segunda-feira, 28 de junho de 2010

Se eu fosse mulher por um dia...

Cupid's Arrow, de José de Almeida & Maria Flores


Se eu fosse mulher, por um dia, queria desconhecer o cansaço e a irritabilidade da rotina, nos afazeres de casa. Não conseguiria ser essa mulher multifunções, "multitudo". Essa mulher "prendada" não sobreviveria!

Queria navegar em descobertas esfuziantes e a primeira curiosidade seria sobre os "mistérios" que povoam o banheiro feminino. Saber porque se vai ao banheiro feminino em duplas ou tríades, o que acontece lá dentro e porque o retorno é sempre acompanhado de largos sorrisos na face. Talvez sejam os encantos do "espelho espelho meu", em meio a bolsas recheadas de surpresas. Talvez...

Outra sensação, que deve ser deliciosa para se descobrir, seria o uso despudorado do cartão de crédito. Essa moeda plástica, que tantos desatinos provoca, tem seus segredos revelados em sapatos, roupas e outras tantas sacolas de grifes. Deve ser fantástica a emoção compulsiva das compras! Loja após loja, num infindável movimento de despir e vestir, até o "é esse"! Mais uma relíquia para o closet.

De outras tantas eu fugiria. Depilação então, nem pensar! Precisaria ser sofisticada, a laser ou qualquer outra tecnologia indolor. Nada de stress! Nada de baixas na autoestima!

De algumas não abriria mão: perfumes marcantes, hidratantes rejuvenescedores, peelings revigorantes, silhueta justa e contornos de violão, uma sereia que não exigisse dietas mirabolantes. Comer sem culpa, viver sem culpa! Por um só dia é até imaginável!

O melhor seria mesmo descobrir o "secreto" das falas, das conversas informais, dos segredos femininos discutidos sem receios, entre iguais. Saber tanto das dores quanto do êxtase! As aventuras inconfessas, as ousadias e transgressões segredadas.

Mas ser mulher, por um só dia, não seria apenas deliciar-me em futilidades da moda, medidas do corpo, pernas torneadas, bumbum enrijecido, pele delicada, cabelos tratados, cosméticos milagreiros e tantos outros "apetrechos" admoestadores do necessário embelezamento. Xô celulites, Xô estrias, Xô culotes. Por um só dia dá prá ficar sem tudo isso!

Ela também é espiritualizada, batalhadora, racional, ímpar. Eu seria então uma mulher superpoderosa, fazendo escolhas de felicidade, não as malogradas. Num só dia dá prá apostar nessas possibilidades.

Todas essas questões de ordem profissional, social e familiar, não seriam tão impossíveis de contornar, afinal, só um dia, passa rápido demais. A enxaqueca nem conseguiria se aproximar.

O grande problema seria controlar a libido. Ah, este seria um problema desastroso a se resolver. É que, enquanto mulher, ainda que só por um mísero dia, não me desvencilharia do meu lado "gay"!

"Arrgggg"! Homens? Nem pensar! Coisa mais esdrúxula, mais repugnante! Os trejeitos arrogantes, a empáfia de conquistadores, o machismo "imbecilóide", os hábitos constrangedores. Não! Isso já seria sacrificante, ultrajante até! Melhor revigorar o meu lado "gay", enquanto mulher!

O lado masculino, na mulher por um só dia, seria o imperativo a não escapulir dos traços. E ele é tão forte, tão encantado pela mulher, que mesmo em sua pele, seria impossível não se perder na beleza do olhar, no desenho dos lábios, no contorno da face, no convite dos olhos, na sedução do andar e no desejo que faz exalar!

Se eu fosse mulher, por um só dia, haveria de fazer sobreviver e sobrepor a todos os outros, a todo custo, o meu lado "gay"! Seria impossível, insípido e intragável imaginar diferente! 




Este texto participa da Blogagem Coletiva proposta pelo Espaço Aberto.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Precisa-se

Foto: Estrada Fria, de Bruno Ramalho

Precisa-se de alguém que ensine a alegria, quando a dor dilacera o espírito. Alguém que mitigue a mágoa e o rancor, porque a perda foi por demais dolorida. Alguém que ensine passos de dança, talvez um bolero, um tango, ou quem sabe um foxtrot, para aliviar os pés metidos na lama do desencontro. Que faça o corpo inquietar-se ao som da música, já que a mesmice paralisa os movimentos.


Precisa-se de alguém que ensine a assobiar músicas antigas, das mais melodiosas ao chorinho bem ligeiro, assim, quem sabe, a voz se erga e não mais retorne ao chão. Alguém que saiba acender fogo atritando paus ou triscando pedras, no meio do nada e no vazio do ser, assim, quem sabe, a alma se aqueça no sopro e no abano e resolva não mais chorar.

Precisa-se, desesperadamente, de alguém que ensine o olhar da lua, majestosa em seu brilho, e assim acalmar a desesperança. Alguém que saiba oferecer o abraço, para impedir que a distância aumente. Alguém que ensine plantar rosas vermelhas, em canteiros de terra em água salobra, assim, quem sabe, o adubo da cumplicidade faça nascer pétalas de ânimo.

Precisa-se, com extremada urgência, de alguém que empreste uma lamparina e assim as sombras da solidão, mirando no filamento de luz, permitam-se à claridade do outro. Alguém que saiba receitas de chás de raízes e que as conheça muito bem, é para evitar que as ervas daninhas se proliferem no coração e acabem sendo servidas com gosto de remédio caseiro.



Precisa-se, irremediavelmente, de alguém que ensine a magia do circo. Que ensine malabares, trapézio, mágica e acrobacias. Quem sabe, assim, seja possível aprender
flexibilidade e tolerância. Aprender a generosidade do palhaço, que espalha o riso, para não deixar que jamais morra a criança que ainda se esconde, no circo da vida,  sob lonas carcomidas e cheias de furos.



Precisa-se de alguém que saiba conjugar verbos complexos, que explique com clareza o pretérito imperfeito e o gerúndio. Quem sabe, assim, o futuro do presente se evidencie nas atitudes e elas não mais regridam no tempo em busca de respostas que já se perderam.


Precisa-se de alguém que seja exímio em matemática, para desmistificar a subtração e a divisão que se vestem do pranto e ensinar, então, a soma de fragmentos, ora desconexos, e a multiplicação de valores que não morreram, só esmoreceram.



Precisa-se de alguém que saiba consertar molduras e ensine como restaurar o quadro que reflete a história de vida. Ensine a pincelar ranhuras expostas, a colorir com vivas cores o cinza dos percalços. Quem sabe, assim, se aprenda a olhar prá dentro de si mesmo, admirar o desenho das conquistas e constatar que outras interpretações ainda são possíveis.



Precisa-se de alguém que ensine exercícios de respiração, para que o abdômen perceba-se importante e o diafragma apague a sofreguidão da agonia. Talvez, assim, sejam soprados, para muito longe, a tristeza nos olhos, o silêncio no coração e a solidão das palavras.



Precisa-se, mais que nunca, de alguém que saiba implodir prédio humano, derrubar paredes de ódio e desmanchar telhados de covardia. Alguém que saiba ao menos esboçar projetos. Assim, quem sabe, ainda restará um fio de esperança na reconstrução de um novo sujeito, com paredes solidárias e apaziguadas, cobertas por telhas de lealdade.



Precisa-se de alguém que não seja míope: é para ajudar a encontrar os óculos da verdade, perdidos nos descaminhos da frustração.



Precisa-se, desesperadamente, de uma "vuvuzela" que faça dispersar os pesadelos, vibrar com o time dos sonhos e acordar, definitivamente, para si mesmo. Reconhecer-se
errante, mas amparado em todas e cada uma das necessidades gritadas.


Precisa-se, sem pressa alguma, com toda paciência, de um beijo demorado, de um sorriso balbuciando frases desconexas, de um abraço ofegante e de olhos que fazem suspirar a paixão.





Precisa-se...






Créditos das fotos:
1- Tango: Isabel Silva
 2- Lua: Hermínio
3- Palhaço: José Neves
4- Pintura: João Vasco
5- Implosão: Paulo Liebert
6- Vuvuzela: Darko Vojinovic
6- Beijo: Gutobp

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Olhar Feminino

Dos olhares que me encantam, não há como me esquivar, é o da mulher o que mais fala à alma deste homem! Esconde segredos que não consigo desvendar. E são tantos olhares num só, que é impossível deles não me enamorar!

Olhar de aconchego... Que inspira o abraço, pedaço que se dá. Olhar de paz anunciada, de ninho oferecido. É acalento de prantos, na redenção do encontro.

Olhar de luta... Que não se embrutece na diferença. Que não recua!  Que não desiste. Que persevera, porque assim faz crer sua história. Que não cede ao silêncio das sobras e nem se permite violentar na voracidade de preconceitos da segregação profissional. Não se entrega nem se deixa avassalar. Resiste! Insiste!



Olhar de dor... Que não se furta às lágrimas. Que se transforma em força brotada das entranhas. Que avança, mesmo quando os estilhaços ainda machucam os pés. Que não faz quedar ou prostrar o ânimo. Que escancara o sofrimento, mas declara um sempre recomeçar.

Olhar de saudade... Que é nascida da sensibilidade, mas não se deixa consumir por ela. Que refuta a privação e faz altaneiros os sonhos perseguidos. É feito a própria palavra, quase indecifrável em outras línguas, mas tão bem alimentada nos olhos da mulher brasileira.

Olhar de sedução... Que surge feito jeito tímido e suave de dominação, de conquista. É audácia despindo o desejo. Faz despertar no outro a ousadia pelo magnetismo das vontades confessadas. Insinuação que exala perfume. É o flerte da poesia, ou como diz o poeta, “o beijo de agora na boca de amanhã”!


Olhar de cumplicidade... Que explicita sintonia. É a simbiose do pertencimento, feito pacto da intimidade, onde já se sabe do mais profano ao mais sagrado, no mais secreto dos mundos. Não há oposições ou contraposições, somente justaposições.



 Olhar de reprovação... Que faz calar a voz no jeito de dizer não, sem gritar. É a recusa ante o fascínio da oferenda! É o jeito de dizer do pouco que a descontenta, sem contradizer sua grandiosa dádiva maternal.

Olhar carente... Que se passa por desamparado, largado e reclamando abraço, mas que no laço da sedução enfeitiça, só porque reclamou proteção.

Olhar de carinho... Que alcança a intimidade, oferecendo bonança ao desavisado. Não reprime, só sabe incluir. Não reivindica, só sabe doar. Não julga, antes sabe perdoar.

Olhar petulante... Que se prontifica intimidador. Que não é arrogante, mas atrevido. Que não é desaforado, mas que inspira cuidados. São fragmentos de autosuficiência lançados feito flechas vicejantes, abocanhadas na senda dos desencontros.

Olhar de êxtase...  Que arrebata os sentidos, confundindo tato e paladar, olfato e audição, numa entrega infindável. Os olhos, mesmo sem perder o encanto, já não se arregalam... Pausam movimentos. Semicerrados, não se apavoram e cedem seu brilho aos sussurros lânguidos. É o frenesi do instante.

Olhar de prazer... Que é confessado na intimidade, no alcance do delírio que excede, desmedido em si mesmo.

Olhar de mulher... Que na intensidade da emoção revela a fêmea consciente do que busca, nos seus múltiplos e maduros olhares. E por conta de tantas mulheres habitarem uma só e de tantos olhares repousarem numa mesma mulher, não há olhar de homem que dê conta de decifrá-los.  É legítimo então se render a ela: à mulher e seu olhar...



Este texto participa da "Promoção Feminina" do Blog Milk Shake de Palavras






Crédito das fotos: Olhares.com - Fotografia Online
1- Encantamento: Carlos Pereira
2- Luta: Nuri
3- Dor: Ana Rita Jacinto Rodrigues
4- Saudade: Paulo Cesar
5- Sedução: Nuno Manuel Baptista
6- Cumplicidade: Fernando Tavares
7- Carente e Carinho: Nuno Runa
8- Êxtase: Fernando Bagnola
9- Mulher: Tiago Grácio

domingo, 20 de junho de 2010

Prêmio Dardos

Prêmio Dardos. Indicação do Johnny'sPub.

Sou um principiante no mundo dos blogs, por isso mesmo, não tenho a correta noção daquilo que é bom ou que incomoda, daquilo que agrada ou constrange e do que é reverência ou apenas modismo.

Esse preâmbulo é prá dizer que recebi do Johnny, do Johnny'sPub, a indicação ao "Prêmio Dardos" e algumas regras são necessárias, como por exemplo indicar 10, 15 ou 30 blogs, para também recebê-lo. Assim, de minha parte fico agradecido, pela reverência, pela indicação que acolho, com alegria.

Faço as indicações, após a explicação do que é o "Prêmio Dardos", lembrando a cada um dos meus indicados que fiquem à vontade para acolher ou declinar. Saberei entender, perfeitamente, a escolha que fizerem.
Desde já, meus sinceros agradecimentos ao Jonnhy (O blog encontra-se na lateral direita de minhas postagens, no cantinho que chamei de "Simplesmente Blogar"). Igual agradecimento manifesto aos blogs que indiquei, pela permissão que me dão de fazê-lo.



"Mas o que é o Prêmio Dardos?
O Prêmio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.

Esses Selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Estas são as regras:

- Exibir a imagem do Selo no Blog.
- Exibir o link do blog que você recebeu a indicação.
- Escolher 10, 15 ou 30 blogs para dar a indicação, e avisá-los".

Eis então os meus indicados:

  

Além dos indicados, você, que sempre passa por aqui, receba-o também de coração. Você também partilha um pouquinho de si.

Fraterno abraço a todos!

sábado, 19 de junho de 2010

Esperança

Não me lembro mais o título. Não tenho mais a revista. Então, resolvi chamá-lo (tentando acertar) de Esperança, esse maravilhoso texto do Fernando Caramuru.  Merece ser saboreado!  A expressão "beijo de agora na boca de amanhã", por si só, já bastaria.  Eis o texto:

 
Anemone (Flor-da-esperança)

"Em duas situações extremas, a esperança não pode acontecer — quando todos os desejos são plenamente satisfeitos e quando eles deixam de existir. Ambas são posições de hipotético absoluto da existência, qual o céu das religiões e o inferno de Dante. Naquele, a felicidade é completa e eterna; neste, quem nele entra, deixa todas as esperanças na porta, para sempre.

Afora isso, ela é luz que alumia as noites escuras da existência humana e só vai embora quando o sol anuncia o dia. É a flor dama-da-noite, que começa a emanar perfume somente quando as últimas fímbrias do ouro solar rumam-se para o imperceptível, via linha do horizonte. O pio da coruja sob o manto noturno é um referencial de esperança.

Esperança é o sonho que nasce dos pesadelos. Ela surge altaneira no momento em que os desejos são contrariados pela “lógica rocha” (De Bono), a ciência sem humildade nas conclusões, os valores e as crenças únicos e excludentes.

É o beijo de agora na boca de amanhã.



É a estrela-guia da libertação da saga dos ineducáveis, desenganados, subjugados desocupados, diferentes, injustiçados, deficientes, desamados, loucos, excluídos.

Diga-se da esperança o que John Dewey falou do desejo: 'A atividade que procura caminhar para romper o dique que a detém'.

Ter esperança não é, portanto, quedar-se como os anacoretas, contemplando o que é, querendo-o de outra forma bem melhor. É, essencialmente, busca incessante, luta — só e com os parceiros— por aquilo que não tem lugar agora, mas, acredita-se, terá um dia.

Iris Branco na foto de Rose Nakamura (esperança e perseverança)


A expressão “andar de esperança” é usada em Portugal para se referir às mulheres grávidas.

Esperança é o filho que vai nascer. Devem-se tomar todos os cuidados pré-natais, levar um tempo para o nascimento acontecer; para que ele aconteça, é preciso muito esforço da parturiente e, quase sempre, a ajuda dos outros.

O desejo (a esperança) não pode ser tênue, pífio. Desse modo, não passa de veleidade, não é força suficiente para afastar a “doença mortal” (Kierkegaard) dos homens: a desesperança.

Essa doença aparece sempre que o desejo briga com a imaginação e esta sai ganhando — a coisa desejada não será obtida, garante a imaginação.

A Pedagogia da Esperança deve ser cultivada em todo processo educacional, seja ele sistemático ou assistemático, já que o homem e o mundo são produtos inacabados, passíveis de erros e acertos, desamor e amor, involução e evolução.

Com ela os homens aprenderão que, quando se deseja, se luta e se une para se conseguir o que se quer, o impossível não existe. E mais que isso, o que se tornou possível passa-se a provável".

FRAGA, Fernando Caramuru Bastos. Editorial.                   
Dois Pontos: Teoria e Prática em Educação,                 

Belo Horizonte, Vol.3, nº 24, p.3, Jan/Fev 96.

Fonte:Anemone

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Êxtase

Vejam só que interessante! Remexendo em coisas dos tempos da faculdade, quando cursava Pedagogia, editava um jornalzinho, o "Pirracinha", para brincar com as amizades construidas e lá encontrei uma poesia. Pois é! É isso mesmo! Na verdade um arremedo de poesia. E o título é até inspirador: Êxtase! Mas, como "morro de inveja" dos poetas e poetisas que visito sempre, notadamente a minha querida amiga Ester,  a quem admiro tanto, resolvi que deveria publicá-la.

Hoje, passados mais de 15 anos, é que vou relendo-a, com outro olhar, com outros gostos e com outras interpretações. Resolvi eternizá-la, aqui. Faz parte da memória!

Que me perdoem os poetas e poetisas do mundo virtual. Eis então o arremedo:


 Êxtase

Há um instante...
Uma miragem no horizonte...
Uma paixão estonteante...
Um coração esvoaçante...

Uma boca rósea... intrigante
Um corpo solto... elegante
Seios firmes... provocante
Jeito doce... insinuante

Passos lentos... avante
Quadris ao fogo... requebrante
Coxas lisas... delirante
Olhar malicioso... perturbante

Língua molhada... amante
Lábios suados... instigante
Batom desmanchado... insignificante
Corpos juntos... uma constante

Sussurros loucos... distante
Movimentos bêbados... viajante
Peles se encontrando... alucinante
Êxtase... Foi o instante!!


Foto: Negateven

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Escolher Viver!

"Junto ao cadáver de um suicida encontrou-se uma carta dirigida ao Juiz, nos seguintes termos:

Sr. Juiz:
Não culpe a ninguém da minha morte. Acabo com a vida porque em dois dias mais que não viva não saberei quem sou neste mar de lágrimas.
Verá, Sr. Juiz: Tive a desgraça de casar com uma viúva. Tinha ela uma filha. Se o soubesse, nunca o teria feito. Meu pai, para maior desgraça, que era viúvo, se enamorou e se casou com a filha de minha mulher; de maneira que minha esposa era sogra do seu sogro, minha enteada se converteu em minha mãe, e meu pai ao mesmo tempo era meu filho.
Em pouco tempo minha madrasta trouxe ao mundo um varão, que era meu irmão, porém era neto de minha mulher, de modo que eu era também avô de meu irmão.
Com o correr do tempo, minha mulher trouxe ao mundo um varão que, como irmão de minha mãe, era cunhado de meu pai e tio do meu filho.
Minha mulher era sogra de sua própria filha; eu sou, por outro lado, pai de minha mãe, e meu pai e sua mulher são meus filhos; meu pai e meus filhos são irmãos, minha mulher é minha avó, já que é mãe de meu pai, e, ainda, sou meu próprio avô.
Já vê, Sr. Juiz: despeço-me do mundo, porque não sei quem sou".

Mark Twain– Carta de um cadáver

Foto:Armend


A quase tragicomédia, com desfecho trágico, proposta por Samuel Langhorne Clemens, ou como se tornou conhecido, simplesmente Mark Twain, nada traz de novo ou especial, exceto o fato de que, transitando pela ironia, faz rir da temível morte.

Eu tenho medo da morte. Estarreço-me ante a única verdade da qual jamais conseguirei fugir. Dá-me calafrios tais pensamentos mórbidos. Fujo. É por isso que não dou conta de compreender quando ouço notícias de que alguma vida foi apagada. Mais ainda que  as assassinadas por motivos torpes, inquieta-me quando alguém decide tirar a própria vida. Não compreendo. Juro que não!

É como se bêbado de vida estivesse, todos os exageros e extrapolações houvessem sido cometidos e, juiz de si mesmo, decide pela catapulta. Decide vomitar a vida. Apagar-se.

Que dor é essa que faz abandonar a caminhada? Que perdas são essas que roubam a sanidade? Que frustrações são essas que incendeiam o fascínora dentro de si, a ponto de decapitar o próprio sopro de vida? Tentativas vãs de interpretar a dor que somente o seu sentidor conhece. Não pertence a ninguém, senão a ele mesmo, saber o tamanho, a profundidade.

Ainda assim, minha incompreensão persiste. Cada vez mais ecoa a máxima socrática de “só sei que nada sei”.

Qual ser humano ainda não experimentou sofrimentos, perdas ou aflições? Quantos se aprisionam em lágrimas que fustigam os olhos? Quantos silenciam a própria voz quando amordaçados por opressões maquiavélicas? Quanta vida escrava da ausência de oportunidades! Escrava da segregação. Escrava de exclusões sociais provocadas por larápios que se enriquecem usurpando lugares de poder e decretando a miserabilidade.

Contudo, mesmo assim, quando tudo parece conspirar a favor da escuridão, basta prestar um pouco mais de atenção para ver a vida à espreita, sempre convidativa. Ainda que a miséria esteja instalada, faltando migalhas de alimento, há vida nos olhos dos que são alimentados da esperança. Há amor e pertencimento aos mesmos sonhos.

Então, cá com meus problemas, minhas frustrações, minhas perdas, não dá pra desistir dos passos. Não dá pra fechar os olhos e viver como se morto estivesse. Não dá pra ausentar-me da vida, tirar férias das dificuldades ou esgotar forças ao primeiro enfrentamento. Há escolhas reclamando minha voz.

Dia desses, o blog Devaneios e Metamorfoses, propôs uma encruzilhada que exigia posicionamento. Indagava se ante a díspares situações do cotidiano, em especial o abordo, se a posição era escolher um lado ou ficar em cima do muro. As seguintes questões foram formuladas:

“É preciso escolher um "lado"?
- Há assuntos sobre os quais você evita pensar?
- Você faz uma regra valer para si mesmo, mas para o resto das pessoas a regra é outra?
- Você costuma expor os seus pontos de vista quando o assunto é polêmico?”

Não há resposta que seja fácil, se sincera e leal aos pressupostos que orientam o caráter. Minha resposta:

"A reflexão, de tão profunda e complexa, exige cuidado redobrado nas ponderações. Qualquer escorregão já vira conceito, preconceito ou 'lado'.
A questão é que a ansiedade, o medo de cometer equívocos e outras formas reativas são componentes expressivos das dificuldades e fragilidades humanas. Por conta disso há uma tendência indissociável de permanecer distante, quando os assuntos se apresentam polêmicos ou que despertam julgamentos de toda sorte.
Daí surgem os adesistas por insegurança, também aparecem os profetas do apocalipse e o que mais se vê, os egoístas de plantão. Cada qual fazendo a escolha que lhe convém.
Alumiar a reflexão, sob o holofote da verdade, nem sempre faz desnudar a vaidade humana, em verdade a grande vilã, responsável por toda forma de imobilismo.
Eu continuo insistindo na tese de que (repetindo), somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.
Talvez, em razão disso, minha tendência é sempre escolher o lado de dentro. O que foi forjado em valores humanos arrojados, em utopias aprendidas, vivências dolorosas, ranhuras na alma e uma caminhada de chinelos humildes. Não há como deixar de devotar tanta lealdade à história construída.
Então, nada de fuga! Vale a congruente hombridade em 'dar a cara a tapa', se preciso for".

Penso então que o sentido de vida passa por tais compreensões. Cada circunstância exige respirar respostas distintas. Generalizar pode ser um risco à imbecilidade egocêntrica. Escolher a própria morte, mesmo no percalço mais inconveniente ou dolorido, não pode ser opção. É melhor perecer, deixar a dor latejar, não subjugá-la, mas jamais fechar os olhos com a concordância da entrega fácil. A estrada é outra. Insisto na vida, simplesmente!



sábado, 12 de junho de 2010

MEU JEITO DE DIZER QUE TE AMO


Meu jeito de dizer que te amo é torto, carregado de erros, sinônimos de mim mesmo. Não se parece com contos de fadas e nem rimas sabe aprontar.  Mas você sabe o grande segredo: o segredo de quem é o homem que este jeito sabe guardar!

Meu jeito já não carrega mais a delicadeza do namoro, dos beijos intermináveis e do abraço infindável. Ele agora, maduro, ainda conhece os lábios, mas as falas por eles pronunciadas têm o gosto da cumplicidade. O abraço é aconchego de sonhos que não morreram. Sobrevivem à rotina.

É o jeito de aprender a plasticidade humana, no meu espelho cotidiano. De oferecer paciência, quando há pressa. De sussurrar, quando a vontade é gritar. De olhar enternecidamente, quando devorar se faz impossível.

Não carrega o desafio aturdido da angústia. Não reinventa paradigmas. Não permite sobejar a melancolia dos "prontos e acabados"! É, ao contrário, inconcluso porque se refaz a todo instante. É avesso a milagres, porque exige esforço, dedicação, comprometimento, entrega e compromisso. É sensível, porque sabe exercer a escuta que multiplica.

O meu jeito não é escrito nas novelas e não é visto nos filmes, onde a emoção convida a lágrima. Não sai da boca dos poetas, porque a poesia já foi quase esquecida. Não brota de textos magnânimos, pois as letras precisam acudir outros desatinos. Não ecoa feito melodia orquestrada, pois as partituras já se misturaram a esmo.

O meu jeito é enviesado no que aparenta. Confunde-se com displicência e desarranjos outros, mas não é egoísta. Carrega contradições da alma, no desvelamento do desejo. Ainda assim é insano, pois o querer insiste ressurgir a cada passo. Acaba por tornar-se pernóstico, pois sua parcialidade cega-lhe os rumos ante o surgimento do que desconhece.

Acontece de ser também um jeito clichê, perdendo-se em superficialidades e convencionalismos, porque a mutualidade da ressonância ousa distanciar-se. Ele então confunde proteção, de si mesmo, com necessidade de transbordamento.

Mas também se prontifica a proclamar, em alto e bom som, o quanto visceral é. O quanto nas entranhas ele habita.  E grita, sem medos ou reservas, por que assim o crê. Nada de exortação, convocação ou “decretos”. Grita porque se institui enquanto parte de mim mesmo. Porque se arrancado, desfaleço.

Meu jeito não transita num "céu de brigadeiro". Há nuvens remoendo trovões. Há raios que dilaceram. Mas é assim, desse jeito, no mais imperfeito, que aprendo a reconquistar.

Um jeito que encontra eco na afirmação de que “ninguém pode ensinar honestidade em palestras, lealdade com histórias, coragem por analogia ou maturidade pelo correio”. Então, o meu jeito também reclama não ser preciso debulhar palavras ao texto, engrandecê-lo de expressões cativantes, recheá-lo de superlativos mágicos e matizá-lo de verbos doces.

O meu jeito é incadescente, pois sua moradia é a verdade e não deixa adormecer a vontade! É metáfora deste homem, porque os significados residem na constante busca. É cheio de defeitos, quase irreparáveis, mas carrega, na simplicidade, o seu maior e mais contundente axioma: você!


O meu jeito de dizer é nascido da incompletude, porque a minha outra parte, a que eu mais amo, é você.

É o meu jeito...



Aproveitando o dia dos namorados... Um jeito de participar!

Créditos
Foto 01 (Equilíbrio):Crystal Davis
Foto 02: (Espelho d'água): Bruno Deroose
Foto 03: (Tempestade): Jon Liu
Foto 04: (Erupção vulcânica):Rodrigo Buedia

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Carroça Vazia


Foto: A Carroça, de Rui Grafino

“Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer. Ele se deteve numa clareira e, depois de um pequeno silêncio, me perguntou:
    - Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?
    Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
    - Estou ouvindo um barulho de carroça.
    - Isso mesmo, e de uma carroça vazia...
    Perguntei-lhe, então:
    - Como o senhor sabe que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?
    - Ora - respondeu ele - é muito fácil saber se uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz.
    Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, tratando o próximo com grossura, prepotente, interrompendo a conversa dos outros ou querendo demonstrar que é o dono da verdade, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai, dizendo: ‘Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz’..."


A arrogância é algo que me dá asco. Abomino pessoas que se julgam donas de verdades absolutas. Prepotência e presunção andam abraçadas. Habitam bocas da retórica maledicente, numa necessidade rançosa de poder. Utilizam-se de verbos grandiloquentes, impondo derrotismos e bizarrices enfadonhas. Soa como se fosse um deboche.

Não há assunto sobre o qual não se pronuncie, com “sapiência”.  É uma busca compulsiva a aplausos. Acho intragável esse orgulho bestial e egoístico.

Mas, fazer o quê? A estrada precisa desses empecilhos, desses lamaçais enrustidos. Sem eles não se exercita a paciência e a humildade, testando ao limite os valores que calçam os pés. A caminhada é longa!

É compreensível, e também necessário, que a pluralidade de pensamentos se ofereça ao debate. É louvável quando a reflexão impõe a revisão dos pressupostos que até então orientavam posicionamentos. É, de fato, um aprendizado, quando a eloquência fundamentada se coloca como ponte a juntar pedaços de cada um, irrompendo-se enquanto sinergia de construção do saber.

Autoconfiança até que merece reconhecimento, mas ego inflamado, faça-me o favor! Tamanho entorpecimento é de fazer inveja a Narciso.  Causa reboliço no Monte Olimpo.

Os mais incautos sofrem, à revelia, desmandos e opressões por conta de supostos intelectualóides, que esbravejam e destilam sua imponência hipócrita. Os mais críticos rebatem, compram a briga. Acabam por misturar-se ao fétido chiqueiro. A lugar nenhum se chega no embate.

Melhor então é retomar o fôlego. Contar até dez. Calçar as chinelas da humildade e sabedoria para esquivar-se do revide. O meu tamanho não pode apequenar-se. Hora de arrefecer os ânimos. O olhar precisa manter-se nobre, sublimar.

Quando a arrogância e a prepotência, por conta de qualquer tipo de poder, massacram os mais ingênuos, o preço pode ser caro e será pago. Disso não tenho dúvidas. A caminhada guarda surpresas, percalços subestimados. Então, nada melhor que um “causo” para fazer rir. É do Geraldinho de Goiás, um humorista que infelizmente não está mais entre nós, ele já conta “causos” em outros planos.

Neste “causo”, o rompante do sujeito, embalado no berço da arrogância, recebeu, de um jeito “natural”, a devida recompensa pelo pedantismo. Quiçá os igualmente insolentes recebam suas inesquecíveis lições...

A Arrogância tem preço!




Meu Pai e a Carroça
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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Insegurança "Masculina"

Cena do filme "A Guerra do Fogo"


Noite fria aquela. As nuvens fecharam a cara, lançaram olhares tenebrosos e com elas o movimento uivante do gélido vento. Pedia cama. Edredon de maciez convidativa. Aconchego dos corpos. Eu nem sabia, mas era aniversario  de casamento. Eu ficara durante o dia remexendo em papéis, relatórios a fazer e a data equivocada na cabeça.

Nada pior que isso: esquecer datas. O olhar fulminante passa a acompanhar cada movimento. Como se perguntas fossem feitas ininterruptamente. Será que ele não vai lembrar? Esses homens! Que importância dão às datas? Que falta de sensibilidade!

De repente, já desistindo da possibilidade do assunto ser retomado, finalmente confessa o incômodo: "você sabe que dia é hoje"? Eu, ainda mergulhado em datas equivocadas, prontamente respondi, sem a menor cerimônia: "ora, dia três".

A vermelhidão da face já me dava a entender. Não era. A ficha caiu. Como pude me esquecer? Que insensatez a minha! Quanta ausência de cumplicidade! 

Tempo então de refazer os enganos e de nada adiantava tentar explicar as confusões com datas. Melhor seria tentar reparar, com urgência. Sair para jantar. Era uma tentativa desesperada de compensar a frustração sentida.

Restaurante aconchegante. Costumávamos frequentá-lo em outros tempos. Um barzinho no canto, lugares mais acolhedores que outros. Mesas esparramadas. Famílias ocupando os pontos estratégicos. Não gosto do meio. Preciso ter ampla visibilidade de todo o movimento. Ali, no meio, era como se estivesse no centro da roda, onde todos os olhares passeavam. Não podia refugar. Qualquer desculpa seria imperdoável. Ouviria ao longo da semana toda sorte de lamentações. Resoluto, sem demonstrar incômodo, só restou escolher para qual lado daria as costas.

Azar o meu. Já sentado é que percebi um espelho envelhecido numa parte do balcão de atendimento. Isso não estava aí, eu pensei. Tarde demais. Precisava fazer valer o momento, valoriza-lo como merecia, independente das minhas insatisfações ou estorvos.

Para não olhar o espelho, precisava ficar meio de lado. Não, incômodo demais! isso não! Aí já seria exigir muito! O grande problema é que o espelho refletia a imagem de um casal acompanhado de um amigo. E, por mais que eu quisesse, meus olhos insistiam em passear pelo espelho. Não buscavam a mulher. Muito ao contrário. Eu não tinha olhos para mais ninguém. Precisava reparar um desacerto, compromisso inarredável.

Os olhares do homem acompanhado pressentiram ameaças. Elas não existiam, mas o espelho argumentava contrariamente. Maldito espelho! E os olhos não paravam de se mover em direção a ele. Por mais esforço que fizesse, ele estava ali, na minha frente, impassível. Impassível nada! Aquele espelho estava adorando a cena! Propunha maldades quando delas eu fugia. Precisava arranjar uma forma de me esquivar. O jeito foi buscar as imagens da televisão. Coisa mais “chinfrim”, logo pensei.

E, para meu maior espanto e contrariedade, ao buscar outros cenários fui eu quem passou a incomodar-se com olhares lançados à mesa. Num canto, um pouco escondido pela escassez de luz, havia um sujeito, barba e cabelos brancos, que não significavam idade avançada,  parecia insistir olhar em direção à minha mulher. Indignei-me! Cara folgado! Que falta de respeito! Pensava nisso e me lembrava do espelho. Certamente todo tipo de impropérios já me haviam sido destilados.

E esse duplo incômodo durou uma eternidade. Eu até já conseguia não olhar o espelho. O meu incômodo era maior. Precisava me concentrar nele. Dito e feito! Resolvi que devia vigiar mais de perto os olhares furtivos. Passei a fulminar o sujeito na penumbra em que se escondia. Por pouco não me levantara para perguntar-lhe o que havia perdido por ali.

E assim foi boa parte da noite. Jantamos, brindamos, sorrimos. Relembramos tempos idos. Passagens românticas, dolorosas e engraçadas. Havia conseguido amenizar o “bendito” esquecimento das datas. O melhor ainda estava por vir, pensava eu, já imaginando o edredom. Melhor então apressar os desejos. Pagar a conta. Agradecer e bater em retirada.

O sujeito ainda continuava lá, sorvendo seu whisky a conta gotas. O espelho? Já nem sabia que ele existia. Já não era perseguido pelo camarada, da outra mesa, com a mulher. Ele havia constatado que as intenções não se direcionavam àquele lugar. Quanto a mim, o problema ainda permanecia sem solução. Vez por outra eu pegava o sujeito parecendo lançar olhares suspeitos. Uma afronta!

Na saída do balcão de atendimento eu teria que passar por ele. Feito. Não resisti. Fechei a cara. Semblante compenetrado, amarrado. E sisudo impus minha voz. A mais forte e grossa que consegui. Olhei o “vovô”  e já fui logo cumprimentando, com toda a ironia e sarcasmo: "boa noite, tudo bem? Nos conhecemos de algum lugar"?

Aí me surpreendi mais ainda. O "cara", educadamente acenou que não. Meneou a cabeça e num relance se virou. Quase morri de vergonha! O "vovô" era estrábico ao extremo. Quando parecia me olhar na conversa, na verdade direcionava à porta. Esse sim, era um vesgo com propriedade! Já não dei continuidade à conversa. Apressei os passos e desapareci.

Já na volta, dei risadas da cena. Passara a noite fugindo de um olhar ciumento e perseguindo um outro invasor. Ao final, nada se revelou verdade. Ainda bem que a minha calmaria estava de plantão.

Já pensando no edredom, imaginando as cenas calientes, de sobressalto sou tomado por resquícios de um “machismo” que beirava à mais pueril insegurança. Absorto ainda nas cenas experimentadas, indagações perambularam incitando a ira. Seria mesmo o estrabismo, ou fui ludibriado? Coisa difícil perguntar à mulher. Mulheres não revelam, a tempo, tais ocorrências! Será?

Sem pestanejar, desferi logo o golpe. Ela, com toda calma, como se em hipótese alguma houvesse sido flertada, nega veementemente. E para comprovar, aperta o abraço, aconchega seu corpo ao meu e lasca logo um beijo. Pensei comigo: "sei não, carinho demais... amor demais..."  

Melhor optar pelo estrabismo!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Metamorfose



”...Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.
Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito. Eu o esquentava, impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las.
Curvando por cima dela, eu a ajudava com o meu hálito, em vão. Era necessária uma paciente maturação,o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol; agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo. Ela se agitou desesperada e alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.
Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois, hoje, entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis. Temos que não nos apressar, não ficarmos impacientes, seguir com confiança e ritmo eterno”.
Nikos Kazantzákis

Foto:Casulo, de Ana Marques


Tudo tem o seu tempo certo. E como aprender a vida se assemelha à metáfora, à metamorfose! Veja como as convidativas e necessárias rupturas incessantemente desafiam. É como vencer o invólucro! É preciso trabalhar esse processo... Tempo!

Os ambientes onde construímos nossas aprendizagens do cotidiano são igualmente eivados de possibilidades contraditórias, diferenças, surpresas e tantos outros senões... É que lidamos com o ser humano, com sua incompletude, sua incerteza, sua beleza, sua mágica exuberância e sua contundente complexidade, de seus múltiplos e diversos valores.

Ali, nesses mesmos ambientes, nos confrontamos, por certo, com tropeços do nosso discernimento, com a insensatez que perambula solta e com a pequenez que retumba da turbulência de tempos idos, ainda não mitigada. Feridas expostas, quase gangrenadas. Dores lancinantes.

Precipitamos escolhas e embarcamos a rumos desconhecidos. Depois, mal resolvidos, queremos a todo custo desembarcar do trem a toda velocidade. Queremos pular. E pulamos mesmo! É quando nos damos conta das feridas que agora marcam o pulo. Cicatrizes de escolhas.

Quantas e quantas vezes sopramos mais do que devíamos! Alimentamos mais ainda as dores, porque não lhe concedemos o tempo de cura! As frustrações viram mágoas, o hálito quente da obsolescência faz aumentar a perda. A ira se aquece no sopro do ostracismo, fica à margem dos passos. A sede de justiça, vilipendiada, ao calor do orgulho ferido, fulmina a verdade num silencioso "autoextermínio". A integridade, ferida de morte, na quentura do revide, abraça o revanchismo tosco, inconsequente e bestial.

No afã de respostas, reparos à dor sentida, nos metemos num ciclo de marginalidade, onde tornamo-nos algozes das utopias que forjaram nossos já combalidos valores. A consciência do duradouro esfacela-se na escaldante incompreensão de efemeridades. O infinito dos sonhos vira ponto final, finito das buscas.

Sopramos mais do que devíamos... Protagonizamos grandes desencontros cravados de interpretações dúbias de nós mesmos. Já não há estupefação! Vaidades exacerbadas servem à subjetivação da empáfia. Teimamos abdicar da verdadeira condição de aprendizes. Não se desenvolve a atitude da paciência, do diálogo, do autorespeito, do autocuidado. Os compromissos evolutivos são desmanchados.

A humanidade, desencontrada de si mesma, faz descortinar esses cenários. Assistimos, impávidos, balas perdidas ceifando inocentes; transgressões no trânsito virando desmanche de famílias; avidez por dividendos virando massacre social, pobreza esquecida e estigmatizada; amores desencontrados virando jazigos que silenciam a esperança. E assim, cada um, filho das lágrimas que violentam a vida, passa a negligenciar o respeito a si e outrem, maculando a dignidade. Sopramos mais do que devíamos... Julgamos fácil, ao sabor das próprias incompletudes cegadas.

A reversão dessa chacina exige, antes de soprar em demasia, o imprescindível mútuo respeito, procurando resolver as discordâncias, não pela aceitação passiva ou autoviolentadora, mas pela síntese dos contrários, por uma postura crítica, revisionista e compreensiva, à luz de uma visão holística requerida. É indispensável aprender a confiar no ser humano, a estabelecer um credo de fé na humanidade.

A Psicopedagoga  Antonia Nakayama argumenta, em relação ao aprendizado, que é preciso levar na alma um pouco de marinheiro e o entusiasmo pela travessia; um pouco também do pirata, aventureiro de mares desconhecidos e um pouco de poeta, para mostrar a busca do aprender como metáfora da própria vida, e ainda, muita paciência para esperar o momento em que se possa assumir o controle do próprio barco, para somente depois, alcançar outros tantos portos com o que se construiu de conhecimento e de si mesmo. O processo de apreender a vida, no qual somos atores e autores – nós nos confundimos nesse palco –, só pode ter como meta a autonomia, mas não nos esqueçamos da borboleta em seu casulo... É preciso ser paciente nessa construção, posto que isso pressupõe a construção do outro e de si.

É preciso servir atitudes de empatia e inclusividade, enquanto atenção não preferencial, enquanto posturas acolhedoras das polaridades que transitam no nosso universo. O isolacionismo não tem lugar. De costas e escondido das pessoas que partilham o mesmo trajeto que eu, não consigo ver onde erro, não tenho a dimensão dos meus acertos. Não avanço. Corro o risco de sofrer o mal da paralítica arrogância.

O convite se coloca para aprender a trabalhar as ansiedades, no ritmo e tempo exigidos, a corrigir caminhos, retomar rumos, autocorrigir-se constantemente, propor e aceitar mudanças, melhorias graduais de nós mesmos, gerando assim a irreversibilidade dos grandes encontros de vida conquistados.

Proponho então, antes dos afoitos sopros, que aprendamos a semear sementes da coragem, da vontade, da superação, da disposição e de valores humanos. E que cada um as aqueça, no casulo do coração, para que os brotos possam ser transplantados a outros que caminham a ermo, na escuridão dos seus desencontros.


Metamorfose. Fonte:http://www.pensador.info/autor/Nikos_Kazantzak

Imagens dos Caminhos