terça-feira, 19 de agosto de 2014

Metamorfose


Meus Rabiscos

Foto: Casulo, de Ana Marques

”...Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.
Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito. Eu o esquentava, impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las. 
Curvando por cima dela, eu a ajudava com o meu hálito, em vão. Era necessária uma paciente maturação,o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol; agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo. Ela se agitou desesperada e alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.
Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois, hoje, entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis. Temos que não nos apressar, não ficarmos impacientes, seguir com confiança e ritmo eterno”.
Nikos Kazantzákis
Metamorfose. Fonte:http://www.pensador.info/autor/Nikos_Kazantzak


Tudo tem o seu tempo certo. E como aprender a vida se assemelha à metáfora, à metamorfose! Veja como as convidativas e necessárias rupturas incessantemente desafiam. É como vencer o invólucro! É preciso trabalhar esse processo... Tempo!

Os ambientes onde construímos nossas aprendizagens do cotidiano são igualmente eivados de possibilidades contraditórias, diferenças, surpresas e tantos outros senões... É que lidamos com o ser humano, com sua incompletude, sua incerteza, sua beleza, sua mágica exuberância e sua contundente complexidade, de seus múltiplos e diversos valores.

Ali, nesses mesmos ambientes, nos confrontamos, por certo, com tropeços do nosso discernimento, com a insensatez que perambula solta e com a pequenez que retumba da turbulência de tempos idos, ainda não mitigada. Feridas expostas, quase gangrenadas. Dores lancinantes.

Precipitamos escolhas e embarcamos a rumos desconhecidos. Depois, mal resolvidos, queremos a todo custo desembarcar do trem a toda velocidade. Queremos pular. E pulamos mesmo! É quando nos damos conta das feridas que agora marcam o pulo. Cicatrizes das escolhas.

Quantas e quantas vezes sopramos mais do que devíamos! Alimentamos mais ainda as dores, porque não lhe concedemos o tempo de cura! As frustrações viram mágoas, o hálito quente da obsolescência faz aumentar a perda. A ira se aquece no sopro do ostracismo, fica à margem dos passos. A sede de justiça, vilipendiada, ao calor do orgulho ferido, fulmina a verdade num silencioso "autoextermínio". A integridade, ferida de morte, na quentura do revide, abraça o revanchismo tosco, inconsequente e bestial! Quantas vezes...

No afã de respostas, reparos à dor sentida, nos metemos num ciclo de marginalidade, onde tornamo-nos algozes das utopias que forjaram nossos já combalidos valores. A consciência do duradouro esfacela-se na escaldante incompreensão de efemeridades. O infinito dos sonhos vira ponto final, finito das buscas.

Sopramos mais do que devíamos... Protagonizamos grandes desencontros cravados de interpretações dúbias de nós mesmos. Já não há estupefação! Vaidades exacerbadas servem à subjetivação da empáfia. Teimamos abdicar da verdadeira condição de aprendizes. Não se desenvolve a atitude da paciência, do diálogo, do autorespeito, do autocuidado. Os compromissos evolutivos são desmanchados.

A humanidade, desencontrada de si mesma, faz descortinar esses cenários. Assistimos, impávidos, balas perdidas ceifando inocentes; transgressões no trânsito virando desmanche de famílias; avidez por dividendos virando massacre social, pobreza esquecida e estigmatizada; amores desencontrados virando jazigos que silenciam a esperança. E assim, cada um, filho das lágrimas que violentam a vida, passa a negligenciar o respeito a si e outrem, maculando a dignidade. Sopramos mais do que devíamos... Julgamos fácil, ao sabor das próprias incompletudes cegadas.

A reversão dessa chacina exige, antes de soprar em demasia, o imprescindível mútuo respeito, procurando resolver as discordâncias, não pela aceitação passiva ou autoviolentadora, mas pela síntese dos contrários, por uma postura crítica, revisionista e compreensiva, à luz de uma visão holística requerida. É indispensável aprender a confiar no ser humano, a estabelecer um credo de fé na humanidade.

A Psicopedagoga  Antonia Nakayama argumenta, em relação ao aprendizado, que é preciso levar na alma um pouco de marinheiro e o entusiasmo pela travessia; um pouco também do pirata, aventureiro de mares desconhecidos e um pouco de poeta, para mostrar a busca do aprender como metáfora da própria vida, e ainda, muita paciência para esperar o momento em que se possa assumir o controle do próprio barco, para somente depois, alcançar outros tantos portos com o que se construiu de conhecimento e de si mesmo. O processo de apreender a vida, no qual somos atores e autores – nós nos confundimos nesse palco –, só pode ter como meta a autonomia, mas não nos esqueçamos da borboleta em seu casulo... É preciso ser paciente nessa construção, posto que isso pressupõe a construção do outro e de si.

É preciso servir atitudes de empatia e inclusividade, enquanto atenção não preferencial, enquanto posturas acolhedoras das polaridades que transitam no nosso universo. O isolacionismo não tem lugar. De costas e escondido das pessoas que partilham o mesmo trajeto que eu, não consigo ver onde erro, não tenho a dimensão dos meus acertos. Não avanço. Corro o risco de sofrer o mal da paralítica arrogância.

O convite se coloca para aprender a trabalhar as ansiedades, no ritmo e tempo exigidos, a corrigir caminhos, retomar rumos, autocorrigir-se constantemente, propor e aceitar mudanças, melhorias graduais de nós mesmos, gerando assim a irreversibilidade dos grandes encontros de vida conquistados.

Proponho então, antes dos afoitos sopros, que aprendamos a semear sementes da coragem, da vontade, da superação, da disposição e de valores humanos. E que cada um as aqueça, no casulo do coração, para que os brotos possam ser transplantados a outros que caminham a ermo, na escuridão dos seus desencontros.



Publicado originalmente em 04 de junho de 2010 








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