sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Escolher a Vida!

Meus Rabiscos
Vida Entrelaçada

"Junto ao cadáver de um suicida encontrou-se uma carta dirigida ao Juiz, nos seguintes termos:

Sr. Juiz:
Não culpe a ninguém da minha morte. Acabo com a vida porque em dois dias mais que não viva não saberei quem sou neste mar de lágrimas.
Verá, Sr. Juiz: Tive a desgraça de casar com uma viúva. Tinha ela uma filha. Se o soubesse, nunca o teria feito. Meu pai, para maior desgraça, que era viúvo, se enamorou e se casou com a filha de minha mulher; de maneira que minha esposa era sogra do seu sogro, minha enteada se converteu em minha mãe, e meu pai ao mesmo tempo era meu filho.
Em pouco tempo minha madrasta trouxe ao mundo um varão, que era meu irmão, porém era neto de minha mulher, de modo que eu era também avô de meu irmão.
Com o correr do tempo, minha mulher trouxe ao mundo um varão que, como irmão de minha mãe, era cunhado de meu pai e tio do meu filho.
Minha mulher era sogra de sua própria filha; eu sou, por outro lado, pai de minha mãe, e meu pai e sua mulher são meus filhos; meu pai e meus filhos são irmãos, minha mulher é minha avó, já que é mãe de meu pai, e, ainda, sou meu próprio avô.
Já vê, Sr. Juiz: despeço-me do mundo, porque não sei quem sou".

Mark Twain– Carta de um cadáver


A quase tragicomédia, com desfecho trágico, proposta por Samuel Langhorne Clemens, ou como se tornou conhecido, simplesmente Mark Twain, nada traz de novo ou especial, exceto o fato de que, transitando pela ironia, faz rir da temível morte.

Eu tenho medo da morte. Estarreço-me ante a única verdade da qual jamais conseguirei fugir. Dá-me calafrios tais pensamentos mórbidos. Fujo. É por isso que não dou conta de compreender quando ouço notícias de que alguma vida foi apagada. Mais ainda que  as assassinadas por motivos torpes, inquieta-me quando alguém decide tirar a própria vida. Não compreendo. Juro que não!

É como se bêbado de vida estivesse, todos os exageros e extrapolações houvessem sido cometidos e, juiz de si mesmo, decide pela catapulta. Decide vomitar a vida. Apagar-se.
Que dor é essa que faz abandonar a caminhada? Que perdas são essas que roubam a sanidade? Que frustrações são essas que incendeiam o fascínora dentro de si, a ponto de decapitar o próprio sopro de vida? Tentativas vãs de interpretar a dor que somente o seu sentidor conhece. Não pertence a ninguém, senão a ele mesmo, saber o tamanho, a profundidade.

Ainda assim, minha incompreensão persiste. Cada vez mais ecoa a máxima socrática de “só sei que nada sei”.

Qual ser humano ainda não experimentou sofrimentos, perdas ou aflições? Quantos se aprisionam em lágrimas que fustigam os olhos? Quantos silenciam a própria voz quando amordaçados por opressões maquiavélicas? Quanta vida escrava da ausência de oportunidades! Escrava da segregação. Escrava de exclusões sociais provocadas por larápios que se enriquecem usurpando lugares de poder e decretando a miserabilidade.

Contudo, mesmo assim, quando tudo parece conspirar a favor da escuridão, basta prestar um pouco mais de atenção para ver a vida à espreita, sempre convidativa. Ainda que a miséria esteja instalada, faltando migalhas de alimento, há vida nos olhos dos que são alimentados da esperança. Há amor e pertencimento aos mesmos sonhos.

Então, cá com meus problemas, minhas frustrações, minhas perdas, não dá pra desistir dos passos. Não dá pra fechar os olhos e viver como se morto estivesse. Não dá pra ausentar-me da vida, tirar férias das dificuldades ou esgotar forças ao primeiro enfrentamento. Há escolhas reclamando minha voz.

Dia desses, o blog Devaneios e Metamorfoses, propôs uma encruzilhada que exigia posicionamento. Indagava se ante a díspares situações do cotidiano, em especial o abordo, se a posição era escolher um lado ou ficar em cima do muro. As seguintes questões foram formuladas:
“É preciso escolher um "lado"?
- Há assuntos sobre os quais você evita pensar?
- Você faz uma regra valer para si mesmo, mas para o resto das pessoas a regra é outra?
- Você costuma expor os seus pontos de vista quando o assunto é polêmico?”

Não há resposta que seja fácil, se sincera e leal aos pressupostos que orientam o caráter. Minha resposta:
"A reflexão, de tão profunda e complexa, exige cuidado redobrado nas ponderações. Qualquer escorregão já vira conceito, preconceito ou 'lado'.
A questão é que a ansiedade, o medo de cometer equívocos e outras formas reativas são componentes expressivos das dificuldades e fragilidades humanas. Por conta disso há uma tendência indissociável de permanecer distante, quando os assuntos se apresentam polêmicos ou que despertam julgamentos de toda sorte.
Daí surgem os adesistas por insegurança, também aparecem os profetas do apocalipse e o que mais se vê, os egoístas de plantão. Cada qual fazendo a escolha que lhe convém.
Alumiar a reflexão, sob o holofote da verdade, nem sempre faz desnudar a vaidade humana, em verdade a grande vilã, responsável por toda forma de imobilismo.
Eu continuo insistindo na tese de que (repetindo), somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.
Talvez, em razão disso, minha tendência é sempre escolher o lado de dentro. O que foi forjado em valores humanos arrojados, em utopias aprendidas, vivências dolorosas, ranhuras na alma e uma caminhada de chinelos humildes. Não há como deixar de devotar tanta lealdade à história construída.
Então, nada de fuga! Vale a congruente hombridade em 'dar a cara a tapa', se preciso for".

Penso então que o sentido de vida passa por tais compreensões. Cada circunstância exige respirar respostas distintas. Generalizar pode ser um risco à imbecilidade egocêntrica. Escolher a própria morte, mesmo no percalço mais inconveniente ou dolorido, não pode ser opção. É melhor perecer, deixar a dor latejar, não subjugá-la, mas jamais fechar os olhos com a concordância da entrega fácil. A estrada é outra. Insisto na vida, simplesmente!
Publicado originalmente em 14 de junho de 2010

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