quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ser Itaguarense

Pôr do sol em Itaguara - foto de Hugo Resende
Outros Autores

O pertencimento solidário
Geografa identidade
É certidão de inserir-se mineiro

É a gente que nasce e se fazendo se torna
O próprio lugar da gente

Pelas vertentes centrais do centro-oeste metropolitano de Minas
Há Itaguara
O lugar, o povo, o céu, as águas e os pores de sol
Singular peculiaridade no mundo

Itaguarescer-se
É labutar sem sono
Suar sem reclamos
E ainda agradecer

Itaguarescer-se
Também é se dar aos pequenos prazeres
Que colorem o existir de sentido e flores
O céu estrelado, as muitas árvores multiformes
Os sons do mato, as andorinhas a rodear faceiras a torre da igreja

Itaguaresço-me
Ao escutar as noites de luares hemiciclos
E as chuvas com cheiro tímido de verde-natureza

É a fantástica magia da realidade simples
É Minas deveras
Gerais gentes arraigadas

Itaguaresço-me
Quando contemplo os pores-de-sol
Multicoloridos de canto a canto da Conquista
Quando ouço os mugidos sinfônicos das criações
Os farfalhares, chilreares, berros, grasnados, cantares, uivos e assobios
Verdadeiros habitantes

Também ouço num canto nobre
Da alma
Os cantos entranháveis dos cataguas, sapucaias
Amyipagûana

O itaguarense
É o sertanejo-citadino-desconfiado
Adjetiva-se de mineiridades inescusáveis

É o café
O leite
O pão de queijo
O queijo
A broa de fubá
O gado
A lida
A fé
A botina, o canivete, o chapéu e o pito de palha escondido no fundo do bolso raso na calça gastada mas remendada caprichosamente (porque o desperdício não pode)

A conversa, o banquinho, o convite, a visita:
— Senta!
— A demora é pouca.
— Almoça!
— uai...

É o pai, o avô,
O bisavô e o tataravô
Tradição
Mamãe, vovó, bisavó
Sensíveis tradições e humildades herdadas

É recusar agradecendo e desejando
É aceitar recusando
E agradecer muito

Itaguarizar-se
Para seguir na estrada,
Tocar a lida

Itaguarizo-me
Na pataca
Na serrinha
Nas estradas poeirentas bonitas
Pelas ruas simples de magia e gentes
Nas conversas despretensiosas demoradas na venda do Zé Ananias
Entre fumos de rolo, velas de santo e livros de filosofia antiga

Itaguarizo-me
Quando amanheço após noite
de turbulento sonho
Cruz-credo

Ser itaguarense
É transcender palavras
E falar por sorrisos aquiescentes e olhares exprobos
Manter a fé na humanidade e a desconfiança em si próprio
E orar
Sem esperar milagres
Mas acreditando que os impossíveis se fazem quando se merece

É confiar no manto
Da santa que sofre e chora a dor da perda do filho
Que por acaso é Deus

Ser Itaguarense
É Exceder-se algumas vezes
para equilibrar-se para o todo até o fim

Ser itaguarense é não ser melhor
Nem pior
É só ser
Ente

Ser itaguarense
É superar itaguarices
E Itaguareser-se
Itaguarizar-se

É ter um pé no interior e outro na capital
E conservar a alma no interior

É viajar pensando em voltar
É sorrir sozinho despistado
quando a serra de Itaguara se descortina em pontinhos de luz
Alá ó, Itaguara.




Alisson Diego Batista Moraes
Prefeito e Poeta de Itaguara

Esta é uma poesia inédita, publicada com exclusividade no Caminhar & Ruminar! 
Grato, Diego, pela deferência!
  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Olhares da Janela

 Meus Rabiscos
Do alto, olhares entremeados por grades vislumbram movimentos frenéticos da vida que corre lá fora. Transeuntes apressados, passos largos, outros tantos desleixados, mornos... Buzinas infernais, ronco de motores, freios... Gente que vai, gente que volta. Vidas que desfilam, anonimamente, ante olhares já estupefatos.

Nesse caos, de intermitentes sons, um silêncio prende a atenção. Lá está ela. A mulher sozinha, em seus diálogos imaginários e gestos intermináveis. Com uma pequena faca na mão,ou algo parecido, aos poucos o mato é desbastado. Célere e incansável, ela faz os galhos e ramos se desprenderem da cerca e ao chão se entregarem. E ali, paralisados, ao calor do sol escaldante, desfalecem.

E a mulher, de roupas imundas, rasgadas no incansável uso, não abre mão da sua touca vermelha. É seu protetor solar que enfeita a face já maltratada pelo tempo...

Dizem que se chama Lúcia. Ali, naquela rua, sua casa imaginária é limpa, às custas de uma velha vassoura carcomida, já quase aposentada. Seu fogão, sem trempes, não sabe o que é uma panela... acostumou-se à velha latinha, dessas de embalagens descartáveis, todavia, o fogo permanece leal. Não faz escolhas. Nem predileção tem. O que será cozinhado? A “farta” refeição cabe ali, na minúscula vasilha, colorida de preto por conta de tanto fogo aturado.

Vez por outra eu já a vi pentear, incessantemente, os emaranhados fios de cabelos que multiplicam o volume de forma exuberante. Ela os detém, amarra uma fita, os faz aquietarem-se à força. Esse gestual é feito sempre ao cair da noite, quando a escuridão invade-lhe a “casa” e ela precisa buscar um teto que faça diminuir o frio... Nada melhor que o aconchego sob o viaduto da Amazonas. O cheiro é insuportável, bem diferente de sua “casa” tão limpa... Mas, resignada, ali se refaz para um novo dia.

De longe eu imagino a voz e as questões discutidas... Com quem será ela conversa? O que diz? E por que tanto gesticula? Cessa os movimentos... novamente gesticula, ora com uma mão, ora com a outra... retoma a “capina” daquela cerca de terreno abandonado. Uma trilha de ramos e galhos jazidos demarcam o extenuante labor.

Quem será aquela mulher?! Em qual encruzilhada da estrada seus sonhos foram perdidos? Qual foi o desencontro que roubou-lhe a sanidade? Será que aprendeu a driblar a solidão? Que laços afetivos rompeu ou até construiu?

Não resisto. Da janela mesmo eu tiro uma fotografia daquela cena. E, essa "pessoinha" aí, com sua touca vermelha, é ela, a Lúcia. A foto espelha bem a invisibilidade social a que se submete aquela mulher... Ou ao que nós, que emprestamos apenas os olhares curiosos, a fazemos submeter-se.

E agora? Serei invasivo se mudar-lhe a escolha? Nada a fazer... O Serviço Social bem que tentou... Ela, intrépida e resoluta, permanece firme no seu propósito de manter-se fiel à sua escolha, aos seus diálogos, à sua “casa” e à incessante “capina”.

Então, nada me resta senão olhar prá ela e prá dentro e, quem sabe, aprender um pouco mais sobre tantas e tantas escolhas do cotidiano. Depois, erguer os olhos em oração silenciosa e clamar Luz a irradiar proteção e saúde...

Publicado originalmente em 02 de maio de 2010

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Tijolo



Metáfora
Um jovem e bem sucedido executivo dirigia, em alta velocidade, sua nova Ferrari. De repente um tijolo surgiu e espatifou-se na porta lateral do carro.

Freou bruscamente e deu ré até o lugar de onde teria vindo o tijolo.

Saltou do carro e pegou bruscamente uma criança, empurrando-a contra um
veículo estacionado e gritou:

— Por que isso? Quem é você? Que besteira você pensa que está fazendo? Este é um carro novo e caro. Aquele tijolo que você jogou vai me custar muito dinheiro! Por que você fez isto?

Um menino mal cuidado então implorou quase chorando:
— Por favor, senhor me desculpe, eu não sabia mais o que fazer! Ninguém estava disposto a parar e me atender neste local!

Lágrimas corriam do rosto do garoto, enquanto apontava na direção dos carros estacionados.
— É meu irmão. Ele desceu sem freio e caiu de sua cadeira de rodas e não consigo levantá-lo.

Soluçando, o menino perguntou ao executivo:
O senhor poderia me ajudar a recolocá-lo em sua cadeira de rodas? Ele está machucado e é muito pesado para mim.

Movido internamente para muito além das palavras, o jovem motorista, engolindo um imenso nó, dirigiu-se ao jovenzinho, colocando-o em sua cadeira de rodas. Tirou seu lenço, limpou as feridas e arranhões, verificando se tudo estava bem.

Obrigado! E que Deus possa abençoá-lo!
O menino agradeceu, sorriu ternamente e pôs-se a empurrar a cadeira em direção à sua casa.

O homem viu então o menino distanciar-se... Empurrando o irmão em direção à casa... Resolveu que era hora de voltar... Foi um longo caminho até a sua Ferrari... Um longo e lento caminho de volta...

Ele nunca mais consertou aquele pequeno defeito na porta amassada. Deixou-a assim para lembrar-se de não ir tão rápido pela vida a ponto de alguém precisar atirar um tijolo para obter a sua atenção... E refletia: "Deus sussurra em nossas almas e fala aos nossos corações. Algumas vezes, quando não temos tempo de ouvir, ELE tem de jogar um Tijolo em nós!"


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O mineiro dando má notícia

Humor



— Alô, Sô Carlos? Aqui é o Uóshito, casêro do sítio.
— Pois não, Seu Washington. Que posso fazer pelo senhor? Houve algum problema?
— Ah, eu só tô ligano para visá pro sinhô qui o seu papagai morreu.
— Meu papagaio? Morreu? Aquele que ganhou o concurso?
— Êle mermo.
— Puxa! Que disgrama! Gastei uma pequena fortuna com aquele bicho! Mas...ele morreu de quê?
— Dicumê carne istragada.
— Carne estragada? Quem fez essa maldade? Quem deu carne estragada para ele?
— Ninguém. Ele cumeu a carne dum dus cavalo morto.
— Cavalo morto? Que cavalo morto, seu Washington?
— Aquele puro-sangue qui o sinhô tinha! Eles morrêro de tanto puxá carroça d'água!
— Tá louco? Que carroça d'água?
— Pra pagá o incêndio!
— Mas que incêndio, Meu Deus?
— Na sua casa.... uma vela caiu, aí pegô fogo nascurtina!
— Caramba, mas aí tem luz elétrica! Que vela era essa?
— Do velório!
— Velório? De quem?
— Da sinhora sua mãe! Ela pareceu aqui sem avisá e eu dei um tiro nela pensando que era ladrão!
— Meu Deus, que tragédia (começa a chorar desesperadamente)...
— Peraí sô Carlos, o sinhô num vai chorá pur causa dum papagai, vai???


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Petitório

Outros Autores 

O poeta Vinícius de Moraes, morando em Itapoã, Salvador, enviou petição rimada ao prefeito Cleriston Andrade, através das páginas do jornal "A Tarde", clamando:

Prefeito Cleriston Andrade,
a quem não conheço,
quero tomar a liberdade
que eu nem sequer sei se mereço
de vir pedir-lhe, em causa justa,
um obséquio que seu favor
muito me honraria (e pouco custa)
ao Prefeito de Salvador.

Existe ali no principado
livre e autônomo de Itapoã
uma ruazinha que sem embargo
pertence a sua jurisdição
uma rua não sem poesia
e cujo título é dar teto
a uma das glórias da Bahia:
o governador Calazans Neto.
Dizer do estado desta ruela
(das Amoreiras) eu não arrisco
porque, sem esgotos, correm nela
rios de * valha-me o asterisco.

E isso é uma pena, Senhor Prefeito,
pois Calazans e sua gravura
têm cada dia mais procura
de fato como de direito:
o que constrange os visitantes
com boa margem de estrangeiros
é, entre gravuras fascinantes,
ver quadros nada lisonjeiros.
Calce essa rua, Senhor Alcaide,
e eu lhe garanto que algum dia
"pro domo sua", esta cidade
o há de lembrar com mais valia.

Na expectativa de que acorde
um novo "cumpra-se sem mais"
aqui se assina, muito ex-corde,
seu Vinícius de Moraes.


Vinícius de Moraes. Petitório, in Revista Visão. 24/12/73




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Duplo silêncio

Foto: Aender (Arcos-MG)



"Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.

Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno, até que um dia chegou a grande colheita. Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos. Cada um seguiu o seu rumo.

À noite, já no leito, cansado da difícil lida daqueles últimos dias, um deles pensou :
"Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".

Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.

Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando :
"Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar. As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".

Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.

Na estrada, escura e nebulosa, daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.

Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro."



Quando decidi escrever num blog, confesso que não alimentava muitas perspectivas! Precisava, isso sim, de uma válvula de escape onde pudesse eclodir e fazer implodir os fantasmas que assombravam a caminhada!

Alguns gritos metaforizados foram lançados. Aos poucos despiam e enfraqueciam os fantasmas. A blogagem já ganhava outros contornos!

Esta metáfora, da lenda judaica, espelha exatamente essa vivência! Aos poucos, na virtualidade das falas, pessoas, seres humanos como eu, chegaram mais perto, acolheram e foram acolhidas.

Nenhuma explicação foi exigida! Nenhuma referência solicitada! Nenhum currículo foi preciso estampar! Nada!

A "pertença" foi tecida em cada postagem ainda que silenciosamente lida, numa reciprocidade sem igual.

Cada um dos caminheiros, tal como este caminhante, tem seus percalços, suas atribulações, suas incompletudes e suas fragilidades. Entretanto, cada encontro vivenciado fortaleceu a fé em si e no outro, a crença na validade das utopias de vida e sobretudo, a comunhão de pensamentos, ideias e de almas humanizadas!

E é assim, nessa teia silenciosa, que as pessoas se dão umas às outras, cultivando a generosidade e a verdadeira amizade.

E é também, nessa teia tecida coletivamente, que se aprende a não desatar os fios que unem, a não partir os laços que acolhem. Aprende-se a respirar carinho, afetividade, compreensão, admiração e alegrias.

Não é contraditório afirmar que há sobriedade nesta virtualidade. E nem mesmo seria enganoso dizer que há "presença viva" nesses encontros virtuais dos diálogos saboreados. Não! Não é contraditório e nem enganoso! As pessoas, por aqui encontradas, passam a transitar, "silenciosamente", em nossas vidas.

Silenciosamente porque não precipitam julgamentos, não escutam as hipocrisias e nem se ferem nas vaidades imbecilizantes. Ao contrário, transitam silenciosas porque se dão, ousam apropriar-se da pertença que ata, ousam misturar-se nos pensamentos e ideias, uns dos outros, tornados "seu" ou "meu".

Uma letra rabiscada é um olhar permutado, pronto a ser discernido. Um conto, uma poesia, uma gravura ou qualquer outra imagem, enfim, qualquer que seja a fala, significa principiar o diálogo.

É também, por conta de tudo isso que, quando nos ausentamos, quando "tiramos" férias de nós mesmos e "damos" férias aos outros, bate um vazio na alma, uma falta absurda de "gente" ao redor.

Cada um faz uma falta tremenda!

Então, enquanto cada um de vocês vem trazendo um pouco da própria colheita, saibam que também volto oferecendo-lhes, silenciosamente, um pouco da minha colheita!

Pronto! Cá estamos! Uma vez mais nos encontrando na estrada! Neste mesmo imenso campo onde "semeamo-nos", uns para os outros!

Que perdure o encontro! 

Publicado originalmente em 31 de julho de 2010

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O Pacote de Bolachas

Metáfora
Uma moça estava à espera de seu voo, na sala de embarque de um grande aeroporto. Como ela deveria esperar por muitas horas, resolveu comprar um livro para aproveitar o tempo. Comprou, também, um pacote de bolachas. Sentou-se numa poltrona, na sala VIP do aeroporto, para que pudesse descansar e ler em paz.

Ao seu lado sentou-se um homem. Quando ela pegou a primeira bolacha, o homem também pegou uma. Ela se sentiu indignada, mas não disse nada. Apenas pensou: "Mas que cara de pau! Se eu estivesse mais disposta lhe daria um soco no olho e ele nunca mais se esqueceria!!!"

A cada bolacha que ela pegava o homem também pegava outra. Aquilo a deixava tão indignada que não conseguia nem reagir. Quando restava apenas uma bolacha, ela pensou: “Ah. O que será que este abusado vai fazer agora?"

Então o homem dividiu a última bolacha ao meio, deixando a outra metade para ela.

Ah!!! Aquilo era demais!!! Ela estava bufando de raiva! Então, ela pegou o seu livro e as suas coisas e se dirigiu ao local de embarque.

Quando ela se sentou, confortavelmente, numa poltrona, já no interior do avião, olhou dentro da bolsa para pegar uma caneta e, para sua surpresa, o pacote de bolachas estava lá... Ainda intacto... Fechadinho!!!

Ela sentiu tanta vergonha! Só então ela percebeu que a errada era ela, sempre tão distraída! Ela havia se esquecido que suas bolachas estavam guardadas, dentro da sua bolsa. O homem havia dividido as bolachas dele sem se sentir indignado, nervoso ou revoltado, enquanto ela tinha  ficado muito transtornada, pensando estar dividindo as dela com ele. E já não havia mais tempo para se explicar... nem para pedir desculpas!

Quantas vezes, em nossa vida, nós é que estamos comendo as bolachas dos outros e não temos a consciência disto? Antes de concluir, observe melhor! Talvez as coisas não sejam exatamente como você pensa! Não pense o que não sabe sobre as pessoas.  Existem quatro coisas na vida que não se recuperam: a pedra, depois de atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida  e o tempo, depois de passado.

sábado, 21 de novembro de 2015

Memorando Interno


Humor

O Memorando Interno, em letras garrafais, repassado a todos os funcionários,  anunciava uma nova medida naquela empresa:


Recomendamos a todas as mulheres da empresa, que ao solicitar xerox através de bilhetes, que o façam com propriedade e com frases completas. A grande maioria dos bilhetes recebidos têm causado alguns problemas aos nossos colegas de trabalho, colocando em risco, inclusive a paz nos seus lares, quando por acaso esquecem os bilhetes nos bolsos de suas roupas. A título de exemplo, transcrevemos algumas dessas solicitações de cópias:


1) Márcio, seja bonzinho... faça igual a última vez... please!

2) Joãozinho... quero quatro rapidinhas!

3) Zeca, hoje eu tenho que ser a primeira, porque estou mais necessitada...

4) Toninho, tira o mais rápido possível, porque o gerente também vai querer!!

5) Paulo, quero dos dois lados e presta atenção, atrás tem que caber tudo, viu?

6) Pedrinho, por favor... coloca na frente pra mim... vai??

7) Gil, presta atenção, estou muito angustiada... estou atrasada!

8) Robson, por favor, devagar, com carinho, porque quero bem feito.

9) Edu, cuidado! É comprido e largo... posicione direito para que não fique nada de fora, hein?

10) Alex, será que dá pra entrar no meio sem que ninguém perceba e tirar uma rapidinha?


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Uma Carta

Outros Autores

Não raramente, folheando jornais velhos encontramos coisas curiosas. Ainda agora, passando os olhos sobre um número do "Jornal des Devats", de muitos anos passados, lemos uma circunstância notícia sobre um documento interessante encontrado na biblioteca dos lazaristas em Roma. É uma carta dirigida a César, por Plubius Lentulos, governador da Judeia predecessor de Poncio Pilatos; ou antes, como definiu o "Jornal", a ficha de Jesus Cristo redigida na época em que o Salvador começava as suas prédicas.

A título de curiosidade reproduzimos o importante documento que, uma vez posto fora de dúvida como foi, sua autenticidade constitui decerto o mais precioso texto que nos podia ser transmitido pela antiguidade:

"O Governador da Judéia,Publius Lentulos, ao César Romano:

—Soube, oh César! que desejavas informações acerca desse homem virtuoso que se chama Jesus Cristo, que o povo considera um profeta e os seus discípulos o filho de Deus, criador do céu e da terra.

Com efeito, César, todos os dias se ouvem contar dele, coisas maravilhosas. Numa palavra, ele ressuscita os mortos e cura os enfermos. É um homem de estatura regular, em cuja fisionomia se reflete tal doçura e tal dignidade que a gente se sente obrigada a amá-lo e a temê-lo ao mesmo tempo.

A sua cabeleira tem, até as orelhas, a cor das nozes maduras e daí até os ombros tinge-se de um louro claro e brilhante; divide-a uma risca ao meio, à moda nazarena, a sua barba da mesma cor da cabeleira é encaracolada, não longa e também repartida ao meio. Os seus olhos severos tem o brilho de um raio de sol, ninguém o pode olhar em face. Quando Ele acusa ou verbera inspira o temor, mas logo se põe a chorar. Até nos rigores é afável e benévolo. Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas muitas vezes derramar lágrimas. As suas mãos são belas como os seus braços. Toda a gente acha a sua conversação agradável e sedutora. Não é visto amiúde em público, e quando aparece apresenta-se modestíssimamente. O seu porte é muito distinto. É belo. Sua mãe é, aliás, a mais bela das mulheres que já se viu neste país. Se o queres conhecer, oh César, como já uma vez me escreveste, repete a  tua ordem e eu to mandarei.

Se bem que nunca houvesse estudado, esse homem conhece todas as ciências. Anda descalço e de cabeça descoberta. Muitos riem quando ao longe o enxergam; desde que, porém, se encontram em face Dele tremem e admiram-no. Dizem os hebreus que nunca viram um homem semelhante, nem doutrinas iguais às suas. Muitos creem que Ele seja Deus, outros afirmam que é teu inimigo, oh César. Diz-se ainda que Ele nunca desgostou ninguém, antes se esforça por tornar toda a gente venturosa."



Publicado originalmente no "Correio da Manhã", em maio de 1916, com a colaboração de Raul A. Brasil. 
Republicado no "Almanaque Goulart", página 42, em janeiro de 1959.



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Matuto Zé da Prosa

Meus Rabiscos



Aquele matuto, o Zé da Prosa, era mesmo "treteiro". Gostava de uma boa mentira. E qualquer "causo" era sempre aumentado. Não tinha jeito com ele. Fosse o que fosse, ele tinha sempre uma boa história para contar. Coisa errada? Jamais admitia que errava ou que cometia qualquer engano, qualquer desventura sofrida.

Os amigos da turma buscavam, de qualquer jeito, uma forma de aprontar uma pegadinha, mas o Zé sempre dava um jeito de sair por cima. Ele era muito esperto.

Por conta disso foi armada uma pegadinha pelo Tibúrcio, matuto de voz grave, bigode enorme e branquinho, os fios rebeldes, já faziam volta no queixo e cresciam prá cima. O cabelo branco não dava conta de esconder o "moleque arteiro" que ainda vivia naquele matuto "tinhoso".

Sô Tibúrcio então combinou com a turma de levar o Zé da Prosa para a fazenda. Eles iriam jogar truco, tomar umas cachaças, cozinhar joelho e pé de porco e, se desse tempo, ainda pescar.

E assim fizeram! Noite de sábado, lua bonita, enchendo o céu de briho, quase ofuscando as estrelas, e lá estavam eles, na fazendo do Sô Tibúrcio.

Enquanto o joelho de porco cozinhava, outros aperitivos foram preparados. Jogaram algumas partidas de truco e, lá pelas tantas, o Zé da Prosa começou com seus casos:

- Gente, ocêis num imagina o susto que eu levei dia desses, quando tava vortando prá casa de bicicreta. Tinha um risco branco, marcando a estrada, de fora a fora. Eu pensei que era até assombração. Mas dipois, fui matutando, matutando e discubri o pobrema.

Ele nem parava de cortar o fumo, ia aparando a palha, moendo o fumo com os dedos e passando a palha na boca. E continuava assim mesmo, com aquela voz mansa, arrastada. Já era engraçado só ouvir a voz do Zé, imagina então contando caso. E ele continuava.

- Eu tinha saído da venda do Nonô com um saco de açucar e tinha que subi a serra prá vortá pra casa.  A bicicreta num tinha garupa e o jeito foi ajeitá o saco no cano e no guidom. E lá eu fui, pedalano a bicicreta. As perna já tava dueno dimais, mais num pudia disisti. Pricisava chegá em casa e a noite já tava chegano. Lá praquelas bandas tem muita onça, se bobiá, o bicho mata mesmo. Mais intão eu subi um morrinho e a istrada istreitava. Vinha um tratô e prá saí fora do bitelo, eu juguei a bicicreta no barranco e saí arrastano o barranco, mato e raiz, até o tratô passá. Isfolei o braço, mais num pudia pará não. Tava ouvindo uns miado isquisito. Paricia que a onça tava chegano. Aumentei as pedalada. E no que aumentei as pedalada, a bicicreta foi ficano mais leve e quanto mais leve ficava, mais dipressa eu andava. Peguei um carrerão e subi um morro num fôlego só. Pricisava vê, sô! Quando eu cheguei lá em cima, já quais em casa, parei um tantinho pra respirá. No que oiêi prá tráis, vi um risco branco, branquinho na istrada. Achei que era o tar do etê me siguino ou intão uma assombração das mais cumprida. Gente, muntei na bicicreta di novo, apertei a pedalada e só fui pará na portêra de casa. E a bichinha tava andano era muito dipressa. Quando eu oiêi, o risco tinha diminuido, tinha afinado, mas fui caçá o saco de açucar, cadê... Tinha sobrado só um tiquinho dele. Acho que na istripulia do barranco, o saco furô e foi sortano o açucar. E eu pensano que era os tal dos etê ou assombração!

Aí o Tibúrcio torceu o bigode. Esse Zé inventa cada uma, pensava ele. Resolveu então colocar o plano em ação. É hoje que pego esse sujeitinho! Assim o Tibúrcio repetia aos amigos.

Ele já sabia que o Zé não gostava de pescaria à noite. Morria de medo de cobras e onças. E mais! Sabia também que ele adorava tomar leite de vaca! Então deixou tudo preparado. Chamou a turma, pegaram as varas e foram ao açude pescar alguns bagres e traíras. E por lá ficaram um pouco mais de uma hora.

Já de volta, depois de limpar as traíras e os três bagres, a turma se ajeitou para retomar o jogo. O Tibúrcio encheu duas travessas de biscoitos de polvilho e pão de queijo. E chamou:
- Ô turma! Vamo cumê umas merenda aqui, tomá um cafezinho cum leite prá gente aguentá esperá o cuzido e forrá o estômago.

A turma, já no conluio com o Tibúrcio, se juntou à mesa. E o Tibúrcio, ao pegar a vazilha de leite para servir, fingiu olhar dentro e foi logo falando:
- Uai Zé! Ocê tomou o leite que tava aqui sô?! Tomou quase a metade! Nossa Senhora, sô!

O Zé da Prosa, no jeitão dele de não admitir qualquer malfeito, foi logo discordando:
- Ô Tibúrcio! Eu num tomei não sô! Ocê deve de tá inganado, purquê num divia de tê esse leite todo aí na travessa não! Ocê deve de tá inganado! Eu num tomei não, pode aquerditá!

E o Tibúrcio pensou: é agora Zé! E já foi dizendo, com ar de alívio:

- Ô Zé, ainda bem sô! Nossa Senhora! Eu fiquei foi preocupado dimais. Tem andado uns bicho por aí, não sei se é gato ou rato, ou o que é, uma tropa deles e os bichano tem comido de tudo aqui. Eles num respeitam mesmo. Aí, sô, eu resolvi botá um veneno no leite, prá vê se acabo com essa cambada de bicho que come o que num deve. E eu deixo sempre a travessa lá na pia, com o leite.

Nisso o Zé já estava de olhos arregalados, mas não abriu a boca e nem deu o braço à torcer. E o Tibúrcio continuava:
- E eu esqueci de falá com ocê, ô Zé, que o leite tava preparado. E como ocê gosta de leite, Nossa Senhora, eu fiquei preocupado dimais. Achei que iria precisá de fazê um preparado aqui, prá cortá o efeito do veneno. Eu até já tenho pronto aqui, na garrafinha, só que  ia precisá fortalecê mais o preparado de raíz. Ainda bem sô! Quais morri de susto! Imagina se ocê virasse os olhos e começasse a sortá ispuma pela boca? Nossa Senhora, ia sê uma tristeza, Zé! Ocê num ia vivê muito mais não, só umas poucas horas.

Aí o Zé, já morrendo de medo, com os olhos arregalados, não sabia o que dizer. Não podia confessar. Então, meio sem jeito, mas espertalhão como sempre, foi logo emendando a fala do Tibúrcio:
- Ô Tibúrcio, se esse trem que ocê colocou no leite é tão marvado assim, intão eu acho melhó tomá um gole tamém, só prá previni, né mesmo?!

E lá foi o Zé. Avançou na garrafa do Tibúrcio, no maior desespero. E de uma só golada tomou metade do preparado da garrafinha. Tomou num fôlego só. Respirou e noutro fôlego, tomou o resto. E limpando a boca com a manga da camisa, arrematou:
- Num custa nada privini, né mesmo?!

A turma então caiu na risada!
- É Zé! Hoje ocê caiu na brincadeira! Sua mentira num deu certo, sô! Num tinha nada no leite não! Era só um jeito de te pegá na mentira!

E o Tibúrcio falou:
- E o pior, ô Zé, é que nessa garrafinha tinha um preparado com leite de magnésio! Ocê vai limpa as tripa tudo sô! Mas vai pensá milhó antes de falá mentira, né Zé?!

E cairam todos na risada. O pobre do Zé da Prosa passou a noite visitando o banheiro. Era uma correria prá lá e prá cá, a noite inteira. Era de dar dó o coitado gemendo de tanto fazer força. O Tibúrcio pensou que ele aprenderia a lição.

Aprendeu? Que nada! Alguns dias depois o Tibúrcio surpreendeu o Zé, numa roda de amigos, lá na pracinha da cidade, contando o caso:
_ ... Pois é gente, ocêis pode aquerditá. Eu tomei veneno de matá cobra, dessas bruta que tem por aí e num murri. Eu tinha um remedinho dos bão comigo. É um preparado de raíz que eu fiz, que cura quarqué coisa. O causo acunteceu assim...

O Tibúrcio balançou negativamente a cabeça, e apressou o passo resmungando:
- É... Esse num tem conserto mesmo! 
Publicado originalmente em 11 de julho de 2013

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