sábado, 10 de janeiro de 2015

Primeira Viagem de Avião

Meus Rabiscos

Imagem:http://causosdeminas.blogspot.com/


O sujeito, caminhoneiro trabalhador, que labutava ao longos dos anos, cortando estradas Brasil afora, viveu algumas cenas um tanto engraçadas.

Um grave defeito mecânico na carreta o obrigara a deixá-la numa cidadezinha bem próximo a Porto Alegre, lá no Rio Grande do Sul. O conserto demoraria uma semana, no mínimo.

Com saudades da família, resolveu que voltaria de avião. Nunca voara! Seria sua primeira vez! Um arrepio percorreu-lhe a espinha dorsal, retesando-lhe a nuca. Dava medo!

Todavia, mineiro dos bons, não se deixou intimidar! O perigo era o companheiro de todos os dias. Certamente, pensava ele, "andar" de avião não seria mais perigoso que enfrentar a estrada, as noites mal dormidas, o cansaço na boléia solitária, as ameaças de roubos e sequestros e a distância da família.

Uma semana, parado ali, o obrigaria a gastar um bom dinheiro. E ele era um tremendo "pão duro". Sua sovinice o impulsionara a voltar de avião, pois também teria que receber algum dinheiro nos próximos dias, resultado de uma negociação que fizera. Perder dinheiro era algo impensável. Era imperativo que voltasse!

No aeroporto já estranhou o movimento intenso, os anúncios engraçados na voz da "locutora em êxtase". E admirava aqueles "grandalhões" no pátio. O medo já não era tão intenso. Fora trocado pelo frenesi da ansiedade.

O voo estava lotado! Ele, como nada conhecia, fora alojado na poltrona do meio! O pior de tudo era que, por ser uma tarifa promocional, chegaria a São Paulo à noite e a viagem prosseguiria, num outro voo, para Belo Horizonte, ainda de madrugada.

Quando o avião levantou voo, ele viveu a pior sensação. Parecia que o "bicho" subia, mas ao mesmo tempo parecia querer descer. "Senhor do Bom Jesus", ele resmungava. "Fincou" os pés no apoio da poltrona, tomou com as mãos os apoios laterais, fez toda força do mundo, trancando a cara, até que o avião se estabilizou. Aí começou a se acalmar!

Na poltrona da janela, uma senhora idosa, com semblante de pura generosidade, o olhava com paciente ternura. Do outro lado, no corredor, um jovem com fones no ouvido, parecia nem enxergá-lo.

E assim foi, num céu de brigadeiro, a tranquila viagem, sem solavancos.

Vieram os lanches! A "aeromoça" serviu à senhora um suco e uma refeição rápida. O jovem aceitou um refrigerante e a refeição. Ele recusara tudo.
- Senhor! Não quer mesmo? Suco, cerveja? Nem mesmo uma água?

Nada! Ele recusara! Estava até com fome, mas não aceitou. O pior era suportar o cheiro da comida em ambos os lados. Que sofrimento aquilo! Dava água na boca de vontade!

Algum tempo depois, volta a comissária de bordo oferecendo suco, água ou outra bebida. A senhora ao lado pediu mais suco. O jovem preferiu água. Ele, mais uma vez, recusou. Estava com sede, mas recusou!

Mais algum tempo e o avião já inicia os preparativos para o pouso. Em alguns poucos minutos já estariam em terra.

Aquela senhora então não se conteve! A curiosidade falou mais alto e resolveu que devia fazer a pergunta:
- Vejo que é a sua primeira viagem de avião! Viu como é tranquilo? Agora, me perdoe, mas estou muito curiosa! O senhor não comeu nada durante toda a viagem! O senhor tem algum problema que o impede de comer?

Ele, já mais descontraído, triunfante ante a experiência de voar pela primeira vez, responde:
- Não senhora! Tenho problema nenhum não! Não comi porque essa comida que serviram deve ser cara demais! A moça nem falou o preço! Imagina na hora de pagar a conta? Deve ser um absurdo de caro!
- Meu Senhor! Não custa nada não! Tudo isso que foi servido, o senhor já pagou! Está tudo embutido na passagem que o senhor comprou!

Ele aí não aguentou! Uma sonora indignação foi exclamada!
- "Putamerda"! E eu tô morrendo de fome e de sede! Agora num tem jeito mais!

Não foi possível indiganar-se mais ainda. A contrariedade foi logo interrompida pelo comandante:
- Senhoras e senhores, aqui é o comandante. Fui informado, por nossos agentes em terra, que o voo que seguiria para Belo Horizonte não será realizado nesta noite, por problemas de manutenção da aeronave. Por favor, ao desembarcarem, recolham seus pertences e serão orientados, no saguão, pelo nosso pessoal de apoio.
- Só faltava essa! - Resmungou o pobre aventureiro!

Interrompido nos pensamentos pela descida brusca do avião, assustou-se com as frenagens inquietas, mas logo passou.

No saguão fora orientado a dirigir-se a um determinado hotel e recebeu um "voucher" para o jantar.

No hotel, a recepcionista o acolheu carinhosamente, com um largo sorriso na face.  Bateu a palma da mão em um "sininho" e logo um sujeito idoso de cabelos branquinhos aproximou-se, querendo tomar-lhe a pequena mala. Ele recusou-se a entregá-la. Aguarrou-a firme. Ainda assim, mesmo estranhando, não teve como impedir a companhia daquele senhor até o apartamento. Lá foi orientado sobre o uso da tv, do telefone e do banheiro, frisando que, qualquer pedido poderia ser solicitado no ramal 9. 

Após o jantar, retornou ao quarto e reparou no frigobar que estava repleto de guloseimas. Lá pelas tantas da noite, não conseguindo dormir, começou a devorar tudo que encontrava pela frente. A cama era macia demais e ele já sentia saudade da sua solitária boleia de caminhão. Saudade da poltrona, do cheiro de óleo, do barulho da estrada.

E, enquanto ruminava em pensamentos, não parava de comer e beber! Até "aquelas garrafinhas" de bebidas, que mais pareciam enfeites, ele esvaziou. Não restou nada! Depois, lembrou-se das orientações do "bom velhinho" e ainda pediu mais bebidas e petiscos.

No outro dia, pôs-se de pé bem cedo. Tomou café e apanhou a pequena mala de mão que carregava. Passou pela portaria, dirigiu um muito obrigado ao recepcionista e tomou direção da rua, onde a "van" já aguardava os passageiros daquele fatídigo voo.

Teve a impressão de que alguém o chamara pelo nome. Mas ali ninguém o conhecia, então continuou rumo à saída. Quando já se aproximava da porta principal, ouviu que o chamavam, mais alto e ainda acrescentaram o número do apartamento como sobrenome.

Não havia dúvidas. Era ele! Voltou-se, acenou afirmativamente e retornou ao balcão.

- Senhor! Consta aqui nos nossos controles que houve consumo no frigobar! O senhor precisa acertar essa conta!

O intrépido caminhoneiro, aventureiro de outros mundos, mesmo sem entender, pegou a conta que já lhe beirava a face e deu um pulo!
- Que isso moço! O senhor "deve de tá" enganado! É muito dinheiro! O pessoal do avião me deu aquele papel que entreguei na janta! Já tá tudo embutido! Já foi pago!  Tudo embutido! Isso aqui é dinheiro demais!

Pacientemente o recepcionista, ainda que com vontade de soltar boas gargalhadas, respondeu-lhe:
- Não, senhor! Aquele papel, o "voucher", era para o jantar ou lanche e hospedagem! O consumo é por sua conta! Não está incluido não!

A ficha caiu! Teria mesmo que bancar a conta! No avião, onde tudo era de graça, não quis comer. No hotel, onde tudo deveria ser pago, comeu tudo que queria. Sentiu-se ludibriado, mas como bom e honrado mineiro, pagou a conta e fez ali uma promessa:
- Num ando mais nesse tal de avião! Esse trem até que é bão, mas é caro demais! O povo enfia a mão sem dó. Cobra barato lá,  caro aqui. Não! Agora é que só ando de caminhão!

E lá foi ele, cumprir o restante da jornada, chegar em casa, rever  a família. E prometera a si mesmo que no resto da viagem iria comer. Porém, o que importava era a saudade da sua boleia que já apertava no peito. Não havia lugar melhor que aquele! E bem mais barato!
Publicado originalmente em  18 de setembro de 2010

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