sexta-feira, 1 de maio de 2015

O Nome do Filho

Meus Rabiscos
 
Foto: "Ups... desculpa!", de Isidro

O nome fora ouvido em algum lugar, do qual não se lembrava mais. E era mesmo mágico pronunciá-lo! Quanto esplendor! Quanta pompa ensejava! E ela, no seu nono mês de gestação, não parava de perambular pela vizinhança, soprando, nos ouvidos disponíveis, aquele nome fabuloso! Era assim que queria batizar o filho que chegaria em breve! E era também assim que colhia as opiniões, aproveitando-se, com esperteza, para ajudar que gravassem a pronúncia correta. A rua inteira já participava daquela "enquete"!

Tudo havia sido cuidadosamente verificado: a pronúncia e a escrita! Nada lhe escapara. Karl-Heinz Rummenigge! Esse era o sonhado e adorado nome! Karl-Heinz Rummenigge de Souza! Coincidentemente ela e o marido assinavam Souza, embora fossem de famílias distintamente de origens diferentes.

E a vizinhança até que se acostumara às investidas daquela mulher. Não era o primeiro filho! O casal já tivera outros dois, uma menina e um menino. E, claro, os nomes eram comuns, nada sofisticados. A menina chamava-se Ângela, em homenagem à avó materna e o menino chamava-se Paulo, em homenagem a São Paulo, de quem a  avó paterna era devota!

Se nas outras vezes não pudera fazer valer a sua vontade, desta não escaparia. Na primeira fora sua mãe a exigir que homenageasse a avó e na segunda a sogra não deixou por menos.

Karl-Heinz Rummenigge! Ela adorava esse nome. Já havia bordado babadores, viramantas, toalhas e mantos, aos montes. E o mais incrível é que ela nem dava notícias sobre quem fora aquele alemão que tinha aquele nome. Somente a cinco dias do parto é que um vizinho resolveu intrometer-se na conversa das comadres e informou  que se tratava de um ex-jogador de futebol da Alemanha. Fez grandes elogios, dizendo tratar-se de um verdadeiro craque da bola.

Mais convicta ela ficou. Craque? Então meu filho terá o nome de um grande homem! E ela estava tão decidida e entusiasmada que sequer partilhava com o marido os seus desejos. Na verdade a gravidez, depois do quarto mês, provocou o afastamento do casal. Ela não suportava o cheiro de suor do marido. Dava náuseas intermináveis. Ele, matuto de pouca prosa, também não se incomodou com aquilo, mesmo porque, pensava ele, "mulher prenha num tem jeito de bolinar". E, nós aqui bem sabemos, casal que abdica do diálogo nem sempre encontra harmonia.

O parto foi natural, como os outros dois. "Ela é uma boa parideira", pensava o marido já calmamente fumando seu cigarrinho de palha.

O tempo foi passando e com ele vieram alguns "carinhosos" apelidos. A avó chamava o pequenino de "Kazinho", a outra avó, para ser diferente, chamava de "Ruguinho". Os vizinhos ora optavam por um, ora por outro. Nome difícil aquele.

Ela, no entanto, não arredava mão da pronúncia correta e completa: Karl-Heinz Rummenigge. O "Souza" sempre ficava para segundo plano, esquecido na pronúncia. Ainda assim, havia um brilho nos olhos, de orgulho extremo, e a cada visita, "estufava" o peito para dizer em alto e bom som: Karl-Heinz Rummenigge!

Chegou o dia de registrar a criança. Ela foi logo despachando o marido:
- Vá logo homem! Não quero que passe muito tempo sem o registro.

Ele, com toda a calma do mundo, típica de um matuto tranquilo, respondeu  entremeando o cigarrinho de palha nos lábios, molhando e enrolando o "pito":
- Tá bom! Eu vou. Mas eu num sei dizer o nome não! Você vai ter que escrever no papel aí, senão vou fazer confusão. O nome é danado de difícil.

Assim feito, lá foi ele cumprir sua obrigação! E os dias foram passando. Visitas chegando. Família se reunindo. E os apelidos, para contrariedade dela, já formavam uma grande lista. Havia o Kazinho, o Kaka, O Ru, o Ruguinho e tantos outros. Até piadinhas já faziam:
- Heins?
- Quehins?

Num domingo, com família reunida, aí é que os apelidos soavam alto! A própria mãe já aceitava o simples Rummenigge. Aí ele, o marido, já não aguentando a situação, resolveu que devia acabar com aquela confusão toda. No meio da varanda da casa, na cabeceira daquela enorme mesa, ele se levantou, pigarreou e soltou a bomba:

- Olha pessoal, eu até acho bonitinho os apelido que ocêis colocaram no moleque. Cada um falando de um jeito, cada um inventando uma forma, mas eu acho melhor ocêis acostumarem a chamar ele pelo nome, senão depois não vai ter mais jeito.

Ao tempo em que falava, a mulher sorria, orgulhosa. Finalmente alguém iria dizer o que precisava, sair em sua defesa. Nem chegou a avançar em pensamentos, enquanto ele continuava:

-  Olha gente, é sério mesmo! Acho melhor a gente mudar isso logo. Todo mundo deve se acostumar a chamar o molequinho pelo nome dele e não esses apelidos aí, que ocêis arranjaram. Melhor acostumar. O nome dele não é esse tal de "Cal" ou "Rumenigue". O nome dele de registro é Izaac! Izaac de Souza Filho!
Publicado originalmente em 25 de setembro de 2010

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