domingo, 13 de abril de 2014

Aos alunos, com carinho!

Meus Rabiscos


Lembranças reviradas... Bons momentos! Grandes momentos! Num deles, logo depois de deixar a Direção da FACEB, em Brasília, fui convidado por talentosos alunos do Curso de Turismo para ser o paraninfo da turma e, com extremado orgulho, compareci. Essas são as palavras que puderam ser servidas, numa fala de agradecimento e profunda fé. O que foi dito guarda relação com um "amontoado" de outras coisas do cotidiano. É só uma questão de permitir-se. Eis o texto:



Meus queridos alunos,

O que falar a vocês quando a emoção embarga a voz, provoca a lágrima e faz encher a alma de carinho, afeto e pertença?!

Hoje preciso confessar a minha incompetência para encontrar palavras capazes de traduzir o que se passa dentro deste educador! Então, com toda a humildade, recorro a Fernando Sabino e ouso parafraseá-lo, notadamente quando diz:

De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que estamos sempre começando...
a certeza de que é preciso continuar...
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
 PORTANTO DEVEMOS
 fazer da interrupção um caminho novo...
da queda, um passo de dança...
do medo, uma escada...
do sonho, uma ponte...
da procura, um grande encontro!   

A caminhada que fizeram, ou melhor, que juntos fizemos, numa Casa de Educação que não teve medo e nem se acovardou no seu ato sublime de fazer a verdadeira educação; que se escancarou a todos que dela se serviram e que comungou, com fidelidade, dos sonhos que vocês ousaram erguer em suas vidas, essa caminhada, com certeza absoluta, permitiu a formação de seres humanos ricos em valores e princípios, mas também de inquestionável e indiscutível competência, sobretudo porque emprestaram as suas melhores atitudes e propósitos nessa formação profissional.

Eu, enquanto educador, continuo acreditando na utopia de fazer educação conjugando o verbo coletivizar. Coletivizar competências, propósitos, verdades, transparência, sonhos, ideários... Coletivizar princípios e valores reclamados num mundo, ainda hoje, tão conturbado e de tantos desencontros.

Eu aprendi, nessa jornada, a grande lição que agora faço questão de propagar, onde quer que eu esteja: a lição da pertença!

Então, caros alunos, não se distanciem daquilo que me ensinaram. Busquem viver, em profundidade, a lição da pertença! Pois, que adianta a eloquência, se a arrogância é o que se sabe oferecer?

Que adianta o alto desempenho, se a prepotência é a atitude conservada?

Que adianta a capacidade de organizar e desenvolver propostas e projetos, se a ausência de respeito e humildade fazem imperar o ranço podre do poder e do mandonismo?

Que adianta a capacidade de empreender, se não aprendo a exercitar a lição da coletivização das competências dos que me cercam, pois afinal, o ignóbil status de estrela solitária precisa sobressair?

 Que adianta a performance de excelência em resultados, se encimesmado, subjugo a ética e violento a honestidade e a integridade dos seres que perfilam ante a minha avidez por dividendos?

Não é pela licenciosidade que a autonomia do pensar e do ser será construída. Ao contrário, será por meio da aflorada criticidade e capacidade de transitar, respeitosa e sabiamente, nas diferenças. Caso contrário, ainda que eu me considere um esplêndido profissional, a grande verdade é que não passarei de um medíocre, submisso, subserviente e descartável escudeiro de outros interesses.

Então, peço a cada um de vocês, que aguerridamente alcançaram a formação que agora saboreiam:
1- Nunca se esqueçam da grande lição de pertença que ensinaram;
2- Jamais se afastem dos princípios que norteiam suas vidas;
3- Em hipótese alguma ignorem a história de vida que constróem, dia após dia, com verdade, ética e justiça.

Obrigado por me ensinarem tanto! Fica o convite de Sabino: construir escadas e pontes para os grandes encontros que a vida oferecerá! 

Eu me orgulho muito, mas muito, de cada um de vocês! 

Um grande e enorme beijo no coração de cada um!

Sejam muito felizes!






 Publicado originalmente em 07 de maio de 2010

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Milagre do Xixi

Meus Rabiscos - Contos e Causos



Num lugarejo distante, onde o sol ainda brilhava nas  manhãs de primavera, por entre bosques floridos e montanhas preguiçosas, dois vizinhos, na peleja da vida, viviam experiências bastante diferentes com suas criações de porcos: um era bem sucedido, ficara rico e prosperava cada dia mais; já o outro, mais simples, nada estava bem, as dívidas se acumulavam e o negócio ia de mal a pior.

Certa tarde, o vizinho pobre resolveu ter uma prosa com o outro, tencionando descobrir a razão de seu sucesso.

Na varanda da casa, uma boa dose de pinga, conversa jogada fora, pito de palha no canto da boca, noite se aproximando... Não teve jeito. Incomodado com tanta estória de vendas de porcos e dos lucros, o vizinho pobre não se conteve e lascou a pergunta:

 — Uai cumpadre, eu num consigo cumpreendê cumé que ocê consegue ganhá tanto dinheiro com a criação de porco. Tudo que ocê tem eu tenho. Tudo que ocê faiz eu faço. Qual é o segredo? É arguma ração nova que foi desenvolvida? Afinal, eu compro e dou a mesma ração. Eu não cumpreendo.

O vizinho rico lascou uma cusparada pelo chão a fora, mudou o pito para o canto esquerdo da boca, acendeu a binga  e pôs-se a soltar longas baforadas,  enquanto matutava a resposta. Sem titubear, deu dois resmungos, pigarreou um bocado e foi falando:

 — Sabe compadre, eu não dou trato especial, não acrescento nada na ração. É verdade que tudo que faço você também faz. Do mesmo jeito que crio, você também cria. Mas, tem uma diferença, e você não faz isso. Todo dia eu vou duas vezes nas pocilgas, atravesso todas elas, vou até uns cinquenta metros depois da última e bem perto da tronqueira  eu dou uma mijadinha. Depois volto lentamente. Se o compadre quiser melhorar precisa também fazer isso.

O vizinho pobre, sem nada entender, matutou consigo mesmo alguns pensamentos soltos e  devolveu uma pergunta:

 — Mas cumpadre, ocê deve de tá brincano comigo. Ocê só pode tá mangano de mim! Então ocê acha que só uma mijada vai fazê meus porco tudo engordá? Isso é arguma mandinga? Ocê faz arguma reza brava enquanto mija?

—Não compadre. Nada disso . — Interveio o vizinho rico. —Na verdade não tem reza e nem nada de mais. Mas siga o meu conselho e você verá que depois de três meses o resultado aparecerá. Eu não tenho como convencê-lo  agora, mas acredite, vai funcionar.

O vizinho pobre, muito desconfiado, mas sem jeito de questionar ainda mais o amigo, largou mão de muita indagação e mudou o rumo da prosa até que o vento frio da noite soprou logo um convite para a retirada.

O tempo foi passando e o vizinho pobre, mesmo desconfiado, seguiu ao pé da risca as recomendações do amigo. Todos os dias atravessa a pé a propriedade, passava pelas pocilgas e junto à estaca da porteira, derramava todo o xixi que conseguia. Tinha dia que até forçava, mas uma gota que seja, lá ele deixava. Voltava contando os passos, imerso em pensamentos de infância e vez por outra, era tomado de sobressalto pelas muitas preocupações com as dívidas. Mas o tempo foi passando.

Já em meados do segundo mês pôde perceber que as coisas estavam melhorando. A engorda já era melhor, o dinheiro já aparecia mais a miúdo e as coisas começavam a tomar jeito. Foi tomado pelo entusiasmo e jamais se esquecia do xixi ao pé da estaca.

No terceiro mês, tal como o vizinho falara, a diferença era enorme: porcos gordos, vendas excelentes, dinheiro em caixa, dívidas pagas e sorriso escancarado nos lábios.

Estava tudo tão bem que não se conteve e foi ter mais uma prosa com o vizinho para agradecê-lo e tentar entender que mágica era aquela. Chegou mansinho, bateu palmas, tirou o mote de palhas do bolso da calça, pegou o rolo de fumo, canivete pronto e danou a cortar o fumo. Nisso o vizinho chega e  o convida a se aproximar e se sentar na varanda. A prosa foi animada, até que a certa altura, lascou a baita dúvida que tinha para o vizinho resolver:

 —Óia cumpradre, eu fiz o que ocê mandô fazê. Cumpri direitinho  tudo o que ocê me ensinô. Todo o dia eu fui lá na tal estaca e dei aquela mijada. Mais eu tô encafifado aqui na minha cachola, eu ainda num consegui intendê nada. Que diabo de mágica é essa que ocê fez pra mim ? Que benzição danada é essa que ocê me arrumô?

O vizinho pôs-se a rir o bom riso. Puxou uma grande baforada do pito e sem resmungos foi falando:

 —Sabe compadre, como eu já lhe disse, não existe nenhum segredo, mágica ou milagre. Eu vou lhe explicar direitinho.  Olha, toda vez que você ia fazer o seu xixi na estaca, você tinha que atravessar toda sua propriedade não é verdade? Aí está o segredo. Como você não tinha hora certa para fazer o xixi, seus empregados não sabiam em que momento você estaria por ali, contudo, sabiam que você iria de qualquer maneira. O que aconteceu? Todos eles se puseram a trabalhar arduamente, a cuidar direitinho dos porcos, a melhorar o  trato, a cumprir os horários, tudo porque sabiam que a qualquer momento você estaria por ali e eles imaginaram que estaria observando tudo isso. Daí a melhora. Compreende agora o que aconteceu meu compadre? Aí está o milagre: a sua presença constante, mesmo sem saber que era isso o que importava.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Receita de Ano Novo



 Carlos Drummond de Andrade
Itaguara num olhar - Luiz Felipe Greco






"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido).

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior).

Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

domingo, 22 de setembro de 2013

Telegrama






 Carlos Drummond de Andrade

Emoção na cidade.
Chegou telegrama para Chico Brito.
Que notícia ruim,
que morte ou pesadelo
avança para Chico Brito no papel dobrado?

Nunca ninguém recebe telegrama
que não seja de má sorte. Para isso
foi inventado.

Lá vem o estafeta com rosto de Parca
trazendo na mão a dor de Chico Brito.
Não sopra a ninguém.
Compete a Chico
descolar as dobras
de sua tragédia.

Telegrama telegrama  telegrama.

Em frente à casa de Chico o voejar múrmure
de negras hipóteses confabuladas.
A estafeta bate à porta.
Aparece Chico, varado de sofrimento prévio.

Não lê imediatamente.
Carece de um copo d'água
e de uma cadeira.
Pálido, crava os olhos
nas letras mortais.

Queira aceitar efusivos cumprimentos passagem
data natalícia espero contar valioso apoio
distinto amigo minha reeleição deputado
federal quinto distrito cordial abraço
Atanágoras Falcão.

Carlos Drummond de Andrade. Telegrama, in Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 8/7/72.