terça-feira, 2 de junho de 2015

Cozinhar Azedumes

Meus Rabiscos


Vez por outra nossos caminhos são interceptados por pessoas que já se esqueceram de sorrir... a face tornou-se carrancuda e os olhos, fulminantemente sombrios, revelam na voz áspera, um azedume encruado no ser.

 E, uma vez interceptados, invariavelmente a contaminação se alastra, nos alcança de pronto e a paz já é imolada. A irritabilidade, ante azedumes servidos, já nos invade na sofreguidão dos nossos apressados passos.

 A música, cantarolada no sossego, já sofre com os engasgos. O tom melodioso já destempera a nota, desafina no grave e desconcerta de vez no agudo. Descompassa-se por completo... É como se na tentativa de continuar cantarolando, uma outra música, irritantemente alta e com um “batidão” totalmente divergente, invadisse o palco apaziguado. Tente cantarolar uma música ouvindo outra assim, num ritmo freneticamente divergente! É o som do azedume!

 O sol de brilho intenso, aquecendo a manhã fria, num abraço deliciosamente revigorador, de repente é atropelado por nuvens negras, vestidas de pavor, “trombando” umas nas outras e fazendo ecoar monstruosos relâmpagos e ensurdecedores trovões! É o barulho do cenário de azedumes!

 Não adianta tentar contrapor argumentos. A acidez contrária faz calar a voz, intimidada pelo exasperado volume. A dialogicidade é violentamente golpeada, num desespero estressante que a insanidade alimenta. Não há bom humor que resista.

 Nada é bom! Nada vale a pena! Nada ajuda! É um rosário de lamúrias e choros! A intolerância se casa com a amargura e se torna angústia. O ranço pobre da imaturidade persiste. A vitimização é o discurso eloquentemente ofertado. O egoísmo e egocentrismo se vestem de mundo cruel a impor sacrifícios, a oferecer apenas azedumes a serem cozinhados.

 Quem já não se deparou com gente assim? Em casa, na rua, no trabalho, enfim, nos trajetos cotidianos com seus “senões”. Humor árido, tolerância curta, paciência exígua, sorriso escasso... O centro de todas as dificuldades, âncora de toda falta de sorte, suporte de toda espécie de carga, feito Atlas carregando um mundo, só que cheio de problemas irremediáveis.

 E o que fazer mediante tamanho assombro?

 Nada de mirabolantes e egocêntricas magias!  Primeiro é acalmar o coração! Aquietar o ânimo! Respirar a tolerância e paciência! A prontidão emocional e espiritual é que permitirá rechaçar as tentativas de invasão.

 Depois, é oferecer serenidade na voz e no olhar. O semblante, quase “contemplativo”, é convite que resvala na inquietude do outro, cutucando a reflexão exigida. A voz, numa mansidão divina, significando amorosidade abundante, encontrará repouso no olhar  supostamente incólume do outro e tende alcançar equilíbrio.

 Se ainda assim o "contato" não se reestabelecer, então melhor esperar a tempestade diminuir. Tente depois, num outro tempo! O exercício da reflexão, mediado pelo diálogo e inclusividade, pode reconstruir algumas das pontes quebradas, demolidas na impetuosidade dos azedumes alardeados.

Importa não saborear os azedumes servidos. Importa não sujeitar-se à “culinária” extravagante de azedumes e temperos ardidos.

A generosidade é um bom remédio a outrem! Pode servir!  Não há contraindicação!


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