Parafraseando Sabino, da caminhada ficam três coisas:
a certeza de que estamos sempre começando.... a certeza de que precisamos continuar... a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Assim, o exercício da aprendizagem convida a fazer da interrupção um caminho novo... da queda, um passo de dança... do medo, uma escada... do sonho, uma ponte... da procura, um encontro.
Os passos não podem ficar adormecidos na estrada...
O vídeo de Ilana Yahav, uma artista que desenha na areia, sobre uma mesa de vidro, usando apenas os dedos e as mãos, confunde-se às "mãos" do educador... "mãos" que constróem a exuberância humana.
Mãos, que criam movimentos na areia viva, grão a grão, formando cenas e permitindo que a emoção ouse sussurrar o verbo encantar...
Mãos, que desenham o oceano humano e as peripécias das ondas, no constante movimento do aprender a aprender...
Mãos, que num mágico movimento, de areias lançadas, convidam nosso olhar ao redesenho do ser...
Então, imagine os movimentos das asas dos sonhos trazidos aos bancos da escola... dos sonhos que alimentam nossas crenças... nossos propósitos...
Imagine como o sol de cada aula acolhe, no diálogo do aprender, as vidas que se constróem nos gestos, olhares, sorrisos e afagos que o mestre empresta!
O sublime ato de educar "se identifica com o pensar e o refletir. E tanto o prensar como o refletir ocorrem a partir da construção do texto de cada um. Na verdade, ao pensar construímos dentro de nós um texto, um discurso, uma fala para dentro. Quando ensinamos, aprendemos, nós mesmos, a tomar posse de nossa reflexão, em nós ou no outro" (Carlos Abdalla).
Permita-se, antes, durante e depois das aulas mais cinzentas, ser pássaro, de asas brancas cor-de-paz, construindo gente... a cada dia... a cada instante!
Assim é você, educador: um grande artista da alma humana. Capaz de juntar cada grão de areia e dar-lhe vida, forma, cor e sentido! Suas mãos, Mestres, tecem o nascer do sol que faz respirar o amanhã!
"Quando um rio corta, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia; cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água paralítica. Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; e mais: porque assim estancada, muda e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria. O curso de um rio, seu discurso-rio, chega raramente a se reatar de vez; um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. Salvo a grandiloqüência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem, um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate".
Na bela e instigante poesia de João Cabral de Melo Neto quantos universos, traçados na virtualidade de tantos e tantos blogs, encontram ecos em falas sopradas sem medo... Construções e reconstruções do ser. Assim, e por isso mesmo, sobram algumas poucas palavras: que os nossos discursos saibam soprar vida e, que no leito dessa vida, os poços encontrados sejam abraçados e ao rio devolvidos, revitalizando também a vida que ali jazia.Que haja o saber fazer, o saber ser rio. Que o discurso não seja vazio e ao contrário, que ele seja carregado de dialogicidade e utopia.
É muito conhecida a metáfora dos dois lobos, divulgada amplamente na internet. Ela se parece muito com nossas escolhas, com nossas intempéries atitudes e, claro, confunde-se, o tempo todo, com cada um de nós, simples seres mortais. A metáfora é assim:
“Um velho avô disse ao seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo, que lhe havia feito uma injustiça: — Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio daqueles que aprontaram tanto, sem qualquer arrependimento daquilo que fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos... E ele continuou: — É como se existissem dois lobos dentro de mim, numa luta constante. Um deles é bom e não magoa. Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo fazer isto. E da maneira correta. Mas, o outro lobo, ah! Este é cheio de raiva. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira! Ele briga com todos, o tempo todo, sem qualquer motivo. Ele não pode pensar porque sua raiva e seu ódio são muito grandes. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar coisa alguma! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito. O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: — Qual deles vence, Vovô? O Avô sorriu e respondeu baixinho: — Aquele que eu alimento mais freqüentemente".
Eu me deparo brigando com meus limites, com minhas escolhas. Ao longo dos dias cultuei valores, propaguei atitudes e extrapolei constructos. Reconstruí concepções, reformulei compreensões e uma vez mais, debato-me, numa incessante luta, com meus percalços limítrofes.
O aprendizado mais difícil é exatamente esse, o de revirar-se por completo, desnudar-se e, ante o espelho do cotidiano, deparar-se com o seu avesso.
A morada desse avesso apropria-se, de forma intangível, mas ao mesmo tempo de uma maneira eloquente, de suas incongruências inconfessas. São lobos soltos no tempo, com mandíbulas robustas e caninos afiados. Ao menor descuido se prontificam a vesti-lo noutra roupagem e chantageiam suas crenças, num abraço infindável à fragilidade exposta.
As unhas esfomeadas dilaceram o coração, tornando-o pateticamente poético e romantesco. A nova roupagem já começa a ditar as frases desconexas.
A volúpia do abraço mortífero já não reconhece quaisquer resistências. Aos poucos tudo é despedaçado e vorazmente consumido. O avesso vive. Prostitui o meu norte.
Entretanto, nessa incontida briga, a consciência reclama e chora cada pedacinho de utopia assentada na argamassa do abrigo esmorecendo. Afinal, o que mais alimentei na caminhada? O que, de fato, sustenta meus propósitos? E, por que no vacilo do tropeço, remexeram meu avesso?
É porque me descuidei. Permiti a solidão da dor. Ressenti as perdas. Não diligenciei minhas vicissitudes. Não auscultei minhas angústias. Não respeitei meus medos. Não acreditei nas minhas verdades extenuadamente vividas. Assim, frágil de amor próprio, combalido e atordoado, letargicamente perdido e ferido, assisto o meu avesso vestir-se para a festa. Vai comemorar meu vergonhoso fracasso.
Na briga, que persiste, um sopro de luz, um pequenino e tênue sopro de luz ainda faz respirar a alma inerte. Acesos, os olhos já não fogem da horrenda visão que o avesso impõe. A memória reconstrói forças. Na sofreguidão do abismo, as mãos já conseguem agarrar-se às histórias de cada uma das encruzilhadas vencidas, onde cada escolha redesenhou-me, de forma transformadora. Impetuosamente, o que dilacerado estava, se ergue refeito. Na consciente fúria refuto os lobos carniceiros, dispo-me das roupas emprestadas e o instinto de sobrevivência faz recobrar a pulsação. É a minha metamorfose do renascimento.
Uma vez refeito, depois de tantas desacomodações, aquieto-me num novo aprendizado: a compreensão das minhas imperfeições. Desta feita, porém, sei que o outro lobo não morreu, apenas se afastou e escondido permanecerá. Com certeza, na ânsia de se fazer vivo, ele tentará se alimentar das migalhas que eu oferecer em cada ato, em cada gesto, em cada atitude... em cada escolha!
Agora cada passo dado rumo ao infinito já sabe a face do avesso, por isso mesmo é firme e constante. E cada pegada, largada na estrada, me assegura que os desencontros são pontes que constroem grandes encontros.
O educador comprometido com seu sonho, em nome de um projeto existencial coletivo, tem cada vez mais aflorada e sensibilizada sua visão prospectiva de mudanças... Educação! Eis aí o grande desafio! Subjugada que sempre foi e clamando por luzes oniscientes, brotadas das mais sérias e compromissadas estirpes de educadores...
Educação que reclama passos firmes e mãos dadas num caminho aberto ao infinito da esperança. Que reclama a presença da verdade, o predomínio da prática-vida e a abominação do discurso vazio. Ela reclama o sonho que em todos os dias é sonhado num banco de escola: o sonho de se fazer presença-guia num cotidiano de exclusões sociais. A educação reclama ética!
Reclama o libertar das amarras covardes de ideologias escusas e a abolição da subserviência. Reclama do holocausto a que os mais distantes rincões são submetidos: por onipotência, por omissão, por ingenuidade. A educação reclama a mais explícita vontade política!
Reclama ouvidos aguçados, para os gritos sufocados, lânguidos, que se repetem como ecos e se perdem pelos vales sem sol. A educação reclama lucidez!
Reclama a coletividade para o sensibilizar, para o auscultar, para o planejar e para o construir. Reclama a fertilização do chão em que se pisa, onde tantas vezes se erguem estátuas ao tempo, abrigo de iletrados e de onde se levantam monumentos que não se explicam e nem se justificam, mas que reluzem aos olhos dos hipócritas e incoerentes. A educação reclama o desvelar da mentira onipresente!
Reclama um chinelo para os pés descalços, para os dedos já feridos por tantos tropeços, para que as pegadas sejam demarcadas no tempo e não se percam no horizonte que a humanidade faz descortinar. Reclama coragem, a falta de medo, o repúdio à covardia, para que o homem deixe de fingir o que sabe e abra-se ao saber do outro. Reclama o fim da dicotomia ostensiva e incongruente. A educação reclama pesquisa!
Reclama a aula “arco-íris”, que se curva ludicamente na sua volta ao abrigo onde nasceu, mas que encanta, que alegra, que motiva, que se torna um “escorregador” por onde a aprendizagem brinca e se diverte livremente. A educação reclama a criatividade!
Reclama corpo e alma se entregando às descobertas das próprias limitações e capacidades. Reclama a sede ardente do dualismo na educação-miragem hoje vigente. Reclama a sensatez: para a humildade, para o aprender, para o permitir-se, para o aceitar, para o questionar e para o fazer... Sim... Para o fazer!
Reclama o que podemos dar: a disponibilidade de ser. Ser útil, ser disseminador do saber, ser aglutinador de encaminhamentos e profícuo articulador de propostas condizentes. A educação reclama a nossa parceria! E ela só quer o nosso pensar crítico convertido em um fazer responsável!
Está feito o convite!
O cansaço da viagem, dos três últimos dias, por entre acentuadas curvas das montanhas de Minas, não permitiu outras postagens. Então, mais uma vez, recorro às lembranças reviradas... Deparo-me com o último discurso que fiz numa formatura da FACEB, quando convidado por talentosos alunos do Curso de Turismo. O que foi dito guarda relação com um "amontoado" de outras coisas do cotidiano. É só uma questão de permitir-se. Eis o texto:
O que falar a vocês quando a emoção embarga a voz, provoca a lágrima e faz encher a alma de carinho, afeto e pertença?!
Hoje preciso confessar a minha incompetência para encontrar palavras capazes de traduzir o que se passa dentro deste educador! Então, com toda a humildade, recorro a Fernando Sabino e ouso parafraseá-lo, notadamente quando diz:
De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que estamos sempre começando...
a certeza de que é preciso continuar...
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
PORTANTO DEVEMOS
fazer da interrupção um caminho novo...
da queda, um passo de dança...
do medo, uma escada...
do sonho, uma ponte...
da procura, um grande encontro!
A caminhada que fizeram, ou melhor, que juntos fizemos, numa Casa de Educação que não teve medo e nem se acovardou no seu ato sublime de fazer a verdadeira educação; que se escancarou a todos que dela se serviram e que comungou, com fidelidade, dos sonhos que vocês ousaram erguer em suas vidas, essa caminhada, com certeza absoluta, permitiu a formação de seres humanos ricos em valores e princípios, mas também de inquestionável e indiscutível competência, sobretudo porque emprestaram as suas melhores atitudes e propósitos nessa formação profissional.
Eu, enquanto educador, continuo acreditando na utopia de fazer educação conjugando o verbo coletivizar. Coletivizar competências, propósitos, verdades, transparência, sonhos, ideários... Coletivizar princípios e valores reclamados num mundo, ainda hoje, tão conturbado e de tantos desencontros.
Eu aprendi, nessa jornada, a grande lição que agora faço questão de propagar, onde quer que eu esteja: a lição da pertença!
Então, caros alunos, não se distanciem daquilo que me ensinaram. Busquem viver, em profundidade, a lição da pertença!
Pois, que adianta a eloquência, se a arrogância é o que se sabe oferecer?
Que adianta o alto desempenho, se a prepotência é a atitude conservada?
Que adianta a capacidade de organizar e desenvolver propostas e projetos, se a ausência de respeito e humildade fazem imperar o ranço podre do poder e do mandonismo?
Que adianta a capacidade de empreender, se não aprendo a exercitar a lição da coletivização das competências dos que me cercam, pois afinal, o ignóbil status de estrela solitária precisa sobressair?
Que adianta a performance de excelência em resultados, se encimesmado, subjugo a ética e violento a honestidade e a integridade dos seres que perfilam ante a minha avidez por dividendos?
Não é pela licenciosidade que a autonomia do pensar e do ser será construída. Ao contrário, será por meio da aflorada criticidade e capacidade de transitar, respeitosa e sabiamente, nas diferenças. Caso contrário, ainda que eu me considere um esplêndido profissional, a grande verdade é que não passarei de um medíocre, submisso, subserviente e descartável escudeiro de outros interesses.
Então, peço a cada um de vocês, que aguerridamente alcançaram a formação que agora saboreiam:
1- Nunca se esqueçam da grande lição de pertença que ensinaram;
2- Jamais se afastem dos princípios que norteiam suas vidas;
3- Em hipótese alguma ignorem a história de vida que constróem, dia após dia, com verdade, ética e justiça.
Obrigado por me ensinarem tanto! Fica o convite de Sabino: construir escadas e pontes para os grandes encontros que a vida oferecerá!
Eu me orgulho muito, mas muito, de cada um de vocês!
Texto para a Blogagem Coletiva sugerido pelo Espaço Aberto
Do alto, olhares entremeados por grades, vislumbram movimentos frenéticos da vida que corre lá fora. Transeuntes apressados, passos largos, outros tantos desleixados, mornos... Buzinas infernais, ronco de motores, freios... Gente que vai, gente que volta. Vidas que desfilam, anonimamente, ante olhares já estupefatos.
Nesse caos, de intermitentes sons, um silêncio prende a atenção. Lá está ela. A mulher sozinha, em seus diálogos imaginários e gestos intermináveis. Com uma pequena faca na mão,ou algo parecido, aos poucos o mato é desbastado. Célere e incansável, ela faz os galhos e ramos se desprenderem da cerca e ao chão se entregarem. E ali, paralisados, ao calor do sol escaldante, desfacelem.
E a mulher, de roupas imundas, rasgadas no incansável uso, não abre mão da sua touca vermelha. É seu protetor solar que enfeita a face já maltratada pelo tempo...
Dizem que se chama Lúcia. Ali, naquela rua, sua casa imaginária é limpa, às custas de uma velha vassoura carcomida, já quase aposentada. Seu fogão, sem trempes, não sabe o que é uma panela... acostumou-se à velha latinha, dessas de embalagens descartáveis, todavia, o fogo permanece leal. Não faz escolhas. Nem predileção tem. O que será cozinhado? A “farta” refeição cabe ali, na minúscula vasilha, colorida de preto por conta de tanto fogo aturado.
Vez por outra eu já a vi pentear, incessantemente, os emaranhados fios de cabelo, que multiplicam o volume de forma exuberante. Ela os detém, amarra uma fita, os faz aquietarem-se à força. Esse gestual é feito sempre ao cair da noite, quando a escuridão invade-lhe a “casa” e ela precisa buscar um teto que faça diminuir o frio... Nada melhor que o aconchego sob o viaduto da Amazonas. O cheiro é insuportável, bem diferente de sua “casa” tão limpa... Mas, resignada, ali se refaz para um novo dia.
De longe eu imagino a voz e as questões discutidas... Com quem será ela conversa? O que diz? E por que tanto gesticula? Cessa os movimentos... novamente gesticula, ora com uma mão, ora com a outra... retoma a “capina” daquela cerca de terreno abandonado. Uma trilha de ramos e galhos jazidos demarcam o extenuante labor.
Quem será aquela mulher?! Em qual encruzilhada, na estrada, seus sonhos foram perdidos? Qual foi o desencontro que roubou-lhe a sanidade? Será que aprendeu a driblar a solidão? Que laços afetivos rompeu ou até construiu?
Não resisto. Da janela mesmo eu tiro uma fotografia daquela cena. E, esse pontinho, longe, aí na foto, é ela, a Lúcia. A foto espelha bem a invisibilidade social a que se submete aquela mulher... Ou que nós, que emprestamos apenas os olhares curiosos, a fazemos submeter-se.
E agora? Serei invasivo se mudar-lhe a escolha? Nada a fazer... O Serviço Social bem que tentou... Ela, intrépida e resoluta, permanece firme no seu propósito de manter-se fiel à sua escolha, aos seus diálogos, à sua “casa” e à incessante “capina”.
Então, nada me resta senão olhar e, quem sabe, aprender um pouco mais sobre tantas e tantas escolhas do cotidiano.