segunda-feira, 14 de junho de 2010

Escolher Viver!

"Junto ao cadáver de um suicida encontrou-se uma carta dirigida ao Juiz, nos seguintes termos:

Sr. Juiz:
Não culpe a ninguém da minha morte. Acabo com a vida porque em dois dias mais que não viva não saberei quem sou neste mar de lágrimas.
Verá, Sr. Juiz: Tive a desgraça de casar com uma viúva. Tinha ela uma filha. Se o soubesse, nunca o teria feito. Meu pai, para maior desgraça, que era viúvo, se enamorou e se casou com a filha de minha mulher; de maneira que minha esposa era sogra do seu sogro, minha enteada se converteu em minha mãe, e meu pai ao mesmo tempo era meu filho.
Em pouco tempo minha madrasta trouxe ao mundo um varão, que era meu irmão, porém era neto de minha mulher, de modo que eu era também avô de meu irmão.
Com o correr do tempo, minha mulher trouxe ao mundo um varão que, como irmão de minha mãe, era cunhado de meu pai e tio do meu filho.
Minha mulher era sogra de sua própria filha; eu sou, por outro lado, pai de minha mãe, e meu pai e sua mulher são meus filhos; meu pai e meus filhos são irmãos, minha mulher é minha avó, já que é mãe de meu pai, e, ainda, sou meu próprio avô.
Já vê, Sr. Juiz: despeço-me do mundo, porque não sei quem sou".

Mark Twain– Carta de um cadáver

Foto:Armend


A quase tragicomédia, com desfecho trágico, proposta por Samuel Langhorne Clemens, ou como se tornou conhecido, simplesmente Mark Twain, nada traz de novo ou especial, exceto o fato de que, transitando pela ironia, faz rir da temível morte.

Eu tenho medo da morte. Estarreço-me ante a única verdade da qual jamais conseguirei fugir. Dá-me calafrios tais pensamentos mórbidos. Fujo. É por isso que não dou conta de compreender quando ouço notícias de que alguma vida foi apagada. Mais ainda que  as assassinadas por motivos torpes, inquieta-me quando alguém decide tirar a própria vida. Não compreendo. Juro que não!

É como se bêbado de vida estivesse, todos os exageros e extrapolações houvessem sido cometidos e, juiz de si mesmo, decide pela catapulta. Decide vomitar a vida. Apagar-se.

Que dor é essa que faz abandonar a caminhada? Que perdas são essas que roubam a sanidade? Que frustrações são essas que incendeiam o fascínora dentro de si, a ponto de decapitar o próprio sopro de vida? Tentativas vãs de interpretar a dor que somente o seu sentidor conhece. Não pertence a ninguém, senão a ele mesmo, saber o tamanho, a profundidade.

Ainda assim, minha incompreensão persiste. Cada vez mais ecoa a máxima socrática de “só sei que nada sei”.

Qual ser humano ainda não experimentou sofrimentos, perdas ou aflições? Quantos se aprisionam em lágrimas que fustigam os olhos? Quantos silenciam a própria voz quando amordaçados por opressões maquiavélicas? Quanta vida escrava da ausência de oportunidades! Escrava da segregação. Escrava de exclusões sociais provocadas por larápios que se enriquecem usurpando lugares de poder e decretando a miserabilidade.

Contudo, mesmo assim, quando tudo parece conspirar a favor da escuridão, basta prestar um pouco mais de atenção para ver a vida à espreita, sempre convidativa. Ainda que a miséria esteja instalada, faltando migalhas de alimento, há vida nos olhos dos que são alimentados da esperança. Há amor e pertencimento aos mesmos sonhos.

Então, cá com meus problemas, minhas frustrações, minhas perdas, não dá pra desistir dos passos. Não dá pra fechar os olhos e viver como se morto estivesse. Não dá pra ausentar-me da vida, tirar férias das dificuldades ou esgotar forças ao primeiro enfrentamento. Há escolhas reclamando minha voz.

Dia desses, o blog Devaneios e Metamorfoses, propôs uma encruzilhada que exigia posicionamento. Indagava se ante a díspares situações do cotidiano, em especial o abordo, se a posição era escolher um lado ou ficar em cima do muro. As seguintes questões foram formuladas:

“É preciso escolher um "lado"?
- Há assuntos sobre os quais você evita pensar?
- Você faz uma regra valer para si mesmo, mas para o resto das pessoas a regra é outra?
- Você costuma expor os seus pontos de vista quando o assunto é polêmico?”

Não há resposta que seja fácil, se sincera e leal aos pressupostos que orientam o caráter. Minha resposta:

"A reflexão, de tão profunda e complexa, exige cuidado redobrado nas ponderações. Qualquer escorregão já vira conceito, preconceito ou 'lado'.
A questão é que a ansiedade, o medo de cometer equívocos e outras formas reativas são componentes expressivos das dificuldades e fragilidades humanas. Por conta disso há uma tendência indissociável de permanecer distante, quando os assuntos se apresentam polêmicos ou que despertam julgamentos de toda sorte.
Daí surgem os adesistas por insegurança, também aparecem os profetas do apocalipse e o que mais se vê, os egoístas de plantão. Cada qual fazendo a escolha que lhe convém.
Alumiar a reflexão, sob o holofote da verdade, nem sempre faz desnudar a vaidade humana, em verdade a grande vilã, responsável por toda forma de imobilismo.
Eu continuo insistindo na tese de que (repetindo), somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.
Talvez, em razão disso, minha tendência é sempre escolher o lado de dentro. O que foi forjado em valores humanos arrojados, em utopias aprendidas, vivências dolorosas, ranhuras na alma e uma caminhada de chinelos humildes. Não há como deixar de devotar tanta lealdade à história construída.
Então, nada de fuga! Vale a congruente hombridade em 'dar a cara a tapa', se preciso for".

Penso então que o sentido de vida passa por tais compreensões. Cada circunstância exige respirar respostas distintas. Generalizar pode ser um risco à imbecilidade egocêntrica. Escolher a própria morte, mesmo no percalço mais inconveniente ou dolorido, não pode ser opção. É melhor perecer, deixar a dor latejar, não subjugá-la, mas jamais fechar os olhos com a concordância da entrega fácil. A estrada é outra. Insisto na vida, simplesmente!



10 comentários:

  1. Oi, Gilmar!

    Gostei das perguntas do blogue "Devaneios e Metamorfoses". Boas, muito boas.

    Concordo com a sua resposta... Aliás, generalização é sempre uma cilada. Vale lembrar que quando somos nacionalistas demais (reflito muito sobre isso quando estou fora do meu amado e saudoso país de origem), usamos a generalização como principal arma. É preciso aprender a lidar com isso, mas o que sempre percebo é "revestirem" um pacote de características à uma pessoa de determinada nacionalidade... Se não é generalização, é o que?

    É uma contradição da postura crítica, por exemplo, dizer que espanhois são preconceituosos. Afinal, usa-se o mesmíssimo preconeito para apontar o dedo. Enfim... São discursos que andei escutando pros lados de cá.

    Abraço,
    Michelle

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  2. Nossa, realmente é qse uma tragicomédia, muito interessante. Confesso que a morte me assusta, e muito. Adorei seu texto, muito por comentar mais o tempo não me deixa, mas saiba que degustei cada letra.
    Obrigado por seu comentário, e não foste ivasivo e sim muito delicado.
    Bjs Gilmar
    Mila Lopes

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  3. Oi, Gilmar. Que bom ter se interessado em conhecer meu blog. Ele é muito simples, muito meu, quase que só pra flar da família, mas gosto muito de escrever, seja o que for.
    Apareça sempre!
    O texto é ótimo. Também não consigo entender o que leva uma pessoa a dar cabo da própria vida. Não sei se é covardia ou muita coragem...
    Quanto às perguntas propostas, gosto de responder a tudo, não me furto de dar minha opinião.
    Depois volto pra ler com mais calma.
    Boa semana!

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  4. Oi Gilmar! É a segunda vez que venho ler esse seu texto. Não consegui formular em minha cabeça minhas próprias ideias a respeito (provavelmente porque já passava da meia noite e meu cansaço era enorme). Hoje, volto a lê-lo com mais cuidado, parando a cada parágrafo. Fiz-me as mesmas perguntas, e percebo que almejamos as mesmas respostas. Por piores que sejam os momentos da vida, é necessário que tenhamos esperança. Porque nada é eterno - máxima que vale para o bem e para o mal. Se não por motivação própria, espero que haja sempre um anjo ao lado do desesperado que lhe sopre a paz e a busca por si mesmo - é impossível sermos felizes quando a felicidade está no outro.
    Quanto ao posicionamento, perfeita sua colocação de que não se pode avaliar todas as situações com o mesmo peso e medida. Cada momento é único e, generalizar as respostas pode trazer mais prejuízo do que benefício.
    Difícil esse tema, hein? Ainda terei que voltar algumas vezes, há mais portas a serem abertas e mais pensamentos a serem aprofundados nesse seu texto. Bravo!
    Um beijo, Deia.

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  5. querido,

    eu, como dizia o Vinícius, não tenho medo de morrer, tenho medo de perder a vida, rs*

    beijos

    MM.

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  6. Que triste. O suicídio é um ato de muito desespero, nenhuma carta ameniza o ato.

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  7. Gilmar
    Realmente um tema muito polêmico. O Homem por não saber quem era resolveu acabar com a sua vida. Carta conturbada e hilárica com tamanho entrelaçamento de vidas que o envolvem e no final não lhe sobra nada ou será que não soube fazer suas escolhas?
    Falar de vida e insistir simplesmente nela é deveras interrogativo. Vejo a vida como uma passagem, uma amadurecimento, um preparo e quando chegar a nossa hora acredito que não haverá medo , nem inseguranças ou tristezas pois o tempo se encarrega de nos levar.
    O que me dá medo não é deixar de viver e sim de perder a vida violentamente.
    Continuaria a escrever tanto que talvez não sobrasse espaço neste comentário.
    Gosto muito de ler seus posts que são de uma autenticidade extrema e abordam assuntos muito interessantes.
    Pena meu tempo ser pouco para continuar a ler suas postagens anteriores, mas retorno com menos sono para ler com atenção.
    Beijos

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  8. Olá, Gilmar.

    Esse texto do Mark Twain é bem conhecido e ótimo. E se presta a inúmeras reflexões, mormente essa que você expôs de forma tão marcante aqui neste espaço.

    Para escolher a vida, temos que inevitavelmente falar na vida e na morte. Na vida a gente pode tecer inúmeras considerações, mas a morte é uma ilustre desconhecida. Sim tenho medo da morte, é o desconhecido que mete medo. Mas não evito falar sobre ela.

    Quanto ao suicídio, penso que aquele que tira sua própria vida não está em pleno uso de suas faculdades mentais, pois o apego à vida faz parte de nossa natureza como seres vivos. E esse apego tem uma finalidade muito especial, ele garante a perpetuação humana no planeta. Então, renunciar a vida, é uma atitude que não pode estar situada dentro da normalidade, do senso comum. Aliás o próprio texto do autor, conduz a esse raciocínio, tanto que leva para o lado cômico, que, sabe-se, é também uma das formas de dizer alguma coisa, de se fazer entender.

    Quanto as verdades absolutas, também tenho medo, pois não existe uma só verdade, existem várias verdades, a minha, a tua, a nossa e as dos outros. Cada um de nós vive num contexto, numa circunstância, numa verdade, "eu sou eu e minhas circunstâncias", no popular, cada um no seu quadrado, ninguém foge.

    Pois bem, alumiada a vereda, o que vejo? Aquilo que todos nós estamos carecas de saber: o caminho de cada um. Às vezes fácil, outras difícil, algumas pedras, o paraíso, enfim, o caminho da vida. Estamos aqui para viver! A hora da nossa morte não nos pertence. E nada de fugas, concordo contigo, Gilmar, tem que dar a cara a tapas mesmo. E seguir andando. É assim que penso.

    Bjsssssssss

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  9. Querido amigo,

    Difícil tema, não me arrisco entrar no mérito da questão, mas meu posicionamento é como o da maioria, suicídio não é opção. Meus pensamentos flutuam mais para os lados do que o fulano estava sentindo no momento exato. Que tamanha dor... só consigo pensar numa dor maior do que própria morte, só isto pode dar coragem a um indívíduo de levá-lo a tirar sua própria vida, não sei..

    Do seu comentário no meu blog, agradeço sempre seu entusiasmo, como costumo chamar de meus rabiscos poemáticos..rs

    Vou ficar no aguardo do seu poema que já está adolescente, compartilhe antes que chegue a maior idade..rs

    Abraços e carinhos retribuidos!

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  10. Não sei se tenho medo da morte... Meu temor é o sofrimento. Como no texto do Mark Twain, a idéia de não saber quem sou ou, complemento ainda, de não conseguir atualizar minhas potencialidades, me apavora! Tenho medo de sofrer e de assistir ao sofrimento daqueles a quem amo.

    Também sou a favor da vida. E de uma vida plena o quanto isso seja possível. E os caminhos para a plenitude são vários. E se tornam disponíveis de acordo com o nosso momento de vida e nossa capacidade intelectual e emocional de enxergá-los.

    Por isso eu não me sinto no direito de julgar ninguém. Os contextos são sempre distintos, porque somos seres humanos em diferentes estágios da caminhada. Não posso exigir do outro algo que ele não possui para me dar. Mas me sinto na obrigação de ser solidária a ele, pois estamos nos mesmo barco: buscando respostas às nossas perguntas. Podem ser até perguntas momentaneamente diferentes. Podem ser respostas que nos assustem. Mas defendo pra sempre o direito à individualidade e a resolver um problema por meios diversos, de acordo com o que aquele indivíduo específico possa produzir nquele momento.

    Bjos!

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