sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mania de Pressa

A gente tem mania de pressa... Somos movidos a urgências. E a gente corre, quando devia acalmar os passos.

Talvez, daqui a algum tempo, a memória venha cobrar contas difíceis. Exigir reparo a tantas transgressões idas, sob a égide da pressa.

Nossa ordem de prioridades raramente contempla a efetividade da afetividade. Somos premidos por resultados. Respostas ágeis ao labor dos dias mais nublados.

Apressa-se o olhar. Ele já não carrega tanta ternura e compaixão. Os corpos em movimentos laterais e diante dos passos (e até mesmo aqueles prostrados nas calçadas), são apenas pontos demarcados no espaço para desvio de rota. São objetos sobre os quais já não se presta tanta atenção. Há pressa de cruzar a rua. Chegar noutro lado.

Os seres "inanimados" que circundam minhas adjacências também emprestam a mesma redundante pressa no olhar. Engraçado isso! Estranhos tão próximos, quase sempre numa mesma rua, numa mesma esquina... mas ainda estranhos. São mais estranhos que a vitrine da loja. Nessa os olhos costumam repousar, ainda que a avidez exija olhar tudo em tempo recorde.

Se os passos são rápidos e largos, alguns encontros são também sufocados, quando não, fugazes. Há pressa no abraço. Por vezes ele é trocado por um rápido aperto de mãos, isso quando, por intransigência do outro, já não é mais possível oferecer apenas um sorriso morno, com pequenos movimentos alternados das sombrancelhas. Uma melancólica tentativa de justificar a pressa.

Por conta da pressa, desaprendemos a arte de escutar os sons relâmpagos do cotidiano. Minha voz precisa eclodir, antes de qualquer outro. A intolerância exige ritmo acelerado. A paciência se esvai. A pressa não permite tais banalidades. Tais deleites  são refugados na contraordem do ritmo frenético.

Desaprendemos a procrastinar...É isso mesmo! Talvez se assim o fizéssemos, poderíamos reter o tempo... acalmar os passos... abafar o tic-tac do relógio tarefeiro e, quem sabe, olhar com a alma a simplicidade das "coisas" esquecidas.

É na calmaria, longe das turbulências incontidas, que o horizonte faz descortinar outras possibilidades. É como diz o poeta:
"Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir"
.

Música: Ando Devagar (Almir Sater )
Voz: Maria Bethânia

Um comentário:

  1. Olha, eu também me identifico muito com o tema da necessidade da calma. A calma convém para os dias correntes, de pobreza crítica e overdose de entretenimento.

    "Anda devagar" todo mundo que já teve pressa e sofreu alguma consequência disso. Embora a pressa tenha seu lado positivo, é a calma a aliada da concentração, indiscutivelmente. É desta última que precisamos, para empregar em quase tudo; desde as relações humanas à percepção das mudanças climáticas.

    Seu texto é profundamente reflexivo e remete à sensações comuns a cada um na correria do dia a dia. A música é inesquecivelmente bela, boas escolhas (vocabular e musical).

    Um abraço e obrigada pela visita no jANELA ;)

    ResponderExcluir

Fique à vontade!
Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

Imagens dos Caminhos