Infantil, que frequentava, decidiu fazer uma homenagem às mães, com uma missa.  Num determinado momento da celebração, as crianças juntaram-se no altar e cantaram a música “Velha Infância”, dos Tribalistas.

O fato é que a emoção foi tão intensa e tão forte, que marcou para sempre. A mãe não se conteve e chorou copiosamente. O filho, ao ver a mãe chorar, continuou a cantar, com lágrimas também descendo à face. Depois da música se abraçaram demoradamente. E, a partir daquele momento, por vontade espontânea de ambos, aquela música ficou eternizada como sendo a música dos dois. E até hoje, onde quer que ouçam “Velha Infância”, um dos dois logo  procura o olhar do outro e verbalizam: “olha a nossa música!”.

E eu entendo o tamanho do amor que anunciam!

Velha Infância

Tribalistas

Composição: Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte


Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor...
E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...
Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só...
Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor...
E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...
Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só...
Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim...
Você é assim...
Você é assim...
Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Penso em você
Desde o amanhecer
Até quando me deito
Eu gosto de você
Eu gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor.



Esta postagem faz parte da
Blogagem Coletiva proposta pelo Espaço Aberto, 
cuja temática é "dedique uma canção a quem você ama!".

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Se eu fosse mulher por um dia...

Cupid's Arrow, de José de Almeida & Maria Flores


Se eu fosse mulher, por um dia, queria desconhecer o cansaço e a irritabilidade da rotina, nos afazeres de casa. Não conseguiria ser essa mulher multifunções, "multitudo". Essa mulher "prendada" não sobreviveria!

Queria navegar em descobertas esfuziantes e a primeira curiosidade seria sobre os "mistérios" que povoam o banheiro feminino. Saber porque se vai ao banheiro feminino em duplas ou tríades, o que acontece lá dentro e porque o retorno é sempre acompanhado de largos sorrisos na face. Talvez sejam os encantos do "espelho espelho meu", em meio a bolsas recheadas de surpresas. Talvez...

Outra sensação, que deve ser deliciosa para se descobrir, seria o uso despudorado do cartão de crédito. Essa moeda plástica, que tantos desatinos provoca, tem seus segredos revelados em sapatos, roupas e outras tantas sacolas de grifes. Deve ser fantástica a emoção compulsiva das compras! Loja após loja, num infindável movimento de despir e vestir, até o "é esse"! Mais uma relíquia para o closet.

De outras tantas eu fugiria. Depilação então, nem pensar! Precisaria ser sofisticada, a laser ou qualquer outra tecnologia indolor. Nada de stress! Nada de baixas na autoestima!

De algumas não abriria mão: perfumes marcantes, hidratantes rejuvenescedores, peelings revigorantes, silhueta justa e contornos de violão, uma sereia que não exigisse dietas mirabolantes. Comer sem culpa, viver sem culpa! Por um só dia é até imaginável!

O melhor seria mesmo descobrir o "secreto" das falas, das conversas informais, dos segredos femininos discutidos sem receios, entre iguais. Saber tanto das dores quanto do êxtase! As aventuras inconfessas, as ousadias e transgressões segredadas.

Mas ser mulher, por um só dia, não seria apenas deliciar-me em futilidades da moda, medidas do corpo, pernas torneadas, bumbum enrijecido, pele delicada, cabelos tratados, cosméticos milagreiros e tantos outros "apetrechos" admoestadores do necessário embelezamento. Xô celulites, Xô estrias, Xô culotes. Por um só dia dá prá ficar sem tudo isso!

Ela também é espiritualizada, batalhadora, racional, ímpar. Eu seria então uma mulher superpoderosa, fazendo escolhas de felicidade, não as malogradas. Num só dia dá prá apostar nessas possibilidades.

Todas essas questões de ordem profissional, social e familiar, não seriam tão impossíveis de contornar, afinal, só um dia, passa rápido demais. A enxaqueca nem conseguiria se aproximar.

O grande problema seria controlar a libido. Ah, este seria um problema desastroso a se resolver. É que, enquanto mulher, ainda que só por um mísero dia, não me desvencilharia do meu lado "gay"!

"Arrgggg"! Homens? Nem pensar! Coisa mais esdrúxula, mais repugnante! Os trejeitos arrogantes, a empáfia de conquistadores, o machismo "imbecilóide", os hábitos constrangedores. Não! Isso já seria sacrificante, ultrajante até! Melhor revigorar o meu lado "gay", enquanto mulher!

O lado masculino, na mulher por um só dia, seria o imperativo a não escapulir dos traços. E ele é tão forte, tão encantado pela mulher, que mesmo em sua pele, seria impossível não se perder na beleza do olhar, no desenho dos lábios, no contorno da face, no convite dos olhos, na sedução do andar e no desejo que faz exalar!

Se eu fosse mulher, por um só dia, haveria de fazer sobreviver e sobrepor a todos os outros, a todo custo, o meu lado "gay"! Seria impossível, insípido e intragável imaginar diferente! 




Este texto participa da Blogagem Coletiva proposta pelo Espaço Aberto.



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Olhar Feminino

Dos olhares que me encantam, não há como me esquivar, é o da mulher o que mais fala à alma deste homem! Esconde segredos que não consigo desvendar. E são tantos olhares num só, que é impossível deles não me enamorar!

Olhar de aconchego... Que inspira o abraço, pedaço que se dá. Olhar de paz anunciada, de ninho oferecido. É acalento de prantos, na redenção do encontro.

Olhar de luta... Que não se embrutece na diferença. Que não recua!  Que não desiste. Que persevera, porque assim faz crer sua história. Que não cede ao silêncio das sobras e nem se permite violentar na voracidade de preconceitos da segregação profissional. Não se entrega nem se deixa avassalar. Resiste! Insiste!



Olhar de dor... Que não se furta às lágrimas. Que se transforma em força brotada das entranhas. Que avança, mesmo quando os estilhaços ainda machucam os pés. Que não faz quedar ou prostrar o ânimo. Que escancara o sofrimento, mas declara um sempre recomeçar.

Olhar de saudade... Que é nascida da sensibilidade, mas não se deixa consumir por ela. Que refuta a privação e faz altaneiros os sonhos perseguidos. É feito a própria palavra, quase indecifrável em outras línguas, mas tão bem alimentada nos olhos da mulher brasileira.

Olhar de sedução... Que surge feito jeito tímido e suave de dominação, de conquista. É audácia despindo o desejo. Faz despertar no outro a ousadia pelo magnetismo das vontades confessadas. Insinuação que exala perfume. É o flerte da poesia, ou como diz o poeta, “o beijo de agora na boca de amanhã”!


Olhar de cumplicidade... Que explicita sintonia. É a simbiose do pertencimento, feito pacto da intimidade, onde já se sabe do mais profano ao mais sagrado, no mais secreto dos mundos. Não há oposições ou contraposições, somente justaposições.



 Olhar de reprovação... Que faz calar a voz no jeito de dizer não, sem gritar. É a recusa ante o fascínio da oferenda! É o jeito de dizer do pouco que a descontenta, sem contradizer sua grandiosa dádiva maternal.

Olhar carente... Que se passa por desamparado, largado e reclamando abraço, mas que no laço da sedução enfeitiça, só porque reclamou proteção.

Olhar de carinho... Que alcança a intimidade, oferecendo bonança ao desavisado. Não reprime, só sabe incluir. Não reivindica, só sabe doar. Não julga, antes sabe perdoar.

Olhar petulante... Que se prontifica intimidador. Que não é arrogante, mas atrevido. Que não é desaforado, mas que inspira cuidados. São fragmentos de autosuficiência lançados feito flechas vicejantes, abocanhadas na senda dos desencontros.

Olhar de êxtase...  Que arrebata os sentidos, confundindo tato e paladar, olfato e audição, numa entrega infindável. Os olhos, mesmo sem perder o encanto, já não se arregalam... Pausam movimentos. Semicerrados, não se apavoram e cedem seu brilho aos sussurros lânguidos. É o frenesi do instante.

Olhar de prazer... Que é confessado na intimidade, no alcance do delírio que excede, desmedido em si mesmo.

Olhar de mulher... Que na intensidade da emoção revela a fêmea consciente do que busca, nos seus múltiplos e maduros olhares. E por conta de tantas mulheres habitarem uma só e de tantos olhares repousarem numa mesma mulher, não há olhar de homem que dê conta de decifrá-los.  É legítimo então se render a ela: à mulher e seu olhar...




Este texto participa da "Promoção Feminina" do Blog Milk Shake de Palavras






Crédito das fotos: Olhares.com - Fotografia Online
1- Encantamento: Carlos Pereira
2- Luta: Nuri
3- Dor: Ana Rita Jacinto Rodrigues
4- Saudade: Paulo Cesar
5- Sedução: Nuno Manuel Baptista
6- Cumplicidade: Fernando Tavares
7- Carente e Carinho: Nuno Runa
8- Êxtase: Fernando Bagnola
9- Mulher: Tiago Grácio

sábado, 12 de junho de 2010

MEU JEITO DE DIZER QUE TE AMO


Meu jeito de dizer que te amo é torto, carregado de erros, sinônimos de mim mesmo. Não se parece com contos de fadas e nem rimas sabe aprontar.  Mas você sabe o grande segredo: o segredo de quem é o homem que este jeito sabe guardar!

Meu jeito já não carrega mais a delicadeza do namoro, dos beijos intermináveis e do abraço infindável. Ele agora, maduro, ainda conhece os lábios, mas as falas por eles pronunciadas têm o gosto da cumplicidade. O abraço é aconchego de sonhos que não morreram. Sobrevivem à rotina.

É o jeito de aprender a plasticidade humana, no meu espelho cotidiano. De oferecer paciência, quando há pressa. De sussurrar, quando a vontade é gritar. De olhar enternecidamente, quando devorar se faz impossível.

Não carrega o desafio aturdido da angústia. Não reinventa paradigmas. Não permite sobejar a melancolia dos "prontos e acabados"! É, ao contrário, inconcluso porque se refaz a todo instante. É avesso a milagres, porque exige esforço, dedicação, comprometimento, entrega e compromisso. É sensível, porque sabe exercer a escuta que multiplica.

O meu jeito não é escrito nas novelas e não é visto nos filmes, onde a emoção convida a lágrima. Não sai da boca dos poetas, porque a poesia já foi quase esquecida. Não brota de textos magnânimos, pois as letras precisam acudir outros desatinos. Não ecoa feito melodia orquestrada, pois as partituras já se misturaram a esmo.

O meu jeito é enviesado no que aparenta. Confunde-se com displicência e desarranjos outros, mas não é egoísta. Carrega contradições da alma, no desvelamento do desejo. Ainda assim é insano, pois o querer insiste ressurgir a cada passo. Acaba por tornar-se pernóstico, pois sua parcialidade cega-lhe os rumos ante o surgimento do que desconhece.

Acontece de ser também um jeito clichê, perdendo-se em superficialidades e convencionalismos, porque a mutualidade da ressonância ousa distanciar-se. Ele então confunde proteção, de si mesmo, com necessidade de transbordamento.

Mas também se prontifica a proclamar, em alto e bom som, o quanto visceral é. O quanto nas entranhas ele habita.  E grita, sem medos ou reservas, por que assim o crê. Nada de exortação, convocação ou “decretos”. Grita porque se institui enquanto parte de mim mesmo. Porque se arrancado, desfaleço.

Meu jeito não transita num "céu de brigadeiro". Há nuvens remoendo trovões. Há raios que dilaceram. Mas é assim, desse jeito, no mais imperfeito, que aprendo a reconquistar.

Um jeito que encontra eco na afirmação de que “ninguém pode ensinar honestidade em palestras, lealdade com histórias, coragem por analogia ou maturidade pelo correio”. Então, o meu jeito também reclama não ser preciso debulhar palavras ao texto, engrandecê-lo de expressões cativantes, recheá-lo de superlativos mágicos e matizá-lo de verbos doces.

O meu jeito é incadescente, pois sua moradia é a verdade e não deixa adormecer a vontade! É metáfora deste homem, porque os significados residem na constante busca. É cheio de defeitos, quase irreparáveis, mas carrega, na simplicidade, o seu maior e mais contundente axioma: você!


O meu jeito de dizer é nascido da incompletude, porque a minha outra parte, a que eu mais amo, é você.

É o meu jeito...





Aproveitando o dia dos namorados... Um jeito de participar!

Créditos
Foto 01 (Equilíbrio):Crystal Davis
Foto 02: (Espelho d'água): Bruno Deroose
Foto 03: (Tempestade): Jon Liu
Foto 04: (Erupção vulcânica):Rodrigo Buedia

domingo, 2 de maio de 2010

Olhares da Janela


Texto para a Blogagem Coletiva sugerido pelo Espaço Aberto


Do alto, olhares entremeados por grades, vislumbram movimentos frenéticos da vida que corre lá fora. Transeuntes apressados, passos largos, outros tantos desleixados, mornos... Buzinas infernais, ronco de motores, freios... Gente que vai, gente que volta. Vidas que desfilam, anonimamente, ante olhares já estupefatos.

Nesse caos, de intermitentes sons, um silêncio prende a atenção. Lá está ela. A mulher sozinha, em seus diálogos imaginários e gestos intermináveis. Com uma pequena faca na mão,ou algo parecido, aos poucos o mato é desbastado. Célere e incansável, ela faz os galhos e ramos se desprenderem da cerca e ao chão se entregarem. E ali, paralisados, ao calor do sol escaldante, desfacelem.

E a mulher, de roupas imundas, rasgadas no incansável uso, não abre mão da sua touca vermelha. É seu protetor solar que enfeita a face já maltratada pelo tempo...

Dizem que se chama Lúcia. Ali, naquela rua, sua casa imaginária é limpa, às custas de uma velha vassoura carcomida, já quase aposentada. Seu fogão, sem trempes, não sabe o que é uma panela... acostumou-se à velha latinha, dessas de embalagens descartáveis, todavia, o fogo permanece leal. Não faz escolhas. Nem predileção tem. O que será cozinhado? A “farta” refeição cabe ali, na minúscula vasilha, colorida de preto por conta de tanto fogo aturado.

Vez por outra eu já a vi pentear, incessantemente, os emaranhados fios de cabelo, que multiplicam o volume de forma exuberante. Ela os detém, amarra uma fita, os faz aquietarem-se à força. Esse gestual é feito sempre ao cair da noite, quando a escuridão invade-lhe a “casa” e ela precisa buscar um teto que faça diminuir o frio... Nada melhor que o aconchego sob o viaduto da Amazonas. O cheiro é insuportável, bem diferente de sua “casa” tão limpa... Mas, resignada, ali se refaz para um novo dia.


De longe eu imagino a voz e as questões discutidas... Com quem será ela conversa? O que diz? E por que tanto gesticula? Cessa os movimentos... novamente gesticula, ora com uma mão, ora com a outra... retoma a “capina” daquela cerca de terreno abandonado. Uma trilha de ramos e galhos jazidos demarcam o extenuante labor.

Quem será aquela mulher?! Em qual encruzilhada, na estrada, seus sonhos foram perdidos? Qual foi o desencontro que roubou-lhe a sanidade? Será que aprendeu a driblar a solidão? Que laços afetivos rompeu ou até construiu?




Não resisto. Da janela mesmo eu tiro uma fotografia daquela cena. E, esse pontinho, longe, aí na  foto, é ela, a Lúcia. A foto espelha bem a invisibilidade social a que se submete aquela mulher... Ou que nós, que emprestamos apenas os olhares curiosos, a fazemos submeter-se.

E agora? Serei invasivo se mudar-lhe a escolha? Nada a fazer... O Serviço Social bem que tentou... Ela, intrépida e resoluta, permanece firme no seu propósito de manter-se fiel à sua escolha, aos seus diálogos, à sua “casa” e à incessante “capina”.

Então, nada me resta senão olhar e, quem sabe, aprender um pouco mais sobre tantas e tantas escolhas do cotidiano.