quinta-feira, 21 de maio de 2015

Desabafo de Um Repetente

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Não, eu não vou bem na escola. Esse é o meu segundo ano na 7ª série e sou muito maior que os outros alunos. Entretanto, eles gostam de mim. Não falo muito em aula, mas, fora de sala, sei ensinar um mundo de coisas. Eles estão sempre me rodeando e isto compensa tudo que acontece na sala. 

Eu não  sei  porque os  professores não gostam de mim. Na verdade, eles nunca acreditam que a gente sabe alguma coisa, a não ser  que possam dizer  o nome do livro onde a gente aprendeu. Tenho vários livros lá em casa. Mas não costumo sentar e lê-los todos, como mandam a gente fazer na escola. Uso meus livros quando quero descobrir alguma coisa. Por exemplo, quando a mãe compra algo de segunda mão e eu procuro no “SEARS” ou  “WORDS” para dizer se ela foi  tapeada ou não. Sei usar o índice rapidamente e encontrar tudo que quero.
 
Mas  na escola a gente tem de aprender tudo que está no livro e eu não consigo guardar. Ano passado, fiquei na escola depois da aula, todo o dia, durante duas semanas, tentando aprender os nomes dos presidentes dos Estados Unidos da América. Claro que conhecia alguns como  WASHINGTON, JEFFERSON e LINCOLN . Mas  é preciso saber os trinta, todos juntos e em ordem e isso eu nunca sei. Também não ligo muito, pois os meninos que aprendem os presidentes têm que aprender os vice depois. Estou na 7ª série pela segunda vez, mas a professora agora não está muito interessada nos presidentes. Ela quer é que a gente aprenda os nomes de todos os grandes inventores americanos.


Acho que nunca conseguirei decorar nomes em história. Esse ano, comecei a aprender um pouco sobre caminhões porque meu tio tem três e disse que eu posso dirigir um quando eu fizer 16 anos. Já sei bastante sobre cavalo a vapor, marchas de vinte, e, seis marcas diferentes de caminhão, alguns  Diesel. É gozado como os motores Diesel funcionam. Comecei a falar sobre eles com a professora de Ciências na quarta-feira passada, quando a bomba que a gente estava usando para obter o vácuo esquentou. Mas a professora disse que não via relação entre motor diesel e a nossa experiência sobre a pressão do ar. Fiquei inquieto. Mas  os colegas pareceram gostar. Levei quatro deles à garagem do meu tio e vimos o mecânico  desmontar um caminhão Diesel  —rapaz , e como ele entende disso!


Eu também não sou forte em Geografia. Nesse ano, eles falam geografia econômica. Durante toda a semana estudamos o que o Chile importa e exporta, mas não sei bulhufas. Talvez porque falhei de aula, pois meu tio me levou em uma viagem mais ou menos duzentas milhas de distância. Trouxemos duas toneladas de mercadoria de Chicago. Meu tio tinha me dito, quando ainda estávamos indo ,  para eu indicar as estradas e as distâncias em milhas. Ele só dirigia o caminhão e virava à direita , à  esquerda,  quando  eu  mandava.  Como  foi  bom...


Paramos sete vezes e dirigimos mais de quinhentas milhas, ida e volta. Estou tentando calcular o óleo e o desgaste do caminhão para ver quanto ganhamos.


Eu costumo fazer contas e escrever as cartas para todos os fazendeiros sobre os porcos e os bois trazidos. Houve apenas três erros em dezessete cartas e , diz minha tia:


—Só problemas de vírgulas. Se eu pudesse escrever composições bem assim...       
                                                     

Outro dia, o assunto era: “O que uma rosa leva da primavera...” e não deu.


Também não deu para Matemática. Parece que não consigo me concentrar nos problemas. Um deles era assim: Se um poste telefônico , com 57 pés de comprimento, cai atravessado em uma estrada de modo que 17 pés sobre de um lado e 14 de outro, qual a largura da estrada?


Acho uma bobagem calcular largura de estrada. Nem tentei responder, pois o problema também não dizia se o poste tinha caído reto ou torto.


Não sou  bom em Artes Plásticas, digo, Práticas. Todos nós fizemos um prendedor de vassouras, um segurador de livros. Os meus foram péssimos. Também não me interessei. A mãe nem usa vassoura desde que ganhou o aspirador de pó e todos os livros estão dentro de uma estante com porta de vidro. Quis fazer uma fechadura para o “trailler” do meu tio. Mas a professora não deixou, pois teria de trabalhar com madeira e metal ao mesmo tempo e, precisava antes trabalhar só com madeira. Assim fiz esta parte de madeira na escola e o resto na garagem do meu tio. Ele disse que economizou mais ou menos 10 dólares com o presente.


Moral e Cívica também é fogo. Andei ficando depois da aula tentando aprender os artigos da Constituição. A professora disse que só poderíamos  ser bons cidadãos sabendo disso. E eu quero ser bom cidadão. Mas detestava ficar depois da aula porque um bando de meninos estava limpando um lote da esquina para fazer um “playgraund” para as crianças do “Lar Metodista”. Eu até fiz um conjunto de barra, usando velhos canos. Conseguimos dinheiro vendendo jornais e revistas velhas, para fazer uma cerca de arame em volta do lote.


O pai disse que eu posso sair da escola quando fizer 15 anos. Estou decidido para isso, porque há um mundo de coisas que eu quero aprender a fazer e já estou ficando velho.

FONTE: Corey, Stephan M. “The Peor Scholar’s Soliloquy,  Childhocd Education”— Traduzido e adaptado por Maria Lúcia Senra de Vilhena.

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