segunda-feira, 21 de abril de 2014

Eu sei, mas não devia



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Olhar na janela
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente acostuma a morar em apartamento de  fundos e não ver outra vista que não as janelas ao  redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, se esquece do sol, esquece do ar, esquece da amplidão.


A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo de viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre a guerra. E aceitar a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja um número para os mortos. E aceitando os números , aceita a não acreditar nas negociações de paz. Não aceitando as negociações de paz, aceita ler todos os dias sobre a guerra, seus números e sua longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: Hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.


A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos de consumo.

A gente se acostuma à poluição , às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar.  À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.


A gente se acostuma a  coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma  revolta lá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua o  resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se  no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.


A gente se acostuma a não ralar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma  para evitar feridas e sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.


A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e que se gasta de tanto acostumar. Se perde em si mesma.


A gente se acostuma a ser acostumado.
                               Marina Colasanti

2 comentários:

  1. Olá Gilmar!
    Incrível esse texto, eu já havia lido, aliás, várias vezes. A Marina Colasanti é assim, ela vai fundo, no âmago das ideias. Nesse texto sua mira é incisiva e certeira. Estamos mesmo acostumados a aceitar tudo sem discutir, sem refletir, sem argumentar e precisamos acordar e reivindicar o que nos é devido. Mas cadê a Dona Coragem? Deve andar por aí, escondida n'algum canto da nossa alma. Lindo post. Obrigada por compartilhar com a gente. Bjs.
    Blog da Marli

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    Respostas
    1. Verdade, Marli! Nos acostumamos tão facilmente quando devíamos recusar veementemente... Fraterno abraço!

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