terça-feira, 29 de março de 2011

Catar Feijão


João Cabral de Melo Neto

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Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

MELO NETO, João Cabral de. Poesia crítica. Rio de Janeiro, José Olympo, 1982, p.12

12 comentários:

  1. Que lindo... Escrever e cozinhar são artes! :-) Bjos!

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  2. Gilmar,que bela escolha!É mesmo necessário um cuidado especial ao escolher feijões e palavras!Seu blog e o meu tem Sabino,mas vc o traduziu tb!Ficou lindo!Bjs,

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  3. Maravilhoso João Cabral! Por vezes a pedra é que nos faz refletir sobre o que lemos. É preciso que haja pedras durante o percurso, tanto no das palavras, quanto no da vida!
    Beijos Gilmar, adorei,

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  4. Uma semelhança e tanto ,ambos necessitam de uma atenção e dedicação especial.
    Perfeito!

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  5. Uma semelhança e tanto ,ambos necessitam de uma atenção e dedicação especial.
    Perfeito!

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  6. Uma semelhança e tanto ,ambos necessitam de uma atenção e dedicação especial.
    Perfeito!

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  7. Gilmar, adorei as músicas do teu blog, até miminizei, para poder ficar escutando.
    E acredite, não gosto e blog com músicas...enfim, curti aqui...

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  8. Maravilhoso poema, misto perfeito de inteligência e de sensibilidade...excelente escolha.

    Meu amigo, venho hoje te trazer minha gratidão, por sua amizade, por toda atenção, por suas palavras deixadas no meu blog. Admirável sua educação, voce é um verdadeiro "gentleman", um amigo que muito estimo.
    Um abraço
    Valéria

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  9. Meu querido

    Um poema muito lindo...um entrelaçado de palavras que adorei.

    Beijinho com carinho
    Sonhadora

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  10. Gilmar, João Cabral Neto é sábio, saber colher, tanto o feijão quanto a palavra é sinal de bom prato para satisfazer o físico, no caso o feijão e a alma, no caso as palavras. Deixo o meu afeto.

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  11. Oi Gilmar... Primeiro gostaria de agradecer a sua participação na Campanha de doação de medula óssea. A união de todos poderá ajudar a salvar mais vidas.

    Belo poema, na colheita da vida é preciso saber escolher bem cada grão do caminho...

    Um abraço carinhoso

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  12. Lindaaa escolha, encantada com aprofundidade do texto...

    Bjss

    Mila

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Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

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