sábado, 31 de julho de 2010

Duplo Silêncio

Foto: Aender (Arcos-MG)



"Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.

Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno. Até que um dia, chegou a grande colheita. Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos. Cada um seguiu o seu rumo.

À noite, já no leito, cansado da difícil lida daqueles últimos dias, um deles pensou :
"Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".

Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.

Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando :
"Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar. As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".

Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.

Na estrada, escura e nebulosa, daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.

Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro."



Quando decidi escrever num blog, confesso que não alimentava muitas perspectivas! Precisava, isso sim, de uma válvula de escape onde pudesse eclodir e fazer implodir os fantasmas que assombravam a caminhada!

Alguns gritos metaforizados foram lançados. Aos poucos despiam e enfranqueciam-se os fantasmas. A blogagem já ganhava outros contornos!

Esta metáfora, da lenda judaica, espelha exatamente essa vivência nos blogs! Aos poucos, na virtualidade das falas, pessoas, seres humanos como eu, chegaram mais perto, acolheram e foram acolhidas.

Nenhuma explicação foi exigida! Nenhuma referência solicitada! Nenhum currículo foi preciso estampar! Nada!

A "pertença" foi tecida em cada postagem comentada e em cada comentário oferecido, numa reciprocidade sem igual.

Cada um dos caminheiros, tal como este caminhante, tem seus percalços, suas atribulações, suas incompletudes e suas fragilidades. Entretanto, cada encontro vivenciado fortalecia a fé em si e no outro, a crença na validade das utopias de vida e sobretudo, a comunhão de pensamentos, idéias e de almas humanizadas!

E é assim, nessa teia silenciosa, que as pessoas se dão umas às outras, cultivando a generosidade e a verdadeira amizade.

E é também, nessa teia tecida, que se aprende a não desatar os fios que unem, a não partir os laços que acolhem. Aprende-se a respirar carinho, afetividade, compreensão, admiração e alegrias.

Não é contraditório afirmar que há sobriedade nesta virtualidade. E nem mesmo seria enganoso dizer que há "presença viva" nesses encontros virtuais dos diálogos saboreados. Não! Não é contraditório e nem enganoso! As pessoas, por aqui encontradas, passam a transitar, "silencosamente", em nossas vidas.

Silenciosamente porque não precipitam julgamentos, não escutam as hipocrisias e nem se ferem nas vaidades imbecilizantes. Ao contrário, transitam silenciosas porque se dão, ousam apropriar-se da pertença que ata, ousam misturar-se nos pensamentos e idéias, uns dos outros, tornados "seu" ou "meu".

Uma letra rabiscada é um olhar permutado, pronto a ser discernido. Um conto, uma poesia, uma gravura ou qualquer outra imagem, enfim, qualquer que seja a fala, significa principiar o diálogo.

É também, por conta de tudo isso que, quando nos ausentamos, quando "tiramos" férias de nós mesmos e "damos" férias aos outros, bate um vazio na alma, uma falta absurda de "gente" ao redor.

Cada um faz uma falta tremenda!

Então, enquanto cada um de vocês vem trazendo um pouco da própria colheita, saibam que também volto oferecendo-lhes, silenciosamente, um pouco da minha colheita!

Pronto! Cá estamos! Uma vez mais nos encontrando na estrada! Neste mesmo imenso campo onde "semeamo-nos", uns para os outros!

Que perdure o encontro!

18 comentários:

  1. Uma volta com tanto sentido! Revelando uma alma que fala tanto do que vive em cada um de nós!

    Durante o meu período afastada, foi exatamente assim que eu me senti... Ficou um vazio!
    E ao retornar descobri... Aqui está o que me faltava!

    Gilmar, obrigada por fazer parte do meu caminho!

    Beijos com meu carinho

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  2. Gilmar,
    se autorizo você a publicar algo meu aqui?
    Nem era preciso perguntar!
    Fique á vontade!Para mim será uma honra.
    Um abraço e beijo carinhoso

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  3. Que assim seja! Seu texto é perfeito e fala profundamente à minha alma. Recebo com imenso afeto a tua parte da colheita e te entrego de coração a minha. Lindas palavras de amizade, e de solidariedade para um fim de sábado. Agora posso ir descansar!Chave de ouro!
    Beijos, caríssimo e seja bem vindo!

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  4. Gilmar querido...linda lenda...mas, amei ainda mais as suas palavras...muito verdadeiras, carinhosas, acolhedoras...me sinto assim como você...ser blogueira é algo novo pra mim, mas me surpreende ver a energia, o calor humano, a amizade que vivemos no dia a dia com nossos amigos, virtuais, porém tão reais, tão em nosso coração, tão parte das nossas vidas.
    E você é um deles com certeza e saiba que sua presença, suas palavras fizeram muita falta...que bom que voltou...
    Tenha um maravilhoso domingo amigo!
    Beijos...
    Valéria

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  5. oi Gilmar
    voce escreve com "os dedos longos da carícia " como num poema que li.
    Concordo que os acolhimentos são instigantes e nos faz voltar mais rápido.E vamos nos tornando íntimos das palavras dos amigos, visualizado-os um a um e como voce diz "silenciosamente" e gostosamente digo eu! rs
    obrigada por sua partilha , só acrescenta e aprendo muito.
    Excelente o conto dos dois amigos, sintonia fina de sentires , que floresça em nós.
    bom domingo
    abraços

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  6. Retribuindo o seu carinho e afeto.
    Como é bom te ver. Desculpe a ausencia. Estava com problema na net.
    Agora está resolvido. Agradeço o seu carinho. Sempre muito carinhoso e atencioso.
    Um bom final de semana para ti.
    Sandra

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  7. Bom dia, Gilmar.

    A amizade é um tesouro inestimável, que sempre aumenta e enriquece cada vez mais o espírito e o coração dos que se unem por seus laços.
    Lindo post de retorno.

    Beijo grande!

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  8. Oi, Gilmar
    Depois de muito tempo sem comentar meus amigos por motivo de viagem, volto e encontro aqui significativo conteúdo.
    Obrigado pelas palavras a mim dirigidas nos comentários.
    Seja feliz e tenha muita serenidade.
    Abraços fraternais

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  9. Que delícia de crônica, Gilmar. Realmente esta interação nos acrescenta algo mais que qdo não temos faz falta. Por isso fico contentíssimo com a tua volta. Abçs.

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  10. Gilmar,que beleza de texto!A história de uma amizade como poucas e um belo comentário seu!Adorei te visitar!Abraços,

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  11. Oi, Gilmar.

    Voltei... rsrs
    Longe ou perto, há amigos que são pra vida toda.
    Obrigada pela visita e o carinho, viu?

    Ótima semana pra vc.

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  12. Gilmar!!! SAUDADE!!! Assim, com letras maiúsculas! Que conto mais pertinente! E, já que o assunto é "pertença", você tem toda razão, como faz falta a "visita" do outro, a "presença" do outro. Ficamos, irrevogavelmente, ligados uns aos outros. Mas é uma ligação boa, que não nos traz dependência. É uma relação de alegria, de divisão - dividimos nossos pensamentos, medos, anseios, e recebemos do outro, no meio da noite, como o conto que você, tão gentilmente nos presenteou, o mesmo carinho, o mesmo afago. Muitas vezes, silencioso. Mas percebemos a visita, a atenção!
    Meu grande amigo, saudade danada de você, e só por isso vim lhe visitar agora, sem demora, não deixei para amanhã! Pois que acabei de chegar de uma longa viagem de carro, escrevi minha participação na blogagem coletiva da Roselia, terminei um dever de casa com uma das filhas, e ainda não comi! rsrs! Um beijo enorme, volto amanhã com calma para ler mais um pouco e caminhar! Já estou ruminando! Sempre sua amiga, Deia.

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  13. Ah Gilmar que bom que voltou!
    Espero que tenha descansado e que tenha recarregado energias para mais um semestre com os alunos e com os laços que fez por aqui...
    Eu como você, sempre me surpreendo como isso aqui faz falta. As pessoas, mesmo que não fisicamente, mas nos traz um acolhimento, um afeto que nos sustenta, principalmente quando como eu, passamos o dia em casa, envolvidas sim em tarefas, responsabilidades e obrigações, mas não mais envolvidas com pessoas...
    As pessoas me fazem falta, ouvir vozes, o contato do olho, das mãos e dos abraços fazem nos sentir menos e diferente...
    Estranho isso não é?
    Quando eu trabalhava, me queixava do excesso dos ruídos, das muitas pessoas que tinham que trocar e trocar e trocar...
    E hoje o que me falta é justamente isso...
    São fases e que devemos passar e aprender com elas!
    Gilmar, vc já chegou nos presenteando com este texto maravilhoso, cheio de ternura e amizade, como sempre!
    Bem vindo ao nosso mundo...Ainda que virtual, mas real e de pessoas que são assim de carne, osso e muitos sentimentos
    Abs e um ótimo retorno ao trabalho!!!

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  14. Oiiiiiii Gilmar!
    Que bom que você voltou! Parece que ficou fora um século! É bem como eu já havia falado num post, a amizade é virtual sim, mas ocupa um lugar real no coração da gente. Por isso a saudades que eu estava de você. Sejas bem vindo! E com esse post, sobre os amigos, melhor ainda. Bjssssss

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  15. Essa interação produtiva, essa presença mesmo na ausência física, esse compartilhar sem julgamentos, esse companheirismo na caminhada, fazem valer a pena o "mundo bloguístico". rs

    Beijos e feliz retorno!

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  16. Olá, amigo...

    Quanta delicadeza. Obrigada. Mee too...rs

    Não ver a atualização do seu blogue na minha lista de leituras foi um golpe duro. "E agora?", pensei. Durou pouco e, como você disse, "cá estamos".

    A ideia do texto é linda, eu realmente levaria minha safra para deixar na porta da sua casa. Só não sei se encontraria os motivos certos para justificar isso (e tem explicação?).

    Minha "família" está aqui aumentando. Nessa fase, a sensiblidade é em dose extra e quando me propuseram a blogagem coletiva tendo como tema "sentimentos" fiquei tentada à participar.

    Obrigada por suas colocações. Não sei de onde é que você tira a certeza desses elogios, prefiro não dar ouvidos a eles. E discordo algumas vezes.

    Um grande abraço,
    Michelle

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  17. Rapaz, mas eu vou ter que colocar a família toda no carro daqui a pouco e ir visitar você! Que carinhoso, tão tarde ir ler os textos que postei enquanto você estava de férias! Nem sei o que dizer, mas, obrigada, muito obrigada!!
    Muito bom fazermos amigos, não é? É a chave da juventude (mas não conte a ninguém, senão vão querer colocar em vidrinhos e ver nas farmácias!!). Beijos, Deia.

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  18. Este comentário foi removido pelo autor.

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Fique à vontade!
Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

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