segunda-feira, 7 de março de 2016

Trocadilhos II

Meus Rabiscos


João sem Braço

A máxima de levar vantagem em tudo ainda demarca terrenos inférteis no cotidiano. É a nódoa que mancha o respeito humano, pois trata-se da "arte" de enganar. Trata-se da covarde postura de esquivar, fugir do embate e intrujar ideários. E como nos deparamos com tais afrontas! Há um equívoco persistente de que o outro não é nada mais e nada menos que um degrau a ser tripudiado, devendo permanecer sempre abaixo, rastejando-se por caminhos onde a mesquinhez de muitos chega antes. A dissimulação é aviltante! A febre egoística já virou panaceia. Atônitos e fragilizados, os valores éticos e morais, quase sempre dispensados,  a tudo assistem.

A atitude reclamada é a honestidade. É a determinação em propagar a ética, na congruência do dizer e fazer. É cultuar o respeito mútuo, na compreensão plena de liberdade e patriotismo, evitando assim a asfixia social. É responsabilizar-se, solidariamente, por tudo que diz respeito a todos.



Pisar em ovos

As pessoas são imperfeitamente diferentes umas das outras, inclusive pelos significados que cada uma dá em relação às vivências, ainda que sejam as mesmas. É a percepção de cada um que traduz, subjetivamente, a concepção que se tem da realidade. E aqui começam os ruídos. Invariavelmente somos tentados a supor que a minha "tradução" é a mesma do outro. Então, o outro, passa a ser construído sob este prisma. E, na ausência de cuidados, a "verdade" de um teima sobrepor-se à do outro. Não se atenta à elaboração interior que se processa no outro, sob a égide da individual percepção, tomada com convicção de ser a mais acertada.

A atitude é de empatia e compreensão. Compreensão entendida aqui não meramente como esforço de captação das ideias, não apenas como interesse e atenção. Significa, isto sim, a empática atitude de enxergar pelos olhos do outro, de sentir suas elaborações, de compreender suas traduções da realidade, com o claro propósito de alcançar os significados que constrói. Esse cuidado, empático, é o nascedouro do verdadeiro diálogo.



Marcar a Touca
Diz um velho ditado que cavalo dado não passa arreado duas vezes em frente à porta. As oportunidades perdidas são assim, dificilmente se repetem. E a vida é recheada de imprevistos e surpresas. Em grande parte das vezes, as posturas oferecidas traem qualquer possibilidade de sucesso. Argumenta-se a falta de tempo para fazer agora o que precisa ser feito agora. E o ritmo frenético das mudanças não espera pacientemente a resolução de abandonar o papel de mero ator, expectador das alterações, para tornar-se o autor. "Ficar de bobeira" é perder a capacidade de agilizar respostas, de refletir consistentemente e imprimir ações que afetem a inércia da vontade.

A atitude aqui é a motivação. Motivação e ousadia. E isso está intimamente ligado à vontade, inerente portanto a cada um, exceto quando se permite deixá-la adormecer. É o despertamento, disciplinado e perseverante, gerando o entusiasmo vibrante. É a janela de cada um que se abre para o mundo, para a escuta franca. Quando a vontade se cala, se mantém arredia e escondida nos escombros dos caminhos, é necessário então um "mão na roda" para alavancar o entusiasmo e reanimar os passos.


 Mão na roda

A expressão é considerada aqui enquanto decisão em movimento. Não se falará, portanto, da sua origem. Importa que ela conclui os trocadilhos, isso porque o termo é multiuso, de ótima aderência às palavras solidariedade, amizade, ajuda, colaboração e tantas mais!

Mão na roda é acudir o tropeço do outro, ampará-lo, reerguê-lo e acolhê-lo no abraço fraternal. É oferecer-se em complemento, minimizando-lhe os desencontros, mitigando-lhe as frustrações, permitindo-lhe a cumplicidade do franco sorriso. É o grito de indignação que faz ecoar e contagia os submissos, elevando-lhes a capacidade de reação e de respostas tecidas na maturidade da criticidade. É fazer-se presente, quando o lamento for ouvido; é ajudar, sem esperar contrapartida; é solidarizar-se, quando o ânimo solicitar resgate; é constância de propósitos, quando o outro toma parte em nossas vidas. É não se esquivar, não furtar-se e não deixar esvanecer a declaração de companheirismo que une.

Mão na roda é cada um que consente o perdão, que respira compaixão, que se veste de altruísmo, que não abdica do amor ao semelhante, mesmo quando este é um desgarrado social de inóspita humanidade e urbanidade. É ser "pau prá toda obra", quando os próprios atos puderem fazer diferença. É servir, verdadeiramente, como esteio onde o outro recupera as próprias forças e se refaz para a continuidade da caminhada!
Publicado originalmente em 10 de julho de 2010

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