quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Matuto Zé da Prosa



Aquele matuto, o Zé da Prosa, era mesmo "treteiro". Gostava de uma boa mentira. E qualquer "causo" era sempre aumentado. Não tinha jeito com ele. Fosse o que fosse, ele tinha sempre uma boa história para contar. Coisa errada? Jamais admitia que errava ou que cometia qualquer engano, qualquer desventura sofrida.

Os amigos da turma buscavam, de qualquer jeito, uma forma de aprontar uma pegadinha, mas o Zé sempre dava um jeito de sair por cima. Ele era muito esperto.

Por conta disso foi armada uma pegadinha pelo Tibúrcio, matuto de voz grave, bigode enorme e branquinho, os fios rebeldes, já faziam volta no queixo e cresciam prá cima. O cabelo branco não dava conta de esconder o "moleque arteiro" que ainda vivia naquele matuto "tinhoso".

Sô Tibúrcio então combinou com a turma de levar o Zé da Prosa para a fazenda. Eles iriam jogar truco, tomar umas cachaças, cozinhar joelho e pé de porco e, se desse tempo, ainda pescar.

E assim fizeram! Noite de sábado, lua bonita, enchendo o céu de briho, quase ofuscando as estrelas, e lá estavam eles, na fazendo do Sô Tibúrcio.

Enquanto o joelho de porco cozinhava, outros aperitivos foram preparados. Jogaram algumas partidas de truco e, lá pelas tantas, o Zé da Prosa começou com seus casos:

- Gente, ocêis num imagina o susto que eu levei dia desses, quando tava vortando prá casa de bicicreta. Tinha um risco branco, marcando a estrada, de fora a fora. Eu pensei que era até assombração. Mas dipois, fui matutando, matutando e discubri o pobrema.

Ele nem parava de cortar o fumo, ia aparando a palha, moendo o fumo com os dedos e passando a palha na boca. E continuava assim mesmo, com aquela voz mansa, arrastada. Já era engraçado só ouvir a voz do Zé, imagina então contando caso. E ele continuava.

- Eu tinha saído da venda do Nonô com um saco de açucar e tinha que subi a serra prá vortá pra casa.  A bicicreta num tinha garupa e o jeito foi ajeitá o saco no cano e no guidom. E lá eu fui, pedalano a bicicreta. As perna já tava dueno dimais, mais num pudia disisti. Pricisava chegá em casa e a noite já tava chegano. Lá praquelas bandas tem muita onça, se bobiá, o bicho mata mesmo. Mais intão eu subi um morrinho e a istrada istreitava. Vinha um tratô e prá saí fora do bitelo, eu juguei a bicicreta no barranco e saí arrastano o barranco, mato e raiz, até o tratô passá. Isfolei o braço, mais num pudia pará não. Tava ouvindo uns miado isquisito. Paricia que a onça tava chegano. Aumentei as pedalada. E no que aumentei as pedalada, a bicicreta foi ficano mais leve e quanto mais leve ficava, mais dipressa eu andava. Peguei um carrerão e subi um morro num fôlego só. Pricisava vê, sô! Quando eu cheguei lá em cima, já quais em casa, parei um tantinho pra respirá. No que oiêi prá tráis, vi um risco branco, branquinho na istrada. Achei que era o tar do etê me siguino ou intão uma assombração das mais cumprida. Gente, muntei na bicicreta di novo, apertei a pedalada e só fui pará na portêra de casa. E a bichinha tava andano era muito dipressa. Quando eu oiêi, o risco tinha diminuido, tinha afinado, mas fui caçá o saco de açucar, cadê... Tinha sobrado só um tiquinho dele. Acho que na istripulia do barranco, o saco furô e foi sortano o açucar. E eu pensano que era os tal dos etê ou assombração!

Aí o Tibúrcio torceu o bigode. Esse Zé inventa cada uma, pensava ele. Resolveu então colocar o plano em ação. É hoje que pego esse sujeitinho! Assim o Tibúrcio repetia aos amigos.

Ele já sabia que o Zé não gostava de pescaria à noite. Morria de medo de cobras e onças. E mais! Sabia também que ele adorava tomar leite de vaca! Então deixou tudo preparado. Chamou a turma, pegaram as varas e foram ao açude pescar alguns bagres e traíras. E por lá ficaram um pouco mais de uma hora.

Já de volta, depois de limpar as traíras e os três bagres, a turma se ajeitou para retomar o jogo. O Tibúrcio encheu duas travessas de biscoitos de polvilho e pão de queijo. E chamou:
- Ô turma! Vamo cumê umas merenda aqui, tomá um cafezinho cum leite prá gente aguentá esperá o cuzido e forrá o estômago.

A turma, já no conluio com o Tibúrcio, se juntou à mesa. E o Tibúrcio, ao pegar a vazilha de leite para servir, fingiu olhar dentro e foi logo falando:
- Uai Zé! Ocê tomou o leite que tava aqui sô?! Tomou quase a metade! Nossa Senhora, sô!

O Zé da Prosa, no jeitão dele de não admitir qualquer malfeito, foi logo discordando:
- Ô Tibúrcio! Eu num tomei não sô! Ocê deve de tá inganado, purquê num divia de tê esse leite todo aí na travessa não! Ocê deve de tá inganado! Eu num tomei não, pode aquerditá!

E o Tibúrcio pensou: é agora Zé! E já foi dizendo, com ar de alívio:

- Ô Zé, ainda bem sô! Nossa Senhora! Eu fiquei foi preocupado dimais. Tem andado uns bicho por aí, não sei se é gato ou rato, ou o que é, uma tropa deles e os bichano tem comido de tudo aqui. Eles num respeitam mesmo. Aí, sô, eu resolvi botá um veneno no leite, prá vê se acabo com essa cambada de bicho que come o que num deve. E eu deixo sempre a travessa lá na pia, com o leite.

Nisso o Zé já estava de olhos arregalados, mas não abriu a boca e nem deu o braço à torcer. E o Tibúrcio continuava:
- E eu esqueci de falá com ocê, ô Zé, que o leite tava preparado. E como ocê gosta de leite, Nossa Senhora, eu fiquei preocupado dimais. Achei que iria precisá de fazê um preparado aqui, prá cortá o efeito do veneno. Eu até já tenho pronto aqui, na garrafinha, só que  ia precisá fortalecê mais o preparado de raíz. Ainda bem sô! Quais morri de susto! Imagina se ocê virasse os olhos e começasse a sortá ispuma pela boca? Nossa Senhora, ia sê uma tristeza, Zé! Ocê num ia vivê muito mais não, só umas poucas horas.

Aí o Zé, já morrendo de medo, com os olhos arregalados, não sabia o que dizer. Não podia confessar. Então, meio sem jeito, mas espertalhão como sempre, foi logo emendando a fala do Tibúrcio:
- Ô Tibúrcio, se esse trem que ocê colocou no leite é tão marvado assim, intão eu acho melhó tomá um gole tamém, só prá previni, né mesmo?!

E lá foi o Zé. Avançou na garrafa do Tibúrcio, no maior desespero. E de uma só golada tomou metade do preparado da garrafinha. Tomou num fôlego só. Respirou e noutro fôlego, tomou o resto. E limpando a boca com a manga da camisa, arrematou:
- Num custa nada privini, né mesmo?!

A turma então caiu na risada!
- É Zé! Hoje ocê caiu na brincadeira! Sua mentira num deu certo, sô! Num tinha nada no leite não! Era só um jeito de te pegá na mentira!

E o Tibúrcio falou:
- E o pior, ô Zé, é que nessa garrafinha tinha um preparado com leite de magnésio! Ocê vai limpa as tripa tudo sô! Mas vai pensá milhó antes de falá mentira, né Zé?!

E cairam todos na risada. O pobre do Zé da Prosa passou a noite visitando o banheiro. Era uma correria prá lá e prá cá, a noite inteira. Era de dar dó o coitado gemendo de tanto fazer força. O Tibúrcio pensou que ele aprenderia a lição.

Aprendeu? Que nada! Alguns dias depois o Tibúrcio surpreendeu o Zé, numa roda de amigos, lá na pracinha da cidade, contando o caso:
_ ... Pois é gente, ocêis pode aquerditá. Eu tomei veneno de matá cobra, dessas bruta que tem por aí e num murri. Eu tinha um remedinho dos bão comigo. É um preparado de raíz que eu fiz, que cura quarqué coisa. O causo acunteceu assim...

O Tibúrcio balançou negativamente a cabeça, e apressou o passo resmungando:
- É... Esse num tem conserto mesmo!

14 comentários:

  1. Meu querido amigo
    Fiquei deliciada com esta história, muito bem contada, adorei.
    deixo beijinhos e agradeço as suas palavras de carinho, no meu blog.

    Sonhadora

    ResponderExcluir
  2. Ah amigo...adorei...me encanta este jeitinho da roça de falar...é... uma vez dado a mentira...difícil de mudar...
    Tenha um ótimo final de semana...beijos...
    Valéria

    ResponderExcluir
  3. É amigo, tou vendo que vc é um bom contador de "mentiras", ops! De histórias. Manda mais que tou gostando. Abçs.

    ResponderExcluir
  4. Nada como um bom causo de matuto. São todos muito bons e esse não foge a regra. Uma boa história muito bem contada.
    Um lindo domingo pra vc.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Oi amigo!

    Passando para matar a saudade desse jeito mineirês de ser, que morro de saudade, pois parte da minha infância passei em Minas, e deixei bons amigos por lá! E não sei onde eles tiram tanto 'causo' prá contar, faz parte da cultura mesmo. Tão bom quanto comer pão de queijo com café feito na hora.. hummm!!! Abraços,

    ResponderExcluir
  6. Bom dia, Gilmar!!
    Passei pra agradecer pela sua visita e, pelo comentário deixado lá no Desnudo..

    Aproveito para deixa pra Ti, u belo domingo, com muita paz e harmonia..

    Abraços

    MARCIO RJ

    ResponderExcluir
  7. Bom dia, Gilmar.

    Esse Zé da Prosa me lembra muito meu avô. Igualzinho.. rsrs.

    Beijo grande e ótima semana pra vc!

    ResponderExcluir
  8. Gilmar que história bem contada. Adorei e não é o pegaram na mentira. É sempre assim, uma hora a gente pega - rs, mas tem gente que não tem jeito não se agarra na mentira e conta cada história!
    Um beijo e bom domingo

    ResponderExcluir
  9. Esses contos de matutos são muito bons Gilmar.
    Lembro de ter lido um que o cara chamava o amigo pro mato e o amigo dizia - o padre me excumunga... , é só pra ver passarinhos sô! ah bao , que susto vc me deu ...
    e por aí a prosa vai toda vida falando de passarinhos tipo -Sabia que só bem-te-vi e helicóptio param no ar?
    - Heli-o-quê?
    - Helicóptio. Aquele passarão redondo que passa aqui de vez em quando fazendo um baruião.
    - Tenho medo daquele bicho.
    - Eu também, prefiro os curiô ...
    Adoro Gilmar se deixar fico aqui que nem esse seu Zé da Prosa...eles são sobretudo sempre inocentes que é o que me agrada mais.
    boa semaninha ,muito e bons abraços

    ResponderExcluir
  10. Que saudade da terrinha!! De quando eu era pequenininha lá em Pouso Alegre e o melhor do dia era sentar na taipa do fogão para escutar os causos! E este me fez lembrar de uma citação de Mark Twain "Melhor dizer sempre a verdade para não ter que se lembrar das mentiras contadas".
    Boa semana!

    ResponderExcluir
  11. Meu querido amigo Gilmar! Demorei, mas cheguei!! Vim de longe, andei 450 km, mas, corri aqui para ler seus "causos". E que causo bom demais da conta, sô! Mas é duma danadice que dá gosto! E vamos comer pão de queijo e tomar uma caninha de alambique pra fazer esses causos rendeeeeerem a noite toda! Porque quem tem medo de escuridão é assombração!
    Minha admiração está impossível,amigo, devo admitir: não para de crescer!
    Um beijo enorme, sempre sua amiga, Deia.

    ResponderExcluir
  12. Olá Gilmar!
    kkkkk É bom demais! Adorei o causo. Essas histórias de matuto sempre são boas. Bjssss

    ResponderExcluir
  13. Tem selinho pra vc lá no blog! ;-)

    beijos!

    ResponderExcluir
  14. Oi, meu querido amigo Gilmar! Bom demais amarmos a felicidade, não é? Ajuda muito se caminharmos sempre sorrindo! Um beijo sorridente para você, Deia.

    ResponderExcluir

Fique à vontade!
Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

Imagens dos Caminhos