quinta-feira, 10 de junho de 2010

Carroça Vazia


Foto: A Carroça, de Rui Grafino

“Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer. Ele se deteve numa clareira e, depois de um pequeno silêncio, me perguntou:
    - Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?
    Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
    - Estou ouvindo um barulho de carroça.
    - Isso mesmo, e de uma carroça vazia...
    Perguntei-lhe, então:
    - Como o senhor sabe que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?
    - Ora - respondeu ele - é muito fácil saber se uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz.
    Tornei-me adulto, e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, tratando o próximo com grossura, prepotente, interrompendo a conversa dos outros ou querendo demonstrar que é o dono da verdade, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai, dizendo: ‘Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz’..."


A arrogância é algo que me dá asco. Abomino pessoas que se julgam donas de verdades absolutas. Prepotência e presunção andam abraçadas. Habitam bocas da retórica maledicente, numa necessidade rançosa de poder. Utilizam-se de verbos grandiloquentes, impondo derrotismos e bizarrices enfadonhas. Soa como se fosse um deboche.

Não há assunto sobre o qual não se pronuncie, com “sapiência”.  É uma busca compulsiva a aplausos. Acho intragável esse orgulho bestial e egoístico.

Mas, fazer o quê? A estrada precisa desses empecilhos, desses lamaçais enrustidos. Sem eles não se exercita a paciência e a humildade, testando ao limite os valores que calçam os pés. A caminhada é longa!

É compreensível, e também necessário, que a pluralidade de pensamentos se ofereça ao debate. É louvável quando a reflexão impõe a revisão dos pressupostos que até então orientavam posicionamentos. É, de fato, um aprendizado, quando a eloquência fundamentada se coloca como ponte a juntar pedaços de cada um, irrompendo-se enquanto sinergia de construção do saber.

Autoconfiança até que merece reconhecimento, mas ego inflamado, faça-me o favor! Tamanho entorpecimento é de fazer inveja a Narciso.  Causa reboliço no Monte Olimpo.

Os mais incautos sofrem, à revelia, desmandos e opressões por conta de supostos intelectualóides, que esbravejam e destilam sua imponência hipócrita. Os mais críticos rebatem, compram a briga. Acabam por misturar-se ao fétido chiqueiro. A lugar nenhum se chega no embate.

Melhor então é retomar o fôlego. Contar até dez. Calçar as chinelas da humildade e sabedoria para esquivar-se do revide. O meu tamanho não pode apequenar-se. Hora de arrefecer os ânimos. O olhar precisa manter-se nobre, sublimar.

Quando a arrogância e a prepotência, por conta de qualquer tipo de poder, massacram os mais ingênuos, o preço pode ser caro e será pago. Disso não tenho dúvidas. A caminhada guarda surpresas, percalços subestimados. Então, nada melhor que um “causo” para fazer rir. É do Geraldinho de Goiás, um humorista que infelizmente não está mais entre nós, ele já conta “causos” em outros planos.

Neste “causo”, o rompante do sujeito, embalado no berço da arrogância, recebeu, de um jeito “natural”, a devida recompensa pelo pedantismo. Quiçá os igualmente insolentes recebam suas inesquecíveis lições...

A Arrogância tem preço!




Meu Pai e a Carroça
http://fotolog.terra.com.br/alex_smoreira:76 


9 comentários:

  1. Olá, Gilmar!

    Espetacular a analogia da carroça! Vou guardar essa imagem para sempre. Ultimamente, não ando ouvindo muitas carroças vazias, um alívio.

    Já você, pelo visto...

    Olha, se outro remédio não há, boa sorte no seu "ruminar" por estas indigestas percepções. Mas com a autoridade de ser sua primeira "seguidora" (esta palavra para mim tem um peso que você não imagina) e leitora de praticamente todas as suas publicações (inclusive aquela última fofa sobre "insegurança masculina" e que me deu um alento acerca dos casamentos bem sucedidos, pois é uma ideia que gosto de propagar), sinto-me no direito de aconselhar: selecione suas músicas preferidas, carregue consigo um MP3 pequenino, junto com bons fones de ouvido e, sempre que perceber a chegada de uma carroça barulhenta, use-os!

    Porque você, meu caro amigo, escreve a música da boa reflexão com a humildade dos profundos pensadores. E, definitivamente, não tem que de se preocupar com carroças.

    Um grande abraço,
    Michelle

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  2. Oi Gilmar! excelente tema proposto! A arrogância e a prepotência! Tenho visto mais carroças vazias do que gostaria ultimamente... E vamos seguindo o nosso caminhar, às vezes ficamos até em dúvida se não somos nós que estamos errados. Quando o discurso então é o do "faço e arrebento" - nossa senhora! Fico de cá só olhando, pensando "quanto fôlego a pessoa terá para sustentar a empáfia?"
    E a vida segue. Eu não tenho pretensão alguma de dizer "uma hora a vida corrige" - quem sou eu? Vou é me espelhando nos bons exemplos, vou me acercando de boas pessoas, e deixo essas carroças vazias à vontade para passarem a toda pela estrada. O meu ritmo, esse seguirá inabalável!
    Um beijo com carinho,
    Deia

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  3. Gilmar,

    esta comparação da carroça é brilhante e serve para aqueles seres que caminham apressados pela vida com o ego tão inchado que não têm tempo de descobrir a sua verdadeira essência.
    O auto-conhecimento dá-nos confiança para prosseguir o nosso caminho com amor, com humildade e desejando servir com altruísmo aqueles que nos cercam.
    Respeitar a verdade dos outros e aprender com as nossas escolhas é estarmos conscientes que a vida é para ser vivida sem atropelar ninguém ou impor as nossa ideias.
    Há muitos seres a despertar para uma nova realidade, para uma nova era e cabe a todos os que já estão despertos ajudá-los nessa caminhada.
    Mas… há ainda muitos seres que preferem continuar mergulhados na arrogância, na crítica constante das escolhas do seu semelhante e é esse o obstáculo que nos ajuda a demonstrar a nossa compaixão e a cultivar a nossa paciência para com eles.

    Este texto dá uma excelente reflexão e uma ajuda para um passo no crescimento interior.

    Deixo a minha paz num abraço amigo

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  4. Gilmar

    Realmente carroças vazias fazem muito barulho. Mas o barulho enfim, a gente coloca tampões nos ouvidos, ouve músicas, sei lá. Ainda tem remédio. O pior é quando essas mesmas carroças vazias aumentam em quantidade, adquirem forças e começam a atrapalhar o trânsito, a passar com sinal fechado, a atropelar as pessoas, a sujar a estrada. Aí, o bicho pega. Tem de haver um jeito de meter na cabeça desses arrogantes que no mundo civilizado e espiritualizado em que vivemos não há mais lugar para comportamentos dessa natureza. Talvez devêssemos encher as carroças deles com pedras: de educação, cultura, solidariedade e humildade. Para que as carroças, pelo menos, começassem a silenciar e todos pudessem viver melhor.
    Muito bom o texto.
    Beijo grande.

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  5. Gilmar
    Gostei muito do seu texto, ouvir sons de carroça vazia é muito desagradável e tento me afastar delas também.
    Serve de reflexao , uma boa leitura Gilmar
    Obrigada por tão bela escolha
    abraços

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  6. Quanta sapiência nas palavras de seu pai, e que ensinamentos maravilhosos se encerram nessa estória da carroça,
    adoro quando me corrigem com sabedoria, pois somos falhos e expostos a sentimentos as vezes não muito louváveis,
    eu tenho um velho amigo que me corrige assim usando analogias, parábolas e simbologias que ajuda essa minha cabeça dura a pensar com mais clareza e voltar atrás e rever alguns valores;
    reflexão contundente,
    obrigada por partilhá-la,

    «Todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.»

    Leon Tolstoy


    *Isso me deixa preocupada, comigo mesma..

    Bjs,
    Ester

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  7. Que maravilhoso texto,Gilmar!Seu pai sabia das coisas!Uma carroça vazia,um coração vazio,uma mente vazia...tudo isso gera a arrogãncia!Tb detesto gente que se acha e sai pela vida pisando nos pés das pessoas!Grande reflexão!Abraços,

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  8. Ola, querido amigo! Deixando um beijo, vim reler esse seu ultimo post, gostei muito do assunto que ele trata. Bom final de semana! Deia

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  9. Essas pessoas com egos inflados e carroças vazias, podem ter uma questão mal resolvida, conforme a minha observação:

    - por sentirem-se esvaziadas de sentido e conteúdo próprio, se agarram aos sentidos e conteúdos alheios como se estes fossem tábuas de salvação. E seguem a vida impondo opiniões de maneira arrogante, de cima de seus pedestais, para que ninguém chegue perto a ponto de perceber o seu grande segredo oculto. Em casos mais graves, a pessoa começa a acreditar na própria mentira e nem sente mais a insegurança da consciência do seu esvaziamento.

    E seguem vivendo com verdades absolutas que as afastam de sua própria humanidade e de chances genuínas de crescimento pessoal.

    Esse tipo de pessoa pode nos incomodar muito. Mas a maior perda sempre será deles, que se iludem em frente a um espelho quebrado.

    ;-)

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