quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ser Itaguarense

Pôr do sol em Itaguara - foto de Hugo Resende
Outros Autores

O pertencimento solidário
Geografa identidade
É certidão de inserir-se mineiro

É a gente que nasce e se fazendo se torna
O próprio lugar da gente

Pelas vertentes centrais do centro-oeste metropolitano de Minas
Há Itaguara
O lugar, o povo, o céu, as águas e os pores de sol
Singular peculiaridade no mundo

Itaguarescer-se
É labutar sem sono
Suar sem reclamos
E ainda agradecer

Itaguarescer-se
Também é se dar aos pequenos prazeres
Que colorem o existir de sentido e flores
O céu estrelado, as muitas árvores multiformes
Os sons do mato, as andorinhas a rodear faceiras a torre da igreja

Itaguaresço-me
Ao escutar as noites de luares hemiciclos
E as chuvas com cheiro tímido de verde-natureza

É a fantástica magia da realidade simples
É Minas deveras
Gerais gentes arraigadas

Itaguaresço-me
Quando contemplo os pores-de-sol
Multicoloridos de canto a canto da Conquista
Quando ouço os mugidos sinfônicos das criações
Os farfalhares, chilreares, berros, grasnados, cantares, uivos e assobios
Verdadeiros habitantes

Também ouço num canto nobre
Da alma
Os cantos entranháveis dos cataguas, sapucaias
Amyipagûana

O itaguarense
É o sertanejo-citadino-desconfiado
Adjetiva-se de mineiridades inescusáveis

É o café
O leite
O pão de queijo
O queijo
A broa de fubá
O gado
A lida
A fé
A botina, o canivete, o chapéu e o pito de palha escondido no fundo do bolso raso na calça gastada mas remendada caprichosamente (porque o desperdício não pode)

A conversa, o banquinho, o convite, a visita:
— Senta!
— A demora é pouca.
— Almoça!
— uai...

É o pai, o avô,
O bisavô e o tataravô
Tradição
Mamãe, vovó, bisavó
Sensíveis tradições e humildades herdadas

É recusar agradecendo e desejando
É aceitar recusando
E agradecer muito

Itaguarizar-se
Para seguir na estrada,
Tocar a lida

Itaguarizo-me
Na pataca
Na serrinha
Nas estradas poeirentas bonitas
Pelas ruas simples de magia e gentes
Nas conversas despretensiosas demoradas na venda do Zé Ananias
Entre fumos de rolo, velas de santo e livros de filosofia antiga

Itaguarizo-me
Quando amanheço após noite
de turbulento sonho
Cruz-credo

Ser itaguarense
É transcender palavras
E falar por sorrisos aquiescentes e olhares exprobos
Manter a fé na humanidade e a desconfiança em si próprio
E orar
Sem esperar milagres
Mas acreditando que os impossíveis se fazem quando se merece

É confiar no manto
Da santa que sofre e chora a dor da perda do filho
Que por acaso é Deus

Ser Itaguarense
É Exceder-se algumas vezes
para equilibrar-se para o todo até o fim

Ser itaguarense é não ser melhor
Nem pior
É só ser
Ente

Ser itaguarense
É superar itaguarices
E Itaguareser-se
Itaguarizar-se

É ter um pé no interior e outro na capital
E conservar a alma no interior

É viajar pensando em voltar
É sorrir sozinho despistado
quando a serra de Itaguara se descortina em pontinhos de luz
Alá ó, Itaguara.




Alisson Diego Batista Moraes
Prefeito e Poeta de Itaguara

Esta é uma poesia inédita, publicada com exclusividade no Caminhar & Ruminar! 
Grato, Diego, pela deferência!
  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Olhares da Janela

 Meus Rabiscos
Do alto, olhares entremeados por grades vislumbram movimentos frenéticos da vida que corre lá fora. Transeuntes apressados, passos largos, outros tantos desleixados, mornos... Buzinas infernais, ronco de motores, freios... Gente que vai, gente que volta. Vidas que desfilam, anonimamente, ante olhares já estupefatos.

Nesse caos, de intermitentes sons, um silêncio prende a atenção. Lá está ela. A mulher sozinha, em seus diálogos imaginários e gestos intermináveis. Com uma pequena faca na mão,ou algo parecido, aos poucos o mato é desbastado. Célere e incansável, ela faz os galhos e ramos se desprenderem da cerca e ao chão se entregarem. E ali, paralisados, ao calor do sol escaldante, desfalecem.

E a mulher, de roupas imundas, rasgadas no incansável uso, não abre mão da sua touca vermelha. É seu protetor solar que enfeita a face já maltratada pelo tempo...

Dizem que se chama Lúcia. Ali, naquela rua, sua casa imaginária é limpa, às custas de uma velha vassoura carcomida, já quase aposentada. Seu fogão, sem trempes, não sabe o que é uma panela... acostumou-se à velha latinha, dessas de embalagens descartáveis, todavia, o fogo permanece leal. Não faz escolhas. Nem predileção tem. O que será cozinhado? A “farta” refeição cabe ali, na minúscula vasilha, colorida de preto por conta de tanto fogo aturado.

Vez por outra eu já a vi pentear, incessantemente, os emaranhados fios de cabelos que multiplicam o volume de forma exuberante. Ela os detém, amarra uma fita, os faz aquietarem-se à força. Esse gestual é feito sempre ao cair da noite, quando a escuridão invade-lhe a “casa” e ela precisa buscar um teto que faça diminuir o frio... Nada melhor que o aconchego sob o viaduto da Amazonas. O cheiro é insuportável, bem diferente de sua “casa” tão limpa... Mas, resignada, ali se refaz para um novo dia.

De longe eu imagino a voz e as questões discutidas... Com quem será ela conversa? O que diz? E por que tanto gesticula? Cessa os movimentos... novamente gesticula, ora com uma mão, ora com a outra... retoma a “capina” daquela cerca de terreno abandonado. Uma trilha de ramos e galhos jazidos demarcam o extenuante labor.

Quem será aquela mulher?! Em qual encruzilhada da estrada seus sonhos foram perdidos? Qual foi o desencontro que roubou-lhe a sanidade? Será que aprendeu a driblar a solidão? Que laços afetivos rompeu ou até construiu?

Não resisto. Da janela mesmo eu tiro uma fotografia daquela cena. E, essa "pessoinha" aí, com sua touca vermelha, é ela, a Lúcia. A foto espelha bem a invisibilidade social a que se submete aquela mulher... Ou ao que nós, que emprestamos apenas os olhares curiosos, a fazemos submeter-se.

E agora? Serei invasivo se mudar-lhe a escolha? Nada a fazer... O Serviço Social bem que tentou... Ela, intrépida e resoluta, permanece firme no seu propósito de manter-se fiel à sua escolha, aos seus diálogos, à sua “casa” e à incessante “capina”.

Então, nada me resta senão olhar prá ela e prá dentro e, quem sabe, aprender um pouco mais sobre tantas e tantas escolhas do cotidiano. Depois, erguer os olhos em oração silenciosa e clamar Luz a irradiar proteção e saúde...

Publicado originalmente em 02 de maio de 2010

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Tijolo



Metáfora
Um jovem e bem sucedido executivo dirigia, em alta velocidade, sua nova Ferrari. De repente um tijolo surgiu e espatifou-se na porta lateral do carro.

Freou bruscamente e deu ré até o lugar de onde teria vindo o tijolo.

Saltou do carro e pegou bruscamente uma criança, empurrando-a contra um
veículo estacionado e gritou:

— Por que isso? Quem é você? Que besteira você pensa que está fazendo? Este é um carro novo e caro. Aquele tijolo que você jogou vai me custar muito dinheiro! Por que você fez isto?

Um menino mal cuidado então implorou quase chorando:
— Por favor, senhor me desculpe, eu não sabia mais o que fazer! Ninguém estava disposto a parar e me atender neste local!

Lágrimas corriam do rosto do garoto, enquanto apontava na direção dos carros estacionados.
— É meu irmão. Ele desceu sem freio e caiu de sua cadeira de rodas e não consigo levantá-lo.

Soluçando, o menino perguntou ao executivo:
O senhor poderia me ajudar a recolocá-lo em sua cadeira de rodas? Ele está machucado e é muito pesado para mim.

Movido internamente para muito além das palavras, o jovem motorista, engolindo um imenso nó, dirigiu-se ao jovenzinho, colocando-o em sua cadeira de rodas. Tirou seu lenço, limpou as feridas e arranhões, verificando se tudo estava bem.

Obrigado! E que Deus possa abençoá-lo!
O menino agradeceu, sorriu ternamente e pôs-se a empurrar a cadeira em direção à sua casa.

O homem viu então o menino distanciar-se... Empurrando o irmão em direção à casa... Resolveu que era hora de voltar... Foi um longo caminho até a sua Ferrari... Um longo e lento caminho de volta...

Ele nunca mais consertou aquele pequeno defeito na porta amassada. Deixou-a assim para lembrar-se de não ir tão rápido pela vida a ponto de alguém precisar atirar um tijolo para obter a sua atenção... E refletia: "Deus sussurra em nossas almas e fala aos nossos corações. Algumas vezes, quando não temos tempo de ouvir, ELE tem de jogar um Tijolo em nós!"


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O mineiro dando má notícia

Humor



— Alô, Sô Carlos? Aqui é o Uóshito, casêro do sítio.
— Pois não, Seu Washington. Que posso fazer pelo senhor? Houve algum problema?
— Ah, eu só tô ligano para visá pro sinhô qui o seu papagai morreu.
— Meu papagaio? Morreu? Aquele que ganhou o concurso?
— Êle mermo.
— Puxa! Que disgrama! Gastei uma pequena fortuna com aquele bicho! Mas...ele morreu de quê?
— Dicumê carne istragada.
— Carne estragada? Quem fez essa maldade? Quem deu carne estragada para ele?
— Ninguém. Ele cumeu a carne dum dus cavalo morto.
— Cavalo morto? Que cavalo morto, seu Washington?
— Aquele puro-sangue qui o sinhô tinha! Eles morrêro de tanto puxá carroça d'água!
— Tá louco? Que carroça d'água?
— Pra pagá o incêndio!
— Mas que incêndio, Meu Deus?
— Na sua casa.... uma vela caiu, aí pegô fogo nascurtina!
— Caramba, mas aí tem luz elétrica! Que vela era essa?
— Do velório!
— Velório? De quem?
— Da sinhora sua mãe! Ela pareceu aqui sem avisá e eu dei um tiro nela pensando que era ladrão!
— Meu Deus, que tragédia (começa a chorar desesperadamente)...
— Peraí sô Carlos, o sinhô num vai chorá pur causa dum papagai, vai???


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Petitório

Outros Autores 

O poeta Vinícius de Moraes, morando em Itapoã, Salvador, enviou petição rimada ao prefeito Cleriston Andrade, através das páginas do jornal "A Tarde", clamando:

Prefeito Cleriston Andrade,
a quem não conheço,
quero tomar a liberdade
que eu nem sequer sei se mereço
de vir pedir-lhe, em causa justa,
um obséquio que seu favor
muito me honraria (e pouco custa)
ao Prefeito de Salvador.

Existe ali no principado
livre e autônomo de Itapoã
uma ruazinha que sem embargo
pertence a sua jurisdição
uma rua não sem poesia
e cujo título é dar teto
a uma das glórias da Bahia:
o governador Calazans Neto.
Dizer do estado desta ruela
(das Amoreiras) eu não arrisco
porque, sem esgotos, correm nela
rios de * valha-me o asterisco.

E isso é uma pena, Senhor Prefeito,
pois Calazans e sua gravura
têm cada dia mais procura
de fato como de direito:
o que constrange os visitantes
com boa margem de estrangeiros
é, entre gravuras fascinantes,
ver quadros nada lisonjeiros.
Calce essa rua, Senhor Alcaide,
e eu lhe garanto que algum dia
"pro domo sua", esta cidade
o há de lembrar com mais valia.

Na expectativa de que acorde
um novo "cumpra-se sem mais"
aqui se assina, muito ex-corde,
seu Vinícius de Moraes.


Vinícius de Moraes. Petitório, in Revista Visão. 24/12/73




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Duplo silêncio

Foto: Aender (Arcos-MG)



"Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.

Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno, até que um dia chegou a grande colheita. Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos. Cada um seguiu o seu rumo.

À noite, já no leito, cansado da difícil lida daqueles últimos dias, um deles pensou :
"Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".

Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.

Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando :
"Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar. As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".

Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.

Na estrada, escura e nebulosa, daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.

Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro."



Quando decidi escrever num blog, confesso que não alimentava muitas perspectivas! Precisava, isso sim, de uma válvula de escape onde pudesse eclodir e fazer implodir os fantasmas que assombravam a caminhada!

Alguns gritos metaforizados foram lançados. Aos poucos despiam e enfraqueciam os fantasmas. A blogagem já ganhava outros contornos!

Esta metáfora, da lenda judaica, espelha exatamente essa vivência! Aos poucos, na virtualidade das falas, pessoas, seres humanos como eu, chegaram mais perto, acolheram e foram acolhidas.

Nenhuma explicação foi exigida! Nenhuma referência solicitada! Nenhum currículo foi preciso estampar! Nada!

A "pertença" foi tecida em cada postagem ainda que silenciosamente lida, numa reciprocidade sem igual.

Cada um dos caminheiros, tal como este caminhante, tem seus percalços, suas atribulações, suas incompletudes e suas fragilidades. Entretanto, cada encontro vivenciado fortaleceu a fé em si e no outro, a crença na validade das utopias de vida e sobretudo, a comunhão de pensamentos, ideias e de almas humanizadas!

E é assim, nessa teia silenciosa, que as pessoas se dão umas às outras, cultivando a generosidade e a verdadeira amizade.

E é também, nessa teia tecida coletivamente, que se aprende a não desatar os fios que unem, a não partir os laços que acolhem. Aprende-se a respirar carinho, afetividade, compreensão, admiração e alegrias.

Não é contraditório afirmar que há sobriedade nesta virtualidade. E nem mesmo seria enganoso dizer que há "presença viva" nesses encontros virtuais dos diálogos saboreados. Não! Não é contraditório e nem enganoso! As pessoas, por aqui encontradas, passam a transitar, "silenciosamente", em nossas vidas.

Silenciosamente porque não precipitam julgamentos, não escutam as hipocrisias e nem se ferem nas vaidades imbecilizantes. Ao contrário, transitam silenciosas porque se dão, ousam apropriar-se da pertença que ata, ousam misturar-se nos pensamentos e ideias, uns dos outros, tornados "seu" ou "meu".

Uma letra rabiscada é um olhar permutado, pronto a ser discernido. Um conto, uma poesia, uma gravura ou qualquer outra imagem, enfim, qualquer que seja a fala, significa principiar o diálogo.

É também, por conta de tudo isso que, quando nos ausentamos, quando "tiramos" férias de nós mesmos e "damos" férias aos outros, bate um vazio na alma, uma falta absurda de "gente" ao redor.

Cada um faz uma falta tremenda!

Então, enquanto cada um de vocês vem trazendo um pouco da própria colheita, saibam que também volto oferecendo-lhes, silenciosamente, um pouco da minha colheita!

Pronto! Cá estamos! Uma vez mais nos encontrando na estrada! Neste mesmo imenso campo onde "semeamo-nos", uns para os outros!

Que perdure o encontro! 

Publicado originalmente em 31 de julho de 2010

Imagens dos Caminhos