sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um Sonho de Rosa


Outros Autores
Luz Violeta

 Khalil Gibran
 
Havia num bosque isolado uma bonita violeta que vivia satisfeita entre suas  companheiras. Certa manhã, levantou a cabeça e viu uma rosa que se balançava acima dela,   radiante e orgulhosa. Gemeu a violeta, dizendo:
—Pouca sorte tenho eu entre as flores! Humilde o  meu destino! Vivo pegada à terra, e não posso só levantar a face ao sol como fazem as  rosas.
A natureza ouviu, e disse à violeta:
— Que te aconteceu, filhinha?  As vãs  ambições apoderaram-se de ti?
— Suplico-te, ó Mãe poderosa. Transforma-me numa rosa, por um dia só que seja.
—Tu não sabes o que estás pedindo (retrucou a natureza). Ignoras o que se  esconde de  infortúnios atrás das aparentes grandezas.
—Transforma-me numa rosa esbelta e alta.
 Insistiu a violeta.
—E tudo o  que me acontecer será a consequência dos meus próprios desejos e aspirações.
A natureza estendeu a mão mágica, e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa. Na tarde daquele dia, o céu escureceu-se, e os ventos e a chuva devastaram o  bosque. As árvores e as rosas foram abatidas. Somente as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas, olhando em volta de si, gritou às companheiras:
 
— Hei, vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se levantavam com orgulho e impertinência.
Disse outra:
—Nós nos apegamos à terra; mas escapamos à fúria dos furacões.
Disse uma terceira:
— Somos pequenas e humildes; mas as tempestades nada  podem contra nós.
Então a rainha das violetas viu a rosa que tinha sido violeta, estendida no  chão como morta e disse:
 — Vejam e meditem, minhas filhas, sobre a sorte da violeta que as ambições  iludiram. Que seu infortúnio lhes sirva de exemplo!
Ouvindo estas palavras, a rosa agonizante estremeceu e, apelando para todas  as suas forças, disse com voz entrecortada:
— Ouvi, vós, ignorantes, satisfeitas, covardes. Ontem, eu era como vós,   humilde e segura. Mas a satisfação que me protegia também me limitava. Podia continuar a viver  como vós, pegada à terra, até que o inverno me devolvesse em sua neve e me levasse  para o silêncio eterno sem que soubesse dos segredos e glórias da vida mais do que as inúmeras  gerações de violetas, desde que houve violetas. Mas escutai no silêncio da noite e ouvi o mundo  superior dizer a este mundo: O alvo da vida é atingir o que há além da vida. Pedi então à natureza - que nada mais é do que a exteriorização de nossos  sonhos invisíveis - 'transforma-me em rosa'. E a natureza atendeu ao meu desejo. Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo pelos olhos  das rosas. Ouvi a melodia do éter com o ouvido das rosas. Acariciei a luz com as  pétalas das rosas. Pode alguma de vós vangloriar-se de tal honra? Morro agora, levando na alma o que nenhuma violeta jamais experimentara. Morro sabendo o que há atrás dos horizontes estreitos onde nascera, por que  é esse o alvo da vida.



 Khalil Gibran

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique à vontade!
Os comentários têm a função precípua de precipitar a maturação da reflexão, do texto “apossado”. É um ponto de partida, sem o ponto de chegada. É o exercício da empatia no rompimento do isolacionismo, posto que, tudo está conectado. É a sua fala complementando a minha. Por isso mesmo fique à vontade para o diálogo: comentar, concordar, discordar, acordar...

Imagens dos Caminhos