domingo, 13 de fevereiro de 2011

Baú do Caminhar: Lobos e Avessos

Baú do Caminhar

Gosto muito deste texto! Foi publicado, originalmente, no dia 12 de maio de 2010.
Ainda hoje, sempre que reflito sobre escolhas, eu me lembro da metáfora dos lobos e deste texto.
Tomara que gostem também, pois ele inaugura o espaço quinzenal do Baú do Caminhar!

"Lobos", de Pedro Serra

É muito conhecida a metáfora dos dois lobos, divulgada amplamente na internet. Ela se parece muito com nossas escolhas, com nossas intempéries atitudes e, claro, confunde-se, o tempo todo, com cada um de nós, simples seres mortais. A metáfora é assim:

“Um velho avô disse ao seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo, que lhe havia feito uma injustiça:
— Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio daqueles que aprontaram tanto, sem qualquer arrependimento daquilo que fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos...
E ele continuou:
— É como se existissem dois lobos dentro de mim, numa luta constante. Um deles é bom e não magoa. Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo fazer isto. E da maneira correta. Mas, o outro lobo, ah! Este é cheio de raiva. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira! Ele briga com todos, o tempo todo, sem qualquer motivo. Ele não pode pensar porque sua raiva e seu ódio são muito grandes. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar coisa alguma! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito.
O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou:
— Qual deles vence, Vovô?
O Avô sorriu e respondeu baixinho:
— Aquele que eu alimento mais freqüentemente".

Eu me deparo brigando com meus limites, com minhas escolhas. Ao longo dos dias cultuei valores, propaguei atitudes e extrapolei constructos. Reconstruí concepções, reformulei compreensões e uma vez mais, debato-me, numa incessante luta, com meus percalços limítrofes.

O aprendizado mais difícil é exatamente esse, o de revirar-se por completo, desnudar-se e, ante o espelho do cotidiano, deparar-se com o seu avesso.

A morada desse avesso apropria-se, de forma intangível, mas ao mesmo tempo de uma maneira eloquente, de suas incongruências inconfessas. São lobos soltos no tempo, com mandíbulas robustas e caninos afiados. Ao menor descuido se prontificam a vesti-lo noutra roupagem e chantageiam suas crenças, num abraço infindável à fragilidade exposta.

As unhas esfomeadas dilaceram o coração, tornando-o pateticamente poético e romantesco. A nova roupagem já começa a ditar as frases desconexas.

A volúpia do abraço mortífero já não reconhece quaisquer resistências. Aos poucos tudo é despedaçado e vorazmente consumido. O avesso vive. Prostitui o meu norte.

Entretanto, nessa incontida briga, a consciência reclama e chora cada pedacinho de utopia assentada na argamassa do abrigo esmorecendo. Afinal, o que mais alimentei na caminhada? O que, de fato, sustenta meus propósitos? E, por que no vacilo do tropeço, remexeram meu avesso?

É porque me descuidei. Permiti a solidão da dor. Ressenti as perdas. Não diligenciei minhas vicissitudes. Não auscultei minhas angústias. Não respeitei meus medos. Não acreditei nas minhas verdades extenuadamente vividas. Assim, frágil de amor próprio, combalido e atordoado, letargicamente perdido e ferido, assisto o meu avesso vestir-se para a festa. Vai comemorar meu vergonhoso fracasso.

Na briga, que persiste, um sopro de luz, um pequenino e tênue sopro de luz ainda faz respirar a alma inerte. Acesos, os olhos já não fogem da horrenda visão que o avesso impõe. A memória reconstrói forças. Na sofreguidão do abismo, as mãos já conseguem agarrar-se às histórias de cada uma das encruzilhadas vencidas, onde cada escolha redesenhou-me, de forma transformadora.  Impetuosamente, o que dilacerado estava, se ergue refeito. Na consciente fúria refuto os lobos carniceiros, dispo-me das roupas emprestadas e o instinto de sobrevivência faz recobrar a pulsação. É a minha metamorfose do renascimento.

Uma vez refeito, depois de tantas desacomodações, aquieto-me num novo aprendizado: a compreensão das minhas imperfeições. Desta feita, porém, sei que o outro lobo não morreu, apenas se afastou e escondido permanecerá. Com certeza, na ânsia de se fazer vivo, ele tentará se alimentar das migalhas que eu oferecer em cada ato, em cada gesto, em cada atitude... em cada escolha!

Agora cada passo dado rumo ao infinito já sabe a face do avesso, por isso mesmo é firme e constante. E cada pegada, largada na estrada, me assegura que os desencontros são pontes que constroem grandes encontros.  

Esse deve ser o propósito! Sempre!

9 comentários:

  1. Uma bela reflexão Gilmar...
    Sei bem como é ter duas naturezas em conflito...a outra, menos alimentada, sempre fica enfraquecida, mas, nunca morre, por isso procuro ter muito calma...

    Bjs

    Mila

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  2. Perfeita tuas colocações sobre os Lobos
    alimentamos o mais esfomeado sempre

    Perfeito teu texto


    Abraço

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  3. Ola Gilmar!! Um belo texto, uma ótima lição.Um abraço!

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  4. Gilmar, eu tenho uma frase que diz o seguinte: "ninguém é bom o suficiente que não tenha praticado uma maldade". Cabe a cada um de nós alimentar o nosso lobo intrínseco não de acordo com as convenções, mas sim de acordo com a ética e a moral. Abçs.

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  5. Olá Gilmar,
    Que bom que vc gostou dos selinhos... Ah são os dois viu..
    beijos

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  6. Belíssima a mensagem que a metáfora nos passa... realmente nos cabe "alimentar" o lado do bem, do perdão, a aceitação, enfim, do amor incondicional...
    Linda seja sua semana amigo...beijos
    Valéria

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  7. Realmente é um lindo texto que nos permite boas reflexões.Não importa se é antigo, é muito válido sempre,né?abraços,chica

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  8. Oi Gilmar!

    Percebo constantemente meus dois lobos em conflito. É difícil não alimentar o lobo raivoso, mas eu tento continuamente. Afinal, não me levará a lugar nenhum mesmo.
    Enfim, estou na estrada. Nem sempre a jornada é fácil.

    Beijo

    Carla

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  9. Oi Gilmar
    Quantas vezes alimentamos com frequencia o lobo faminto! sem apercebermos que vai nos devorar...
    gosto dessa liçao ,é clara e de fácil entendimento.
    esta mais que na hora de revermos e atentar para quem nós alimentamos diariamente.
    abraços amigo abraços

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Imagens dos Caminhos