sábado, 23 de janeiro de 2016

Ousadia



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A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, a contrariedade se anunciou:
— A sua passagem está paga — disse o motorista.
— Paga por quem? 
— Esse cavalheiro aí.
E apontou um mulato bem vestido que acabara de deixar o ônibus, e aguardava com um sorriso junto à calçada.
— É algum engano, não conheço esse homem. Faça o favor de receber.
— Mas já está paga.
— Faça o favor de receber! — insistiu ela, estendendo o dinheiro e falando bem alto para que o homem ouvisse: — Já disse que  não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Vamos, faço questão que o senhor receba minha passagem.
O motorista ergueu os ombros e acabou recebendo: melhor para ele, ganhava duas vezes.
A moça saltou do ônibus e passou fuzilando de indignação pelo homem.
Foi seguindo pela rua, sem olhar para ele.
Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos.
Somente quando dobrou à direita para entrar no edifício onde morava, arriscou uma espiada: lá vinha ele! Correu para o apartamento, que era no térreo, pôs-se a bater, aflita:
— Abre! Abre aí!
 A empregada veio abrir e ela irrompeu pela sala, contando aos pais atônitos, em termos confusos, a sua aventura.
   Descarado, como é que tem coragem? Me seguiu até aqui!
De súbito, ao voltar-se, viu pela porta aberta que o homem ainda estava lá fora, no saguão. Protegida pela presença dos pais, ousou enfrentá-lo:
 — Olha ele ali! É ele, venham ver! Ainda está ali, o sem-vergonha. Mas que ousadia!
Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça:
— Mas a senhora, como é que pode! É o Marcelo!
— Marcelo? Que Marcelo? — a moça se voltou, surpreendida.
— Marcelo, o meu noivo. A senhora conhece ele, foi quem pintou o apartamento.
A moça só faltou morrer de vergonha:
— É mesmo, é o Marcelo! Como é que eu não reconheci! Você me desculpe, Marcelo, por favor.
No saguão, Marcelo torcia as mãos, encabulado:
— A senhora é que me desculpe, foi muita ousadia...

Fernando Sabino. Ousadia, in "A Mulher do Vizinho". Editora Sabiá. Rio de Janeiro, 6ª ed., pp.160-161.

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