segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Muito além de uma porta...

Outros Autores


Se você encontrar uma porta a sua frente, poderá abri-la ou não.

Se você abrir a porta, poderá ou não entrar em uma nova sala. Para entrar, você vai ter que vencer a dúvida, o titubeio ou o medo.

Se você venceu, você deu um grande passo: nesta sala vive-se.

Mas também tem um preço: são inúmeras as outras portas que você descobre.

O grande segredo é saber quando e qual porta dever ser aberta.

A vida não é rigorosa: ela propicia erros e acertos.

Os erros podem ser transformados em acertos, quando, com eles, se aprende. Não existe a segurança do acerto eterno.

A vida é generosa: a cada sala em que se vive, descobrem-se outras tantas portas.

A vida enriquece a quem se arrisca a abrir novas portas.

Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece oportunas portas.

Mas a vida pode também ser dura e severa: se você não ultrapassar a porta, terá sempre essa mesma porta pela frente.

É a repetição perante a criação.

É a monotonia cromática perante o arco-íris.

É a estagnação da vida.

Para a vida, as portas não são obstáculos mas diferentes passagens...


Içami Tiba

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Náufragos

Humor
Náufrago



Um americano, um brasileiro e um português sobreviveram a um  naufrágio. Eles nadaram até chegar a uma ilha.

 - Uhuuuu estamos salvos - gritaram.

 Logo que chegaram a tal ilha, perceberam que a mesma era habitada por nativos pouco amigáveis. Então foram tentar conversar com eles:

 - Oi, somos sobreviventes de um naufrágio. Poderiam nos ajudar?

 - Não, vocês não podem ficar aqui (detalhe... os nativos eram poliglotas). 

- Mas, por favor,... choramingavam, deixe-nos ficar. Vamos morrer se não nos deixarem ficar, por favor

 - Tudo bem, tudo bem, mas, para ficar aqui, cada um dos três terá que nos trazer duas frutas

 Então os três saíram pela ilha atrás das frutas.

 O primeiro a voltar foi o americano, com uma ameixa e uma uva. Então  o nativo-mor falou:

 - Agora você coloca as duas frutas na bunda. Se rir, morre 

 O americano pôs a ameixa, beleza, colocou a uva e riu...  Foi decapitado.

 Mais tarde veio o brasileiro, com uma banana e uma maçã.  O nativo-mor falou a mesma coisa:

- Se rir, morre.

 O brasileiro, no sacrifício, colocou a banana e na hora da maçã caiu na gargalhada. Teve o pescoço cortado.

 Mais tarde os dois se encontraram no céu e o brasileiro falou para o americano: 

- E aí, você riu também, né?

 - Pois é..., a uva estourou quando eu estava colocando, fez cosquinha, eu não aguentei e ri. E você brasileiro? O que lhe aconteceu?

 - Ah, eu fiz um tremendo sacrifício parra colocar a banana e quando  tava colocando a maçã,  vi o português chegando com um abacaxi e uma jaca e não resisti.

domingo, 23 de novembro de 2014

Precisa-se...

Meus Rabiscos

Foto: Estrada Fria, de Bruno Ramalho
Precisa-se de alguém que ensine a alegria, quando a dor dilacera o espírito. Alguém que mitigue a mágoa e o rancor, porque a perda foi por demais dolorida. Alguém que ensine passos de dança, talvez um bolero, um tango, ou quem sabe um foxtrot, para aliviar os pés metidos na lama do desencontro. Que faça o corpo inquietar-se ao som da música, já que a mesmice paralisa os movimentos.


Precisa-se de alguém que ensine a assobiar músicas antigas, das mais melodiosas ao chorinho bem ligeiro, assim, quem sabe, a voz se erga e não mais retorne ao chão. Alguém que saiba acender fogo atritando paus ou triscando pedras, no meio do nada e no vazio do ser, assim, quem sabe, a alma se aqueça no sopro e no abano e resolva não mais chorar.

Precisa-se, desesperadamente, de alguém que ensine o olhar da lua, majestosa em seu brilho, e assim acalmar a desesperança. Alguém que saiba oferecer o abraço, para impedir que a distância aumente. Alguém que ensine plantar rosas vermelhas, em canteiros de terra em água salobra, assim, quem sabe, o adubo da cumplicidade faça nascer pétalas de ânimo.

Precisa-se, com extremada urgência, de alguém que empreste uma lamparina e assim as sombras da solidão, mirando no filamento de luz, permitam-se à claridade do outro. Alguém que saiba receitas de chás de raízes e que as conheça muito bem, é para evitar que as ervas daninhas se proliferem no coração e acabem sendo servidas com gosto de remédio caseiro.



Precisa-se, irremediavelmente, de alguém que ensine a magia do circo. Que ensine malabares, trapézio, mágica e acrobacias. Quem sabe, assim, seja possível aprender
flexibilidade e tolerância. Quem sabe, assim, possa aprender a generosidade do palhaço, que espalha o riso, para não deixar que jamais morra a criança que ainda se esconde no circo da vida,  sob lonas carcomidas e cheias de furos.



Precisa-se de alguém que saiba conjugar verbos complexos, que explique com clareza o pretérito imperfeito e o gerúndio. Quem sabe, assim, o futuro do presente se evidencie nas atitudes e elas não mais regridam no tempo em busca de respostas que já se perderam.


Precisa-se de alguém que seja exímio em matemática, para desmistificar a subtração e a divisão que se vestem do pranto e ensinar, então, a soma de fragmentos, ora desconexos, e a multiplicação de valores que não morreram, só esmoreceram.


Precisa-se de alguém que saiba consertar molduras e ensine como restaurar o quadro que reflete a história de vida. Ensine a pincelar ranhuras expostas, a colorir com vivas cores o cinza dos percalços. Quem sabe, assim, se aprenda a olhar prá dentro de si mesmo, admirar o desenho das conquistas e constatar que outras interpretações ainda são possíveis.



Precisa-se de alguém que ensine exercícios de respiração, para que o abdômen perceba-se importante e o diafragma apague a sofreguidão da agonia. Talvez, assim, sejam soprados, para muito longe, a tristeza nos olhos, o silêncio no coração e a solidão das palavras.



Precisa-se, mais que nunca, de alguém que saiba implodir prédio humano, derrubar paredes de ódio e desmanchar telhados de covardia. Alguém que saiba ao menos esboçar projetos. Assim, quem sabe, ainda restará um fio de esperança na reconstrução de um novo sujeito, com paredes solidárias e apaziguadas, cobertas por telhas de lealdade.



Precisa-se de alguém que não seja míope: é para ajudar a encontrar os óculos da verdade, perdidos nos descaminhos da frustração.


Precisa-se, desesperadamente, de uma "vuvuzela" que faça dispersar os pesadelos, vibrar com o time dos sonhos e acordar, definitivamente, para si mesmo. Reconhecer-se errante, mas amparado em todas e cada uma das necessidades gritadas.


 
Precisa-se, sem pressa alguma, com toda paciência, de um beijo demorado, de um sorriso balbuciando frases desconexas, de um abraço ofegante e de olhos que fazem suspirar a paixão.





Precisa-se...





Créditos das fotos:
1- Tango: Isabel Silva
 2- Lua: Hermínio
3- Palhaço: José Neves
4- Pintura: João Vasco
5- Implosão: Paulo Liebert
6- Vuvuzela: Darko Vojinovic
6- Beijo: Gutobp




Publicado originalmente em 24 de junho de 2010

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Pasta Dental

Metáfora



Numa grande empresa, quando os diretores de marketing se reuniram  para desvendar o mistério das vendas de pasta de dentes, visto que, apesar de bem aceitas pelo mercado, de boa margem de venda, os produtos demoravam obter uma Segunda compra. A preferência pelo produto era notória, contudo, ainda assim, as vendas não deslanchavam.

Pesquisaram mercados, analisaram dados e informações, e nada, absolutamente nada detectaram. O produto tinha uma excelente aceitação e credibilidade. Era o preferido em todas as pesquisas de vendas. Era o melhor produto, em termos de qualidade e credibilidade que a empresa dispunha. Contudo, o paradoxo continuava: Por que um produto tão bem aceito demorava tanto a desocupar as prateleiras dos supermercados? Era mesmo um mistério.

Numa certa noite, os técnicos em marketing trabalhavam incessantemente e nenhuma resposta foi possível. Estavam tão envolvidos com o problema que nem perceberam a presença do faxineiro, um senhor já de meia idade, de gestos e atitudes tão simples quanto sua condição socioeconômica. Continuaram o debate entre os muitos e misteriosos porquês. 

 A certa altura da conversa, o faxineiro se intrometeu:

—Senhores! Posso oferecer uma colaboração? Posso dar uma opinião sobre o problema que os senhores estão discutindo?

Todos se entreolharam estupefatos, porém, educadamente permitiram que o faxineiro se manifestasse. E ele continuou:

—Há uma alternativa muito simples para que o produto acabe depressa para quem o compra. Veja bem, se o produto demora a acabar é porque o bico onde sai a pasta de dente é muito fino. A solução é só aumentar o tamanho do bico de saída da pasta dental.

Os técnicos em marketing ignoraram o faxineiro, mas educadamente agradeceram. Em seguida, dirigiram-se para a sala do presidente, onde uma reunião os aguardava.

Na sala do presidente, após longas discussões sem resultado, e ante as enormes pressões que o presidente fazia, querendo a qualquer custo uma alternativa, um dos técnicos em marketing, já num desabafo, soltou uma gozação:

—Senhor presidente, já fizemos de tudo que foi possível. A saída só pode se dar por uma mágica, ou então, como disse o faxineiro, só se aumentarmos o tamanho do bico por onde sai a pasta de dente.

Mal acabou de falar e começaram a  despencar risadas do caso. Porém, o ar sério e reflexivo do presidente contrastava à gozação ensaiada. Foi então que o presidente disse:

—Esse é de fato o melhor caminho.  Aumentar o tamanho do “buraco” do bico de saída. Que grande ideia. O problema de vocês é que não souberam escutar. Eis aí a grande saída. Chamem este faxineiro aqui e a ele daremos uma bela gratificação.

sábado, 15 de novembro de 2014

Declaração de Males

Outros Autores


Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.

Paulo Mendes Campos
Texto extraído do livro "O amor acaba", Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1999, pág. 259, organização de Flávio Pinheiro.