terça-feira, 3 de agosto de 2010

Canção Óbvia




Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.

Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.

Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e
conversarei com os homens.

Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais;
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.

Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.

Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
em voz baixa e precavidos:
É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porque esses recusam a alegria de tua chegada.

Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingênuamente,
antes te denunciam.

Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.


Paulo Freire
Genebra, março de 1971

Fonte: Pedagogia da Indignação - Cartas Pedagógicas e Outros Escritos, Editora UNESP, 2000.

12 comentários:

  1. Amigo Gilmar,
    E o que é a espera senão um tempo entre dois eventos? E, ao esperar que o próximo aconteça, devemos ocupar o espaço de tempo que ali se oferece, sem recompensa, de que forma? Com que frequencia?
    Somos, sempre, o resultado das nossas mãos. Não os olhos, não a boca, não os ouvidos - as mãos. Somos o trabalho que delas surgem, somos as carícias que delas escapam, somos a firmeza que delas oprime, somos a leveza que delas voa...
    Se temos um tempo vazio e mãos ocupadas, como faço possível o casamento entre esses dois descompassados? Já sei! Li, bem atenta ao texto: enquanto espero, trabalho.
    Uma riqueza de texto, escrito por um autor sublime, e escolhido por outro de igual grandeza.
    Obrigada por trazer esses ensinamentos a nós!
    Um beijo da amiga, Deia.

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  2. A "espera na pura espera" seria o ócio? Bom, segundo seu comentário, temos pelo menos dois tipos de ócio, não é? Esse da espera pela espera, da espera inútil e vazia, certamente seria o da acomodação... Ou não? Corrija-me se for o caso, professor.

    Grande abraço,
    Michelle

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  3. Meu querido amigo
    Belissimo poema, muita sensibilidade na escolha.
    Obrigada pelo carinho.

    beijinhos
    Sonhadora

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  5. Olá,
    Que doce espera!
    E muito racional também, pois implica no perigo que a ronda... É assim na vida!
    Gostei muito e estou um pouco assim no momento... na espera sem estagnar... é Proteção!
    Abraços fraternos

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  6. Esperar a gente espera neh,agora trabalhando,fzd o caminho pra não sermos pegos de surpresa.
    Muito obrigada pela sua visita.
    :*

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  7. Que belo poema querido amigo...pura sensibilidade...me encantei...
    Beijinhos
    Valéria

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  8. "Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
    em voz baixa e precavidos:
    É perigoso agir
    É perigoso falar
    É perigoso andar
    É perigoso, esperar, na forma em que esperas"

    Nunca confio em quem se esmera demais para me convencer do contrário a respeito do que penso.
    Quanto à espera em sim, sempre tive pra mim que falam melhor dela aqueles que não precisam vivê-la.
    Bonito poema, Gilmar.

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  9. Gilmar, Gilmar...
    Ainda que adoro o que escreves e mereces sempre
    meu carinho, não vou mentir de nada entendi...rsrsr
    De qualquer forma...qualquer nota vale...Fica para a próxima!
    Obrigada por tanta palavras de carinho, força e amizade por lá...
    Obrigada mesmo!
    Abs

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  10. Meu querido amigo, fiquei profundamente agradecida pelo seu gesto - até então desconhecido por mim! Indicar-me a uma seleção de melhores blogs do Brasil? Mas, a minha alegria ficou ainda maior quando vi que fomos escolhidos de mãos dadas! Não é à toa que terminamos as frases um do outro! São blogs irmãos! Parabéns pelo selo, seu blog é realmente um lugar para se parar e passar muito tempo - contemplar, pensar, questionar - são essas as ações que você nos provoca! Um forte abraço da amiga, Deia.
    PS: Quando você entrou mais cedo no blog ele ainda estava sob construção! O girassol me acompanha, não poderia seguir sem ele, jamais!

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  11. Grande texto de Paulo Freire, excelente escolha!

    Sobre o seu comentário, jamais brigaria com vc, apenas apaguei a postagem porque achei exagerado de minha parte o que escrevi. Não adianta muito explicar, ando pelas fendas do meu silêncio, não espero que as pessoas entendam,

    Fique bem, amigo! E continue sempre a brilhar com esta luz que lhe é peculiar,

    abraços,

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  12. Não entendi o texto do Paulo Freire, OK???
    rsrsrs
    Bjs
    Ah parabéns pelo tão merecido selo!!!

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Fique à vontade!
Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

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