quinta-feira, 31 de março de 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Catar Feijão


João Cabral de Melo Neto

Outros Autores


Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

MELO NETO, João Cabral de. Poesia crítica. Rio de Janeiro, José Olympo, 1982, p.12

sábado, 26 de março de 2011

Baú do Caminhar: Reclames da Educação

"lúdico...", de Solange Contrera


Reclames da Educação! 

Texto publicado em 10 de maio de 2010, ainda no início de tudo e trazendo à tona alguns registros da caminhada pedagógica. É um texto atemporal, ou seja, ainda cabe perfeitamente num cotidiano de exclusões e escolhas políticas equivocadas.

O educador, comprometido com seu sonho, em nome de um projeto existencial coletivo, tem cada vez mais aflorada e sensibilizada sua visão prospectiva de mudanças... Educação! Eis aí o grande desafio! Subjugada que sempre foi e clamando por luzes oniscientes, brotadas das mais sérias e compromissadas estirpes de educadores...
Educação que reclama passos firmes e mãos dadas num caminho aberto ao infinito da esperança. Que reclama a presença da verdade, o predomínio da prática-vida e a abominação do discurso vazio. Ela reclama o sonho que em todos os dias é sonhado num banco de escola: o sonho de se fazer presença-guia num cotidiano de exclusões sociais. A educação reclama ética!
    
Reclama o libertar das amarras covardes de ideologias escusas e a abolição da subserviência. Reclama do holocausto a que os mais distantes rincões são submetidos: por onipotência, por omissão, por ingenuidade. A educação reclama a mais explícita vontade política!
    
Reclama ouvidos aguçados, para os gritos sufocados, lânguidos, que se repetem como ecos e se perdem pelos vales sem sol. A educação reclama lucidez!
    
Reclama a coletividade para o sensibilizar, para o auscultar, para o planejar e para o construir. Reclama a fertilização do chão em que se pisa, onde tantas vezes se erguem estátuas ao tempo, abrigo de iletrados e de onde se levantam monumentos que não se explicam e nem se justificam, mas que reluzem aos olhos dos hipócritas e incoerentes. A educação reclama o desvelar da mentira onipresente!
    
Reclama um chinelo para os pés descalços, para os dedos já feridos por tantos tropeços, para que as pegadas sejam demarcadas no tempo e não se percam no horizonte que a humanidade faz descortinar. Reclama coragem, a falta de medo, o repúdio à covardia, para que o homem deixe de fingir o que sabe e abra-se ao saber do outro. Reclama o fim da dicotomia ostensiva e incongruente. A educação reclama pesquisa!
   
Reclama a aula “arco-íris”, que se curva ludicamente na sua volta ao abrigo onde nasceu, mas que encanta, que alegra, que motiva, que se torna um “escorregador” por onde a aprendizagem brinca e se diverte livremente. A educação reclama a criatividade!
Reclama corpo e alma se entregando às descobertas das próprias limitações e capacidades. Reclama a sede ardente do dualismo na educação-miragem hoje vigente. Reclama a sensatez: para a humildade, para o aprender, para o permitir-se, para o aceitar, para  o questionar e para o fazer... Sim... Para o fazer!
    
Reclama o que podemos dar: a disponibilidade de ser. Ser útil, ser disseminador do saber, ser aglutinador de encaminhamentos e profícuo articulador de propostas condizentes. A educação reclama a nossa parceria! E ela só quer o nosso pensar crítico convertido em um fazer responsável!
   
Está feito o convite!
Texto publicado, originalmente, em 10 de maio de 2010.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Fim do Mundo em Manchetes!

"Jornal voador", de Pedro Magalhães
Quinta de Humor


Algumas possíveis manchetes que seriam publicadas pelos meios de comunicação sobre o fim do mundo: 


The New York Times
- O MUNDO VAI ACABAR 

Obsservatore Romano 
- MUNDO ACABA OUTRA VEZ 

Times (Londres) 
- RAINHA TEME VER DIANA DEPOIS DO FIM DO MUNDO

El Pais (Madrid)
- SE HÁ GOVERNO NO OUTRO MUNDO, SOMOS CONTRA 

Diário de Lisboa 
- LEIA AMANHàCOMO O MUNDO ACABOU HOJE 

O Globo 
- GOVERNO ANUNCIA O FIM DO MUNDO

Jornal do Brasil
- FIM DO MUNDO ESPALHA TERROR NA ZONA SUL 

Folha de São Paulo 
- Ao lado de um imenso gráfico: SAIBA COMO VAI SER O FIM DO MUNDO

O Estado de São Paulo 
- CUT E PT ENVOLVIDOS NO FIM DO MUNDO 

Notícias Populares 
-PSICOPATA MATA A MÃE, DEGOLA O PAI, ESTUPRA A IRMàE  FUZILA O IRMÃO AO SABER QUE O MUNDO VAI ACABAR! 

Tribuna de Alagoas
- DELEGADO AFIRMA QUE FIM DO MUNDO SERÁ CRIME PASSIONAL 

Estado de Minas 
- SERÁ QUE O MUNDO ACABA MESMO? 

Jornal do Comércio 
- JUROS FINALMENTE CAEM! 

Jornal dos Sports 
- NEM O FIM DO MUNDO SEGURA O CRUZEIRO

Correio Brasiliense 
- CONGRESSO VOTA CONSTITUCIONALIDADE DO FIM DO MUNDO

Gazeta Mercantil 
- DECRETADA A FALÊNCIA DO FIM DO MUNDO 

Jornal da Tarde 
- FIM DO MUNDO. E DAÍ? 

Gazeta Esportiva 
- CRUZEIRO DESFALCADO PARA O FIM DO MUNDO 

Folha Universal (do Bispo Edir Macedo) 
- PAGUE O DÍZIMO ANTES DE PARTIR 

Veja 
- EXCLUSIVO! ENTREVISTA COM DEUS 
Por que o apocalipse demorou tanto?
- Especialistas indicam como encarar o fim do mundo.
- Paulo Coelho: "O profeta viu o fim do mundo e chorou".
 

Nova 
- O MELHOR DO SEXO NO FIM DO MUNDO 

Playboy 
- NOVA LOIRA DO TCHAN: UM APOCALIPSE DE SENSUALIDADE 

Info (Exame) 
- 100 DICAS DE COMO APROVEITAR O WINDOWS THE END! 

Época 
- ATÉ O FIM DO MUNDO SUA REVISTA "ÉPOCA" ESTARÁ  CUSTANDO R$ 7,80 

Guia de Programação NET 
- EXCLUSIVO: O FIM DO MUNDO NA GNT 

Sexy 
- COMO TRANSAR NO ALÉM 

SuperInteressante 
- DO BIG BANG AO FIM DO MUNDO

Casa Cláudia 
- COMO DECORAR A SUA CASA PARA O FIM DO MUNDO 

Diário Oficial da União 
- PRESIDENTA FAZ A SUA ÚLTIMA VIAGEM 

Diário Oficial da Justiça 
- SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ENQUADRA FIM DO MUNDO  NA LEI DA FICHA LIMPA

Diário do Congresso 
- ACABOU! NÃO TEM MAIS MAMATA E NEM MARACUTAIA 

 Uma ótima quinta a todos!

terça-feira, 22 de março de 2011

Oi, Zé!

"Uma Luz Divina", de Neil Walker
Metáfora da Semana

Cada dia, ao meio-dia, um pobre velho entrava na Igreja, e poucos minutos depois, saía.

Um dia o sacristão lhe perguntou o que fazia (pois havia objetos de valor na Igreja). E o velho respondeu:

- Venho rezar.

E o sacristão, estranhando tudo, até mesmo pelas vestimentas do velho,  retrucava:

- Mas é estranho que você consiga rezar tão depressa!

- Bem, eu não sei recitar aquelas orações compridas, mas todo dia, ao meio-dia eu entro na Igreja e só falo: "Oi Jesus, eu sou o Zé, vim te visitar”.

E continuou o velho:

- Num minutinho já estou de saída. É só uma oraçãozinha, mas tenho certeza que Ele me ouve.

Alguns dias depois, o Zé sofreu um acidente e foi internado num hospital e, na enfermaria, passou a exercer uma influência sobre todos: os doentes mais tristes se tornaram alegres, muitas risadas passaram a ser ouvidas.

A irmã de caridade, zelosa e que a tudo observava, disse ao Zé:

- Zé! Os outros doentes dizem que você está sempre tão alegre ...

- É verdade, irmã, estou sempre muito alegre. É por causa daquela visita que recebo todo dia. É a visita que me faz tão feliz.

A irmã ficou atônita. Já tinha notado que a cadeira encostada na cama do Zé permanecia o tempo todo vazia. Ninguém o visitara em todos aqueles dias. O Zé era um velho solitário, sem ninguém.

- Que visita? A que hora?

E o Zé, com um brilho nos olhos molhados pela emoção, responde:

- Todos os dias ao meio-dia Ele vem ficar ao pé cama. Quando olho para Ele, Ele sorri e diz:"Oi, Zé, eu sou Jesus, eu vim te visitar".

Uma semana abençoada a todos!

sábado, 19 de março de 2011

Baú dos Caminheiros: Não...

"O Beijo", de Vitor Silva


Baú dos Caminheiros: Fúlvio Ribeiro

Não me ame, além do que posso te amar...
Não me peça aquilo que não tenho,
Não grite meu nome tão alto,
Tirando de sua voz a doçura...

Não me procure onde nunca estarei...
Não me prometa nada,
Só olhe em meus olhos...

Não se preocupe em ter “Isso” amanhã...
Viva comigo “Isso” hoje... Sem que “Isso” nos faça reféns.

E ao acordar,
“Isso” nascerá novamente,
Pois “Isso” que nos une com tanta beleza,
Eu chamo de Amor.
 Fúlvio Ribeiro


Publicado no dia 24 de agosto de 2010 no Reflexóes.

Este poema do Fúlvio é algo de maravilhoso! Quando o li, lá em agosto de 2010, já náo resisti e naquela ocasião, mesmo antes de pensar nessa coluna quinzenal (Baú dos Caminheiros) eu manifestei ao Fúlvio que gostaria de publicá-lo aqui. E hoje, com imensa alegria, cumpro o que foi dito.

Fúlvio é um desses raros poetas que conseguem cochichar palavras de despertamento. Que encanta pelo hábil "manejo das letras" e que "cutuca" as emoções já guardadas pelo tempo. Enfim, a poesia tem essa possibilidade impar de falar a cada um de um jeito especial. 

Conheça o Blog do Fúlvio, o Reflexões! Tenho certeza de que se encantará!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Rapidinhas de Mineirinho

"Cigarrinho de palha", de Luiz Rodrigo Cerqueira de Sousa



Quintas de Humor


Futebor


O mineirim assiste TV com a janela aberta. Um amigo que passa, cumprimenta:
- Firme, cumpade?
- Não cumpade! Futebor.


Pescadô
O pescador diz pro mineirim:
- Você está aí já há quatro horas me vendo pescar. Não quer tentar?
- Uai! Num tenho paciênça prá isso não, sô moço!




Seu Dotô

O mineiro pergunta pro doutor :
- É o sinhô qui é o olhista?
- Não... eu sou o oculista.
- Vamo imbora, muié... tua doença é nos óio...


 Transa saudosa

O mineiro leva um amigo prá passar o fim de semana na fazenda onde nasceu e conta, todo saudoso:
- Tá vendo sô? Foi naquela casinha que eu nasci! Neste pomar aprendi as coisas da  vida.  Foi  onde  transei  pela primeira vez... Uai sô, me lembro como se fosse ontem!
- E cê lembra o que foi que ela disse?
- Beeeeeéééé!


Nudez à mineira!

Dois compadres caipiras estavam bem sossegados, fumando seus cigarros de palha e proseando. Conversa vai, conversa vem, eis que a certa altura um  pergunta para o outro:
- Cumpádi, u quê quiocê acha dessi negóço de NUDEZ?
No que o outro respondeu:
- Achu bão, sô!
O outro ficou assim, pensativo, meditativo... E perguntou de novo:
- Ocê acha bão pur causdi quê, cumpádi?
E o outro:
- Uai! É mió NUDÊS qui NU NOSSO, né




Bão de cama

Um mineirinho bom de cama, passando por New York, pega uma americana e parte para os finalmentes.
Durante a relação, a americana fica louca e começa a gritar:
- "Once more, once more, once more".
E o mineirinho responde aflito:
- Beozonte, Beozonte, Beozonte, uai.


Uma ótima quinta a todos!

terça-feira, 15 de março de 2011

Acorrentados

"Acorrentados", de Cristina Ferreira de Paula

Outros Autores

Paulo Mendes Campos


Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.

Texto extraído do livro "
O Anjo Bêbado", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 105.

Imagens dos Caminhos