domingo, 1 de julho de 2018

Carta dos Sonhos




Ceilândia 01 de julho de 2005



Exmo. Sr.

Deputado Federal Alexandre José dos Santos

MD. Presidente da CNEC

Brasília – DF



Senhor Presidente,



 A incumbência de escrever uma “Carta dos Sonhos” deveria parecer algo fácil e até mesmo um simples ato de gestão, não fosse o desafio de legitimar os sonhos de tantos outros que partilham a caminhada da FACEB.


Embora toda reflexão exigida tenha sido oferecida, este Diretor ainda sofre com as indagações que perambulam, em uma inquietude pedagógica e institucional, acerca dos sonhos que são abrigados pela nossa Casa de Educação, a FACEB.


         Como, Senhor Presidente, legitimar os sonhos dos nossos funcionários? Daquele que limpa e higieniza os banheiros, que varre do chão os resquícios de noites embriagadas do saber construído, diuturnamente, em nossas salas de aulas. Que sonhos trazem essas pessoas? Que pessoas são essas? Quais são as vidas que moram em cada um? Onde e como residem? Do que se alimentam? Quais os seus conflitos existenciais? Que sonhos este Diretor, de fato, pode legitimar em nome deles, de forma a assegurar-lhes a sobrevivência mínima e a oportunidade de uma vida digna? Afinal, a contraprestação dos serviços nos garante a satisfação do aluno, do professor e tantos que circulam pela “Casa”.


Como, Senhor Presidente, legitimar os sonhos dos nossos docentes? Daquele que se compromete, dia após dia, na construção de um projeto educacional ousado. Daquele que não mede o tempo de servir, pois sabe bem o tamanho e significado de sua missão. Daquele que sabe mediar o saber e provocar a apropriação do conhecimento no outro. Que sonhos são esses, trazidos pela abnegação, pela entrega constante que se faz a outros seres humanos? Daquele que crê, luta, compromete-se visceralmente e não desiste quando tantos e tantos atropelos só faz exigir ainda mais da sua coragem, bravura e dedicação. Quem são essas pessoas? Que sonhos alimentam? Sabemos bem as competências que emprestam. Sabemos bem a criticidade, maturidade e verdade que anunciam e vivem, mas convenhamos, sabemos muito pouco dos sonhos mais profundos que hoje ocupam suas almas.


Como, Senhor Presidente, legitimar os sonhos de nossos alunos? São tantos e tão distintos. Não nos trazem mais apenas a demanda pelo Ensino Superior. Há mais buscas em suas vidas e há mais exigências sendo feitas. Há exclusões sociais a serem superadas; há mãos repletas de calos, em cada casa, em cada família, alimentando sonhos que nos foram confiados e alimentando-se de tais sonhos como condição de ruptura de estigmas sociais, tão ardilosamente traçados por uma sociedade que ainda teima desconhecer a vida que pulsa na simplicidade. Pessoas com necessidades específicas e condições tão adversas. Ali, Senhor Presidente, na nossa Casa de Educação, misturam-se as classes sociais e, por trás de todos os intermitentes movimentos de pessoas que entram, que saem e que circulam, há o que ressente a ausência de teto; há o que se desespera no desemprego; há o que, deixando as celas de uma prisão, ainda sofre para alimentar os seus, mas sabe que não pode sucumbir, caso contrário, só fará prevalecer profecias auto-realizadoras; há os que residem em casas modernas, casas simples, barracos, quartos ou quase nada disso.


Eu me pergunto, Senhor Presidente, se cada passo dado cumpriu seu objetivo. Eu me pergunto, a cada instante, se a nossa competência pedagógica, de fato, propicia a transformação social que este país carece. Eu me pergunto, a cada noite, quando sou o último a deixar a faculdade, se naquele dia um ser humano se construiu diferente. Eu me pergunto, a cada instante que vejo as salas repletas de alunos, se o brilho que hoje paira nos olhos de cada um, terá força suficiente para resistir e jamais se apagar. Eu me pergunto, aula após aula, se o conhecimento construído, por força da necessária consciência de transformação social, não sucumbirá ou ainda, não será submetido a um estuário de expectativas perdidas no tempo e no espaço.


O ato de educar é eivado de tais complexidades e, com certeza, tantas indagações permanecem alimentando sonhos e nos obrigando a, sistematicamente, ousar melhorias constantes, buscar acertar os passos, aprender com as releituras cotidianas e jamais deixar de sentir o cheiro de gente, que humaniza cada gesto e cada olhar lançado ao futuro. Isso, Senhor Presidente, porque o ato de educar exige disponibilidade, capacidade de abertura a si próprio e a outrem, capacidade de compreensão do outro, na sua individualidade e na coletivização dos sonhos. É portanto e sobretudo, um ato de extremada afetividade.


É da tentativa de compreender tantos sonhos e desejos, todos eles abrigados em um só ambiente, mas ainda assim complexo e distinto, que este Diretor ousa também proclamar os seus sonhos, na esperança de um encontro realizador. O conhecimento não se constrói apenas sobre o pronto e o acabado. Antes, sua natureza nasce da pergunta, da falta de respostas, da incapacidade de dar a solução, das hipóteses mal ou bem formuladas, dos desacertos e inquietudes. E é do exercício da angústia profissional que as respostas podem ser construídas e sustentadas.


Assim, este Diretor passa a sonhar os sonhos que não lhe pertenciam, mas foram tornados seus, por força da responsabilidade atribuída e por força da crença no ideário institucional, tão arraigados em seu ser. Assim, Senhor Presidente, também os auspiciosos sonhos do Professor Felipe Tiago Gomes impregnam a alma deste educador e deste gestor. Sou então instrumento, cujo maior desafio é o enfrentamento das indagações nascidas do contexto de Ceilândia, para dar vazão aos sonhos depositados em cada uma das 1.700 carteiras escolares espalhadas na Casa de Educação e, também, de cada um dos funcionários e docentes, mas sobretudo, de cada mínima parte da comunidade de Ceilândia e entorno que toma a FACEB como lugar da construção de novas oportunidades de vida. Falo, Senhor Presidente, do sentimento de pertença de nossos alunos! Falo de algo até então não vivido.


E que sonhos podem ser proclamados? Os sonhos que este educador ainda nutre, cheio de esperança, do aniquilamento das desigualdades e injustiças sociais? Da oportunização do saber, enquanto premissa inquestionável de todas e quaisquer políticas governamentais? Tantos e tantos sonhos se colocariam agora ancorados numa visão abrangente de mundo, mas os pés alicerçados num chão ceilandense já reclamam efetivamente vôos mais simples, resignificados numa práxis educacional capaz de operar mudanças contundentes.

      Sonho uma faculdade de excelência, onde a marca FACEB seja sinônimo de empregabilidade, onde o estigma social que ainda consegue vitimar nossos alunos, seja extirpado e se reconheça a sua competência, enquanto marca indelével de uma faculdade que ousou romper paradigmas.


Sonho uma infraestrutura que traduza os anseios, interesses e expectativas da comunidade de Ceilândia, e entorno, e que possa permitir a expansão dos serviços educacionais prestados, onde novos cursos sejam oferecidos, como por exemplo, Direito, Serviço Social, Psicologia, Ciências Contábeis, Enfermagem, Fisioterapia, Educação Física e Biblioteconomia – todos eles com demanda potencial já constatada em pesquisas.


Sonho e persigo a viabilidade econômica da FACEB, onde os recursos financeiros, hoje tão escassos, permitam melhorias tecnológicas, pedagógicas e estruturais de altíssima qualidade, provocando assim a performance inigualável de nossos serviços.


Sonho a faculdade enquanto espaço de construção da cidadania, no sentido mais extremado que a expressão possa alcançar, onde os inúmeros projetos comunitários provoquem transformações sociais relevantes. Projetos sociais nascidos das demandas das salas de aula, enquanto objeto do conhecimento e da práxis comunitária (vertente pedagógica); que instiguem a criatividade e inventividade, enquanto competências e habilidades requeridas mercadologicamente (vertente empregabilidade); que ampliem a credibilidade institucional, enquanto inserção, responsabilidade social e diferencial qualitativo (vertente do marketing); que assegure a identidade comunitária da faculdade e mantenedora, de forma inequívoca, notadamente pelos resultados produzidos (vertente institucional).


Sonho o permanente investimento no aperfeiçoamento contínuo dos serviços, processos, pessoas e sistemas, a fim de efetivar a melhoria constante da qualidade e produtividade dos resultados educacionais. E que estas oportunidades diversificadas de capacitação e desenvolvimento dos recursos humanos, em toda a abrangência (alunos, funcionários, professores e comunidade) possam convergir em diferencial competitivo reconhecido e propagado.

        Sonho a ampliação da Unidade Cenecista de Ceilândia, com serviços da Educação Infantil ao Ensino Médio, da Graduação à Pós-Graduação e, com certeza, no longo prazo o Strito Sensu. Isso porque, Senhor Presidente, sonho a expansão de uma simples faculdade à Universidade.


Sonho a gradativa transformação de nossa Escola de Ensino Fundamental, inicialmente ampliada até a 8ª série e, posteriormente, alcançando o Ensino Médio. Sonho a Escola enquanto opção primeira de Ceilândia, pela qualidade e proposta pedagógica. Sonho a Escola enquanto um grande projeto social da CNEC, onde o atendimento, hoje restrito a pouco mais de 200 alunos, possa alcançar, no mínimo, cerca de 600 famílias, ou algo em torno de 1.000 alunos. Sonho um grande projeto social, onde as famílias assistidas transitem pelos Cursos sonhados e, assim, algo de fantástico seria o marco referencial da Mantenedora. Neste projeto social todos os cursos articulariam, interdisciplinarmente, ações pedagógicas e sociais permeadas pelas quatro vertentes já citadas (pedagógica, empregabilidade, marketing e institucional).

Imagine, Senhor Presidente, nossos alunos de Enfermagem, Fisioterapia, Educação Física e Serviço Social mapeando carências e proposições à comunidade de Ceilândia, assistindo e diagnosticando soluções; alunos de Psicologia e Direito em unidades volantes, circulando pelo entorno e dirimindo questões de natureza jurídica e existencial, propagando a solução de questões cotidianas; alunos de Pedagogia, Biblioteconomia e Letras mapeando o analfabetismo, construindo alternativas e ensinando o exercício da cidadania; alunos dos cursos de Sistemas de Informação, Ciências Contábeis, Turismo e Administração atuando como molas propulsoras do desenvolvimento econômico de Ceilândia e entorno, nas consultorias e desenvolvimentos de negócios. Este, Senhor Presidente, é o sonho de educação que queremos. É o saber construído, no revés social, retornando à mesma comunidade enquanto exercício da aprendizagem e da empregabilidade.


Sonho, Senhor Presidente, sobreviver aos meus sonhos! Não reclamo a eternidade, apenas uma pequena parte do sopro de vida neste pequenino instrumento em que me tornei. Neste instrumento que vive as verdades que enuncia e nelas faz impregnar de lealdade cada amanhã sonhado. E, tentando responder às minhas indagações iniciais, são justamente essas verdades enunciadas e impregnadas de lealdade, que permitem a este mero Diretor, legitimar tantos sonhos, hoje cultivados na coletivização de um projeto institucional bem maior que os seus próprios sonhos, a FACEB.


Eis aí, Senhor Presidente, a melhor parte dos meus sonhos, desnudados e desprovidos de receios, isto porque, permita-me a insubordinação, também conheço um grande pedaço dos seus sonhos institucionais, pois foram comungados aqui.

  

         Um fraterno e forte abraço,



Prof. Gilmar Morais

Diretor da FACEB



Esta carta foi uma exigência do Presidente da CNEC a todos os gestores de faculdades, à época. Nunca foi divulgada. Alunos, funcionários e docentes não tiveram conhecimento do que escrevi. Apenas o Vice-diretor, a Coordenadora Acadêmica e a Coordenadora do Curso de Pedagogia a acessaram. Divulgo-a, agora, 13 anos depois, compartilhando verdades tão caras!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Gosto do Sal



Metáfora
O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse. Depois perguntou:

— Qual é o gosto?

O aprendiz, sem delongas respondeu logo:

— Ruim.

O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então velho disse:

— Beba um pouco dessa água.

Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou:

— Qual é o gosto?

O aprendiz, monossílabo, respondeu:

— Bom!

O Mestre insiste:

— Você sente o gosto do sal?

— Não, Mestre. Nem um pouco de gosto do sal.

O Mestre então sentou-se ao lado do jovem, pegou sua mão e disse:

— A dor na vida de uma pessoa é inevitável.  Entretanto, o sabor da dor depende de onde a colocamos. Então, quando você sofrer, a única coisa que você deve fazer é aumentar a percepção das coisas boas que você tem na vida. Deixe de ser um copo. Torne-se um lago.

Imagens dos Caminhos