terça-feira, 10 de março de 2015

Amor a Deus

Metáfora
Discípulo



Certo discípulo, ao caminhar com seu mestre pela areia da praia, ficou encantado ao perceber o quanto este era querido. Todos os transeuntes manifestavam a mais explícita alegria pela passagem do mestre.



Curioso, perguntou ao mestre:



— Pôr que você é assim tão querido mestre?



O mestre respondeu:



 — É porque amo a Deus.



Não satisfeito, o discípulo insistiu:



—  Mas mestre, é só isso?        



O mestre, mais uma vez, com paciência lhe diz a mesma resposta.



Os dias se passaram e o discípulo continuava a insistir na mesma pergunta e sempre obtendo a mesma resposta:



Certo dia, após fazer a mesma pergunta, o mestre o convida para tomar banho no rio. O discípulo, meio ressabiado, hesita e pensa:  "Tomar banho no rio? Que estranho". Contudo, ante o chamado do mestre, por fim aceita e lá foram eles rumo ao límpido rio do lugarejo



Chegando ao rio, puseram-se a mergulhar. De repente, o mestre agarra o discípulo pelo pescoço e afunda-o na água, segurando-o firmemente. O discípulo, assustado, tentava se desvencilhar do mestre e não conseguia. O mestre o segurou lá por um bom tempo.



Quando finalmente foi solto, o mestre lhe disse:



—  Você sempre me pergunta porque todos me amam e me querem bem e você nunca aceitou a minha resposta. Pois bem, esta é a resposta.



O discípulo sem nada entender, retruca:



—  Mas mestre, eu quase me afoguei. O que tem isso a ver?



O mestre, paciente, lhe  responde:



—  Quando você estava embaixo da água, no que pensava? O mais você  queria?



O discípulo diz:



—  Queria respirar. Queria viver.



—  Pois bem, o dia em que você for capaz de amar a Deus tanto quanto desejava respirar, tanto quanto a vida que tem, então será este o amor de que tanto falo.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A "primeira vez" do Joãozinho



 
Humor
Joãozinho, mineiro, da quinta série D, agora vai recitar a poesia: 

"A primeira vez" 

Minha primeira vez foi assim...
O céu estava claro,
A lua quase dourada,
Ali no campo eu e ela,
E não se via mais nada.

A pele suave,
Ela de quatro,
As ancas expostas,
Os quadris largos,
E eu tocando de leve,
O macio de suas costas.

Não sabendo começar,
Olhei o corpo esguio.
E decidi pôr as mãos,
Sobre seus peitos macios.

Eu sentia medo.
Meu coração forte batia,
Enquanto ela bem lentamente,
As firmes pernas abria.
 
Vitória! Eu consegui!
Tudo então melhorou.
Pelo menos desta vez,
O líquido branco jorrou.

Finalmente tudo acabou,
E quase saio de maca.
Foi assim a primeira vez
Que eu tirei leite da vaca.


Tenha um bom dia e pare de pensar besteira...

segunda-feira, 2 de março de 2015

Receita de Alfabetização e Alfabetização sem Receita



RECEITA DE ALFABETIZAÇÃO


Pegue uma criança de seis anos. Enxugue-a com cuidado, enrole-a num uniforme e coloque-a sentadinha na sala de aula. Nas oito primeiras semanas, alimente-a com exercícios de prontidão. Na nona semana, ponha uma cartilha nas mãos da criança.Tome cuidado para que a criança não se contamine no contato com livros, jornais, revistas e outros perigosos materiais impressos. Abra a boca da criança e faça com que ela engula as vogais. Quando tiver digerido as vogais, mande-a mastigar, uma a uma, as palavras da cartilha. Cada palavra deve ser mastigada no mínimo 60 vezes, como na alimentação macrobiótica. Se houver dificuldade para engolir, separe as palavras em pedacinhos. Mantenha a criança em banho-maria durante quatro meses, fazendo exercícios de cópia. Em seguida, faça com que a criança engula algumas frases inteiras. Mexa com cuidado para não embolar.


Ao fim do 8o mês, espete a criança em um palito, ou melhor, aplique uma prova de leitura e verifique se ela devolve pelo menos 70% das palavras e frases engolidas. Se isto acontecer, considere a criança alfabetizada. Enrole-a num bonito papel de presente e despache-a para a série seguinte.


Se a criança não devolver o que foi dado para engolir, recomece a receita desde o início, isto é, volte aos exercícios de prontidão. Repita a receita quantas vezes for necessário. Ao fim de três anos, embrulhe a criança em papel pardo e coloque um rótulo: “aluno renitente”.


  OBS: Se não gostar desta receita, parabéns. Nesse caso, pratique a Alfabetização sem Receita.



ALFABETIZAÇÃO SEM RECEITA


 Pegue uma criança de seis anos, ou mais, no estado em que estiver, suja ou limpa, e coloque-a numa sala de aula onde existam muitas coisas escritas para olhar e examinar. Servem jornais velhos, revistas, embalagens, propaganda eleitoral, latas de óleo vazias, caixas de sabão, sacolas de supermercado, enfim, tudo que estiver entulhando os armários da escola e da sua casa. Convide a criança para brincar de ler, adivinhando o que está escrito: você vai descobrir que ela já sabe muitas coisas.


Converse com a criança, troque as ideias sobre quem são vocês e as coisas de que gostam e não gostam. Escreva no quadro algumas das frases que foram ditas e leia em voz alta. Peça à criança que olhe as coisas escritas que existem por aí, nas lojas, no ônibus, nas ruas, na televisão. Escreva algumas destas coisas no quadro e leia para a turma. Deixe as crianças cortarem letras, palavras e frases dos jornais velhos e não esqueça de mandá-las limpar o chão depois, pra não criar problema na escola. Todos os dias leia em voz alta para a criança, alguma coisa interessante, historinha, poesia, notícia de jornal, anedota, letra de música, adivinhações. Mostre para a criança alguns tipos de coisas escritas que talvez ela não conheça: um catálogo telefônico, um dicionário, um telegrama, uma carta, um bilhete, um livro de receitas de cozinha.


Desafie a criança a pensar sobre a escrita e pense você também. Quando a criança escrever, deixe-a perguntar ou ajudar ao colega. Não se apavore se a criança estiver comendo letras: até hoje não houve caso de indigestão alfabética. Acalme a Diretora e a Supervisora se elas ficarem alarmadas.


Invente sua própria cartilha. Use sua imaginação sua capacidade de observação para ensinar a ler. Leia e estude você também.

 

P.S: Se não gostar deste processo, aplique a Receita de Alfabetização.

 

Marlene Carvalho

Faculdade de Educação - UFRJ

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Por um mundo melhor

Meus Rabiscos

Foto: Laços, de Raul Santos
O desafio, proposto pela Déia, do Rumo à Escrita, seria o de postar algo dizendo como se deseja que o mundo seja. Como esse mundo pode ser melhor. 
Por onde caminhar? Eis a grande indagação...

Enquanto educador, talvez pudesse proclamar os sonhos, ainda nutridos, cheios de esperanças, do aniquilamento das desigualdades e injustiças sociais. Da oportunização do saber, enquanto premissa inquestionável de toda e qualquer política educacional. E outros tantos sonhos ancorados numa visão abrangente de mundo.

Entretanto, os pés alicerçados num chão de inconformismo, ante horrendas transgressões humanas, não me permite tais voos. As absurdas atrocidades propagadas pelas mídias sensacionalistas encontram sempre, do outro lado, o ser humano, seja como expectador, autor, coadjuvante, "sentidor", "sentente", enfim, como ser que sofre o revés ocasionado por "atitudes" do seu semelhante.

Então eu me lembrei de uma pequena metáfora:

CONTA UMA POPULAR LENDA DO ORIENTE, QUE UM JOVEM CHEGOU À BEIRA DE UM OÁSIS, JUNTO A UM POVOADO E, APROXIMANDO-SE DE UM VELHO, PERGUNTOU-LHE:
– QUE TIPO DE PESSOA VIVE NESTE LUGAR?
O ANCIÃO, OLHANDO-O FIXAMENTE, RESPONDE COM UMA PERGUNTA:
– QUE TIPO DE PESSOA VIVIA NO LUGAR DE ONDE VOCÊ VEM?
– OH, UM GRUPO DE EGOÍSTAS, FALSOS E MALVADOS. – RESPONDEU O RAPAZ.
– ESTOU SATISFEITO EM HAVER  SAÍDO DE LÁ.
A ISSO O VELHO REPLICOU:
– A MESMA COISA VOCÊ HAVERÁ DE ENCONTRAR POR AQUI.
NO MESMO DIA, UM OUTRO JOVEM SE ACERCOU DO OÁSIS PARA BEBER ÁGUA E, VENDO O ANCIÃO, PERGUNTOU-LHE:
– QUE TIPO DE PESSOA VIVE POR AQUI?
O VELHO RESPONDEU COM A MESMA PERGUNTA:
– QUE TIPO DE PESSOA VIVE NO LUGAR DE ONDE VOCÊ VEM?
O RAPAZ RESPONDEU:
– UM MAGNÍFICO GRUPO DE PESSOAS, AMIGAS, HONESTAS, LEAIS, SINCERAS E HOSPITALEIRAS. FIQUEI MUITO TRISTE POR TER DE DEIXÁ-LAS.
– O MESMO ENCONTRARÁ POR AQUI – RESPONDEU O ANCIÃO.
UM HOMEM QUE HAVIA ESCUTADO AS DUAS CONVERSAS INDAGOU ENTÃO AO VELHO:
– COMO É POSSÍVEL? ELES DERAM RESPOSTAS TÃO DIFERENTES A UMA MESMA PERGUNTA?
AO QUE O VELHO RESPONDEU:
– CADA UM CARREGA NO SEU CORAÇÃO A CONCEPÇÃO DO MEIO EM QUE VIVE. AQUELE QUE NADA ENXERGOU E NADA ENCONTROU DE BOM NOS LUGARES POR ONDE PASSOU, NÃO PODERÁ ENCONTRAR OUTRA COISA POR AQUI. AQUELE QUE ENCONTROU AMIGOS ALI, TAMBÉM OS ENCONTRARÁ AQUI, PORQUE, NA VERDADE, A NOSSA ATITUDE É A ÚNICA COISA DA NOSSA VIDA SOBRE A QUAL PODEMOS MANTER CONTROLE ABSOLUTO.


Atitude! Eis a grande questão!

É preciso dizer, e com todas as letras, que as relações humanas se processam em vários e diferentes canais, muitas e muitas vezes em sentido divergente. Contudo, quando nessas relações há solicitude, apreço, lealdade e respeito, então é possível crer na intensificação de ações transformadoras. Quando ainda inclui uma sensível, cuidadosa e empática capacidade de escutar, então aí existe uma verdade, uma condição de liberdade que propicia a genuína fraternidade.

Sim, há consciência de que nenhuma realidade, qualquer que seja ela, por mais perversa ou difícil que possa se apresentar, muda-se da noite para o dia. Tudo é intensamente dinâmico na vida e o repouso, pura ilusão. Todavia, se cada um não impregnar de paixão as próprias utopias, então não se reconhecerá mais a "Face Humana". Estará decretada a insolvência da humanidade.

O "Mestre dos Mestres", onipotente, onisciente e onipresente, não reclama abrigo em palavras pomposas, tampouco em vestes ou lugares luxuosos. Não! É na simplicidade da atitude correta e congruente que o abrigo é reclamado. E nisso reside o convite para ser parte, tomar parte e fazer parte de um mundo melhor! Humanizado!

Que permaneça viva, então, a consciência de que aprender relações humanas significa uma ampla disponibilidade para viver intensamente cada um dos nossos semelhantes, desprovido de vaidades, estrelismos e arrogância, e que, ao contrário, há que se privilegiar a humildade para aprender a ler os gestos, as emoções, os sorrisos e as lágrimas, pois isso é o ser humano, isso é cada um de nós! Vale a pena repetir aqui Fernando pessoa: “Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de minha altura”.

Atitude!



Publicado originalmente em 11 de julho de 2010

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Jogo de Damas

Metáfora
Damas



Num remoto vilarejo da Europa Oriental, num dos dias de Chanuka, um respeitado rabino entrou na casa de estudos, num momento em que não o esperavam e encontrou seus discípulos jogando o jogo de damas, quando deveriam estar estudando as leis sagradas, como era o costume naqueles tempos.

Quando viram o Mestre ficaram confusos e sem saber o que fazer. Pararam o jogo imediatamente.

Um dos discípulos, envergonhado, tentou desculpar-se:

— Nos perdoe, Mestre. Apenas queríamos nos distrair um pouco!

O velho fez um gesto bondoso e perguntou:

— Vocês conhecem as regras do jogo de damas?

Como ninguém respondeu, ele mesmo tratou de responder:

— Vou lhes dizer quais são as regras: a primeira é que não se podem fazer duas jogadas por vez. A segunda, que somente se pode mover para frente e não para trás. A terceira, que quando se chega lá na ultima fila, você esta livre para ir aonde quiser.

E concluiu:

— Vocês estão aprendendo lições muito importantes sobre a nossa existência. Prossigam em seu jogo, por favor, prossigam...