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sábado, 10 de julho de 2010

Trocadilhos II


João sem Braço


A máxima de levar vantagem em tudo ainda demarca terrenos inférteis no cotidiano. É a nódoa que mancha o respeito humano, pois trata-se da "arte" de enganar. Trata-se da covarde postura de esquivar, fugir do embate e intrujar ideários. E como nos deparamos com tais afrontas! Há um equívoco persistente de que o outro não é nada mais e nada menos que um degrau a ser tripudiado, devendo permanecer sempre abaixo, rastejando-se por caminhos onde a mesquinhez de muitos chega antes. A dissimulação é aviltante! A febre egoística já virou panaceia. Atônitos e fragilizados, os valores éticos e morais, quase sempre dispensados,  a tudo assistem.

A atitude reclamada é a honestidade. É a determinação em propagar a ética, na congruência do dizer e fazer. É cultuar o respeito mútuo, na compreensão plena de liberdade e patriotismo, evitando assim a asfixia social. É responsabilizar-se, solidariamente, por tudo que diz respeito a todos.



Pisar em ovos

As pessoas são imperfeitamente diferentes umas das outras, inclusive pelos significados que cada uma dá em relação às vivências, ainda que sejam as mesmas. É a percepção de cada um que traduz, subjetivamente, a concepção que se tem da realidade. E aqui começam os ruídos. Invariavelmente somos tentados a supor que a minha "tradução" é a mesma do outro. Então, o outro, passa a ser construído sob este prisma. E, na ausência de cuidados, a "verdade" de um teima sobrepor-se à do outro. Não se atenta à elaboração interior que se processa no outro, sob a égide da individual percepção, tomada com convicção de ser a mais acertada.

A atitude é de empatia e compreensão. Compreensão entendida aqui não meramente como esforço de captação das ideias, não apenas como interesse e atenção. Significa, isto sim, a empática atitude de enxergar pelos olhos do outro, de sentir suas elaborações, de compreender suas traduções da realidade, com o claro propósito de alcançar os significados que constrói. Esse cuidado, empático, é o nascedouro do verdadeiro diálogo.



Marcar a Touca

Diz um velho ditado que cavalo dado não passa arreado duas vezes em frente à porta. As oportunidades perdidas são assim, dificilmente se repetem. E a vida é recheada de imprevistos e surpresas. Em grande parte das vezes, as posturas oferecidas traem qualquer possibilidade de sucesso. Argumenta-se a falta de tempo para fazer agora o que precisa ser feito agora. E o ritmo frenético das mudanças não espera pacientemente a resolução de abandonar o papel de mero ator, expectador das alterações, para tornar-se o autor. "Ficar de bobeira" é perder a capacidade de agilizar respostas, de refletir consistentemente e imprimir ações que afetem a inércia da vontade.

A atitude aqui é a motivação. Motivação e ousadia. E isso está intimamente ligado à vontade, inerente portanto a cada um, exceto quando se permite deixá-la adormecer. É o despertamento, disciplinado e perseverante, gerando o entusiasmo vibrante. É a janela de cada um que se abre para o mundo. Quando a vontade se cala, se mantém arredia e escondida nos escombros dos caminhos, é necessário então um "mão na roda" para alavancar o entusiasmo e reanimar os passos.



 Mão na roda

A expressão é considerada aqui enquanto decisão em movimento. Não se falará, portanto, da sua origem. Importa que ela conclui os trocadilhos, isso porque o termo é multiuso, de ótima aderência às palavras solidariedade, amizade, ajuda, colaboração e tantas mais!

Mão na roda é acudir o tropeço do outro, ampará-lo, reerguê-lo e acolhê-lo no abraço fraternal. É oferecer-se em complemento, minimizando-lhe os desencontros, mitigando-lhe as frustrações, permitindo-lhe a cumplicidade do franco sorriso. É o grito de indignação que faz ecoar e contagia os submissos, elevando-lhes a capacidade de reação e de respostas tecidas na maturidade da criticidade. É fazer-se presente, quando o lamento for ouvido; é ajudar, sem esperar contrapartida; é solidarizar-se, quando o ânimo solicitar resgate; é constância de propósitos, quando o outro toma parte em nossas vidas. É não se esquivar, não furtar-se e não deixar esvanecer a declaração de companheirismo que une.

Mão na roda é cada um que consente o perdão, que respira compaixão, que se veste de altruísmo, que não abdica do amor ao semelhante, mesmo quando este é um desgarrado social malgrado em sua solitária condição. É ser "pau pra toda obra", quando os próprios atos puderem fazer diferença. É servir, verdadeiramente, como esteio onde o outro recupera as próprias forças e se refaz para a continuidade da caminhada!

domingo, 4 de julho de 2010

Trocadilhos I


Chorar o Leite Derramado

O arrependimento é implacável, quando a índole nutre-se de verdades e ética. A nossa humana propensão ao erro é fato, ocorre em razão das crenças cultivadas e nem sempre se revela mesquinha, má, vil. Ocorrem enganos, escorregadelas involuntárias quase, mas que ferem, que machucam.

A atitude a ser emprestada é, primeiro, o perdão a si mesmo. Saber reconhecer-se imperfeito e aprender na imperfeição a reconstruir-se melhor. Depois, é preciso humildade para o reparo exigido. Humildade significando "esvaziamento de si" , enquanto ausência de concepções prévias, de verdades intactas e absolutas. Significa a mais profunda e íntima manifestação de reconhecer-se na imperfeição, sua e do outro. É preciso ir em busca disso. É preciso não estagnar-se, em si mesmo, ou ensimesmar-se na arrogância. Percorrer, solitário, o vale das lamentações em nada contribuirá, em nada modificará o que posto está. Implica então em assumir, na totalidade, o seu próprio tamanho.



Encher Linguiça
As falas grandiloquentes nem sempre guardam coerência e nem sempre revelam verdades. Há máscaras que falseiam, apenas ajudam na performance das interpretações fantasiosas e equivocadas no palco da vida. Não é difícil lidar com "falas" dessa natureza, se externas a cada um. Difícil é lidar com esses "textos" construídos pra dentro, digeridos no confuso exagero da autoestima, em verdade autossuficiência. É quando o vazio existencial se torna um lugar lúgubre, tenebroso, solitariamente assustador. Quanto mais se tenta alcançar a aceitação, a reputação ou a glória, tanto mais de "nada" o vazio se encherá.

A atitude, primeira, é a da paciência consigo mesmo. Dosar a ansiedade da fala, dos gestos ou das fanfarrices. Depois, é exercer a tolerância em relação ao que partilha. É preciso esforço para compreender as vicissitudes e idiossincrasias no círculo de relações. Mais uma vez as imperfeições se revelam carentes. A empatia, tão árdua na aplicação, merece ser visitada e concedida. Os exercícios de descoberta, na aventura da reinvenção de si mesmo, passam a ser o programa predileto na dimensão humana. Embrenhar-se na selva das contradições, dos pesadelos do ser e das incompletudes desnorteantes, permitirá revisar-se por inteiro e alocar outros significantes no espaço não mais vazio. Em processo.



Engolir Sapo
Atire a primeira pedra aquele que nunca se "explodiu" de contrariedade. E reprimi-la é o pior dos remédios. Não há coração que aguente e nem estômago que resista. Por vezes o insulto, a humilhação, o sarcasmo, o escárnio, o mandonismo exacerbado, a prepotência, o jogo de poder, enfim, inúmeras situações nos retiram dos trilhos e sem pestanejar, já desferimos respostas que agigantam o estrago. Ou então, vem a acomodação, e os sapos passam a ser digeridos na constância da passividade. O organismo se acostuma a não mais vomitá-los e a não mais expeli-los. As escolhas impõem riscos de toda sorte.

A atitude a ser proposta é a da resistência consciente, da dignidade que não se vende, da firmeza de propósitos edificados na ética. Ainda assim, quando preciso, dar a face à bofetada é um ensinamento a não ser esquecido. A ignorância, se revidada, vira lugar comum, que não mais diferencia, não mais distingue. A resignação é o exercício da bondade, e muitas vezes da caridade. Entretanto, hostilizar a prepotência ou solapar a si mesmo, ante o enfrentamento da injustiça ou opressão, só fazem imperar o caos que sustenta o egocentrismo humano.  Hora de arrefecer os ânimos, recobrar a calmaria, concentrar-se na exuberância que reside em si mesmo e tratar, com serenidade, os descompassos.

Pagar o Pato
Responder por ações ou irresponsabilidades de outros é sofrer consequências dolorosas e incabíveis. Quantas e quantas vezes somos vitimados por "senhores do poder" que corrompem, se enriquecem nas masmorras da miserabilidade do povo e ao mesmo povo retornam com retórica afiada, a rir de tamanha e esquálida benevolência. "Senhores" que não aparecem nem na  "Voz do Brasil", mas que se infiltram nos porões do poder e com astúcia vilipendiam a boa fé. Por fim, vencem instituições já falidas, escamoteiam projetos reclamados, zombam da dignidade e fazem triunfar nulidades. E cada um paga o preço da distância que permitiu abrir.

A atitude não é outra senão indignar-se, na prática. Não é outra, senão gritar basta. Não é outra, senão fazer valer a cidadania e expelir, da democracia, esses intragáveis gatunos bem vestidos na mordomia do poder. É preciso repudiar o cabresto, jogar ao chão a sela imposta e extirpar, vez por todas,  as viseiras que retiram a vida da visão sistêmica e integral da realidade. Se a ausência de educação, e a criticidade por ela despertada, é apontada como responsável pelo cenário, então já é tempo de ressuscitar, em cada um, o cidadão que não se deixa enganar, não aceita o "arreio" e não tolera mais a rédea, para então propagar uma nova ordem, uma nova possibilidade, ou quem sabe até uma nova utopia. Importa que não se cale. Que não se submeta ao jugo. Que não se deixe corromper.

Fotos: google