quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um Novo Tempo!



O ano que finda foi arduamente desafiador!  E como é bom saber que as próprias limitações conseguiram lograr êxito em boa parte dos embates cotidianos.  Como é gratificante perceber-se, na estrada, cercado de amigos que permutaram passos, sentimentos, idéias, carinhos e pertença. Como é bom saber-se  exuberantemente imperfeito, mas pronto aos refazimentos necessários á historicidade e humanização em ebulição. Como é revigorante o perfume exalado em cada fala, em cada face e presença virtual de cada um de vocês, caminheiros na cumplicidade.

Mais que agradecer-lhes por tudo que serviram a este caminhante, é preciso também manifestar fé na felicidade que se avizinha, embalada pela esperança que anuncia o 2011. Que seja um ano profícuo, de muito sucesso, de muita saúde, paz, harmonia, com largos e desmedidos sorrisos e que os sonhos não se percam, jamais, na escuridão dos desencontros. Que Deus, em sua magnanimidade e generosidade só faça espalhar luz, permitindo assim que os horizontes mais sombrios, uma vez irradiados de brilho divino, convertam-se em manhãs de sol a aquecer a alma, na firme crença do amor fraterno.

E eu não poderia concluir os passos neste blog, findando 2010, sem retomar um fato que não pode ser apagado e que precisa ser referência de atitude crítica e madura consciência de cidadania, na mais completa compreensão que o termo pode permitir. Reporto-me ao corajoso gesto do Bispo de Limoeiro do Norte, Dom Manuel Edmilson Cruz, ao não somente recusar a “Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara”, mas principalmente por indignar-se, publicamente,  face a face, ante os “engomadinhos” sórdidos, velhacos politiqueiros e  salafrários travestidos de defensores do povo. 

Se houvesse “vergonha na cara” esses “mamadores do poder”, que se escondem nos porões de índole escusa, emprestariam ao menos um mínimo de caráter na reconsideração de algumas questões sociais tão massacradas e vilipendiadas nesse circo de políticas de “compadres”.  

 Então, como a mídia ocupou-se apenas de fazer os registros momentâneos, mas não ousou romper o invólucro da insonsa covardia interesseira, resgato aqui algumas falas do Bispo, talvez assim a nossa reflexão possa alcançar outros patamares da cidadania.

Eis alguns trechos da fala que continuo aplaudindo de pé:

  • "A honrosa comenda dos pais da pátria, como diriam os romanos, faz-me refletir. Precatórios que se arrastam por décadas, aposentados, idosos com as suas aposentadorias reduzidas, salários mínimos que crescem em ritmo de lesmas".
  • “Não são raros os casos de pacientes que morreram de tanto esperar o tratamento de doença grave, por exemplo, de câncer, marcado para um e até para dois anos após a consulta”.
  • “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.
  • “A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho. É seu direito exigir justiça e equidade em se tratando de honorários e de salários também".
  • "O povo brasileiro, hoje de concidadãos e concidadãs, ainda os considera parlamentares? Graças ao bom Deus, há exceções decerto em tudo isso. Mas excetuadas estas, a justiça, a verdade, o pundonor, a dignidade e a altivez do povo brasileiro já tem formado o seu conceito. Quem assim procedeu não é parlamentar. É para lamentar."

E é com este apelo à consciência cidadã, na corajosa manifestação do Bispo, que desejo a todos um  2011 onde a verdade sempre dialogue com a coragem, extirpando assim a sonolenta omissão, a passiva concordância e o refugo da cidadania.

Volto, definitivamente, em 2011. Tempo de reformular o “Caminhar & Ruminar”, retomar os comentários e as visitas e retribuir cada abraço ofertado!

Muita paz! Muita Luz!


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Árvore de Amigos




Gosto da tecitura da amizade permitida na blogagem! E penso que, alimentá-la, é fundamental. Por isso valorizo, sobremaneira, as visitas e comentários. Procuro fazer do meu "passeio", por cada blog, um saboroso aprender e apreender o outro! Cultivar o verdadeiro interesse pela fala, pelo pensamento, pelas ideias anunciadas. Buscar identidade, revisar pressupostos, concordar, discordar, apoiar e, claro, aplaudir. Não consigo imaginar um blog com ausência de reciprocidade. Não a mera e vazia reciprocidade. Não o ato corriqueiro da retribuição da visita. Não! Penso reciprocidade enquanto sinonimia de cumplicidade.

Então, meus diletos amigos, já podem imaginar o quanto me dói o meu tempo de ausência. Desde meados de outubro, por dificuldades as mais diversas, não tenho cumprido o meu ritual de visitas e, ainda assim, os amigos permanecem na cumplicidade, sempre generosos, presentes... E essa presença tem um significado de  tamanho indescritível! 

Então hoje quero lhes dizer obrigado, de um jeito simples, mas de intensa verdade! A árvore é composta por todos aqueles que, no período mencionado, largaram no Caminhar & Ruminar as pegadas da pertença e da cumplicidade, da presença desmedida e do carinho generoso.

Alguns apenas passearam, deixaram um rastro de perfume... Depois vou alcançá-los. Outros chegaram, ocuparam lugar e já caminham ao lado. A estes preciso retribuir os passos. A estes quero envolver no abraço! Por isso no topo da árvore (que não seguiu quaisquer regras no arranjo, exceto este), figura o meu amigo oculto, ou melhor, o meu revelado amigo Santa Cruz, um grande presente de caminhada, propiciado pela Ester.

Outros já caminhavam ao lado há algum tempo,  permaneceram cúmplices e nada exigiram de volta. Vieram... Vieram novamente... Outra vez... Outras tantas vezes...  Em cada passo, em cada pegada largada, permanecia indelével o carinho ofertado, servido na verdade, no que chamo de pertença. A estes quero embalar no coração! Cada uma das pegadas ficará guardada na pulsação que me faz persistir nos passos... Cada face já é parte da minha essência humana ruminante. Cada um já faz morada em minha alma. Cada um  já é pedaço vivo deste homem!

 Obrigado, de coração, pela presença emprestada. Obrigado, de coração, pela cumplicidade e pertença! Obrigado mesmo!

Que o Menino-Deus cubra de bençãos suas famílias, e conceda-lhes paz, harmonia e plena saúde! Que sua luz irradie largos sorrisos e constante sucesso. Felicidades, hoje e sempre!

Fraterno abraço e um grande beijo no coração!


Um feliz e abençoado Natal!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bicho de Pé


Quintas de Humor
 
"Cigarro de Palha", de Luiz Rodrigo Cerqueira de Sousa

Um renomado  pesquisador da UFMG, professor titular da Sociologia, fez um levantamento, em toda  Minas Gerais, para saber  qual seria o objeto de desejo do homem mineiro...

Em todos os rincões das Gerais, os homens respondiam de bate pronto:
- Dinheiro e mulher.

Não dava outra, a resposta era sempre a mesma.

Quase ao final da pesquisa, ele encontrou em Guaxupé, um mineirinho de uns setenta anos, franzino, sentado de cócoras no pondions(*), na beira da estrada, pitando um cigarrim de palha.

- Bom dia!
O mineirinho deu uma tragada, cuspiu de lado e, sem olhar,  respondeu:
- Diiia, sô!

- Estou fazendo uma pesquisa para saber quais as coisas que o homem mineiro mais gosta... O senhor pode me responder quais são as coisas do seu agrado?

O mineirim deu mais uma pitada, mais uma cuspida de banda e disse:
- Uai, sô! As coiss qui eu  mais apreceio é 'o dinheiru, as muié e... o bicho di pé!'.

O pesquisador, estranhando a inclusão do item "bicho de pé" na resposta, perguntou:
- Olha, todos respondem "dinheiro e mulher"... Mas, e o bicho de pé?

Mais uma pitada e mais uma cuspida, o mineirinho retruca:
- Uai, sô! Pra que qui serve nóis tê dinheiru e muié, se o
"bicho" num fica di pé?

Uma boa quinta a todos!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

J'Acuse!

Eu acuso !
"Sentimento de revolta", de Marcelo

 Outros Autores

Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes

Igor Pantuzza Wildmann

Amigos, embora há muito tempo desligado daquela instituição, como ex-professor do Instituto Metodista Izabela Hendrix, fiquei profundamente consternado com o caso do universitário que, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca no coração de seu professor, na cantina, em pleno horário escolar, à frente de todos.

Escrevi um desagravo e, em minha opinião, a pérfida ilusão vendida a muitos alunos despreparados, sobre a escola (e a vida) como lugares supostamente cheios de direitos e pobres em deveres, acaba por contribuir para ambientes propensos à violência moral e física.

Espero que, se concordarem com os termos, repassem adiante, sem moderação. A divulgação é livre.


« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Émile Zola)
Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...)
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal a o autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.
Texto atribuido a Igor Pantuzza Wildmann, 
Advogado,  Doutor em Direito e Professor universitário

sábado, 18 de dezembro de 2010

Cozinhar Azedumes

"A árvore sobrevivente", de Valdemar Rocha




Vez por outra nossos caminhos são interceptados por pessoas que já se esqueceram de sorrir... a face tornou-se carrancuda e os olhos, fulminantemente sombrios, revelam na voz áspera, um azedume encruado no ser.

E, uma vez interceptados, invariavelmente a contaminação se alastra, nos alcança de pronto e a paz já é imolada. A irritabilidade, ante azedumes servidos, já nos invade na sofreguidão dos nossos apressados passos.

A música, cantarolada no sossego, já sofre com os engasgos. O tom melodioso já destempera a nota, desafina no grave e desconcerta de vez no agudo. Descompassa-se por completo... É como se na tentativa de continuar cantarolando, uma outra música, irritantemente alta e com um “batidão” totalmente divergente, invadisse o palco apaziguado. Tente cantarolar uma música ouvindo outra assim, num ritmo freneticamente divergente! É o som do azedume!

O sol de brilho intenso, aquecendo a manhã fria, num abraço deliciosamente revigorador, de repente é atropelado por nuvens negras, vestidas de pavor, “trombando” umas nas outras e fazendo ecoar monstruosos relâmpagos e ensurdecedores trovões! É o barulho do cenário de azedumes!

Não adianta tentar contrapor argumentos. A acidez contrária faz calar a voz, intimidada pelo exasperado volume. A dialogicidade é violentamente golpeada, num desespero estressante que a insanidade alimenta. Não há bom humor que resista.

Nada é bom! Nada vale a pena! Nada ajuda! É um rosário de lamúrias e choros! A intolerância se casa com a amargura e se torna angústia. O ranço pobre da imaturidade persiste. A vitimização é o discurso eloquentemente ofertado. O egoísmo e egocentrismo se vestem de mundo cruel a impor sacrifícios, a oferecer apenas azedumes a serem cozinhados.

Quem já não se deparou com gente assim? Em casa, na rua, no trabalho, enfim, nos trajetos cotidianos com seus “senões”. Humor árido, tolerância curta, paciência exígua, sorriso escasso... O centro de todas as dificuldades, âncora de toda falta de sorte, suporte de toda espécie de carga, feito Atlas carregando um mundo, só que cheio de problemas irremediáveis.

E o que fazer mediante tamanho assombro?

Nada de mirabolantes e egocêntricas magias!  Primeiro é acalmar o coração! Aquietar o ânimo! Respirar a tolerância e paciência! A prontidão emocional e espiritual é que permitirá rechaçar as tentativas de invasão.

Depois, é oferecer serenidade na voz e no olhar. O semblante, quase “contemplativo”, é convite que resvala na inquietude do outro, cutucando a reflexão exigida. A voz, numa mansidão divina, significando amorosidade abundante, encontrará repouso no olhar  supostamente incólume do outro e tende alcançar equilíbrio.

Se ainda assim o "contato" não se reestabelecer, então melhor esperar a tempestade diminuir. Tente depois, num outro tempo! O exercício da reflexão, mediado pelo diálogo e inclusividade, pode reconstruir algumas das pontes quebradas, demolidas na impetuosidade dos azedumes alardeados.

Importa não saborear os azedumes servidos. Importa não sujeitar-se à “culinária” extravagante de azedumes e temperos ardidos.

A generosidade é um bom remédio a outrem! Pode servir!  Não há contraindicação!



Uma ótima semana a todos!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Abacateiro do Apocalipse

Quintas de Humor!
"Cemitério dos Prazeres XLVII", de José Monge

Em  uma cidadezinha do interior, dessas bem tranquilas,  dentro do cemitério havia um abacateiro carregadinho e já no ponto da colheita.

Dois amigos decidiram entrar lá, à noite, quando não havia vigilância, e pegar  todos os abacates. 

Eles pularam o muro, subiram a árvore  com as sacolas penduradas  no ombro  e, no silêncio da noite, começaram dividir a colheita:

- Um pra mim, um pra você...

- Um pra mim, um pra você...

- Você deixou dois caírem do lado de fora do muro!

- Não faz mal, depois que a gente terminar aqui pegamos os outros  dois.
 
- Então tá bom, mais um pra mim, um pra você.

Um  bêbado, passando do lado de fora do cemitério, escutou esse  negócio de "um pra mim e um  pra você" e saiu correndo para a delegacia. Chegando  lá, virou-se para o policial e disse:

 - Seu guarda, vem comigo! Deus e o diabo estão lá no cemitério dividindo  as almas de lá! Estão separando, uma por uma, as almas do cemitério!
 
- Ah, cala a boca  bêbado.

- Juro que é verdade! Vem comigo!

De tanto insistir, o guarda se convenceu. Os dois foram até o cemitério, chegaram perto do muro, agacharam-se para não serem vistos e começaram a  escutar...

- Um para mim, um para você...

O guarda assustado:
 
- É verdade! É o dia do apocalipse! Eles estão dividindo as almas dos mortos! O que será que vem  depois?
 
Curiosos,  ouviram mais:
 
- Um para mim, um para você. Pronto, acabamos aqui. E agora?

 - Agora a gente vai lá fora e pega os dois que estão do outro lado do muro...

- Cooooooooooooooorrre!!!!

Uma ótima quinta a todos!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Antes que seja tarde

                  Manuel da Fonseca

"Fim de tarde", de Gustavo Bueno



Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!

Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.

Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!

Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.