segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sábias palavras





Certa vez um sultão sonhou que havia perdido  os dentes. Ele acordou assustado e mandou chamar um sábio para que interpretasse o sonho.



— Que desgraça, senhor! —Exclamou o sábio. — Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade!

— Mas que insolente! —Gritou o sultão. — Como se atreve a dizer tal coisa?!



Então, ele chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. Mandou também que chamassem outro sábio para interpretar o mesmo sonho. E o outro sábio chegou e disse:



— Senhor, uma grande felicidade vos está reservada!! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes!



A fisionomia do sultão se iluminou e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio.



Quando este saía do palácio um cortesão perguntou ao sábio:



— Como é possível? A interpretação que você fez foi a mesma do seu colega. No entanto ele levou chicotadas e você, moedas de ouro!



— Lembre-se sempre, amigo, tudo depende da maneira de dizer as coisas... E esse é um dos grandes desafios da humanidade. É daí que vem a felicidade ou a desgraça; a paz ou a guerra. A verdade sempre deve ser dita, não resta a menor dúvida, mas a forma como ela é dita é que faz a diferença. A verdade deve ser comparada à uma pedra preciosa. Se a lançarmos no rosto de alguém,  pode ferir, provocando revolta. Mas se a envolvemos numa delicada embalagem e a oferecermos com ternura, certamente será aceita com mais felicidade.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Estatutos do Homem



Estatutos do Homem

 Outros Autores
 Artigo I

 Fica decretado que agora vale a verdade.

 Agora vale a vida, e de mãos dadas,

 marcharemos todos pela vida verdadeira.



Artigo II

 Fica decretado que todos os dias da semana,

 inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

 têm direito a converter-se em manhãs de domingo.



Artigo III

 Fica decretado que, a partir deste instante,

 haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo IV

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.



Parágrafo único:

O homem, confiará no homem

como um menino confia em outro menino.



Artigo V

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.



Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo

gosto de aurora.



Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.



Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha

sempre o quente sabor da ternura.



Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,

qualquer hora da vida,

uso do traje branco.



Artigo XI

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo,

muito mais belo que a estrela da manhã.



Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado

nem proibido,

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.



Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.



Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.



Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.


Thiago de Mello 
 Santiago do Chile, abril de 1964

domingo, 6 de julho de 2014

Quebra-cabeça de loira...



Humor

A loira liga para o celular do namorado: 

- Mor, oi, sou eu... Tô com um problema enorme. 

- O que houve querida? 

- Eu comprei um quebra-cabeça, mas é muito difícil... 

- As peças não encaixam... 

- Meu amorzinho, eu já te ensinei a montar vários tipos de quebra-cabeças, né? Primeiro você tem que achar os cantinhos... 

- Esqueceu?? 

- Eu sei, lembrei que você disse isso, mas é que eu não consigo encontrar os cantos... 

- Ok...qual é a figura? Deve estar desenhado na caixa... pergunta o namorado.. 

- É um tigre...responde apreensiva. 

- Tigre? Não me lembro desse quebra-cabeças.. Se acalma. 

- To indo praí. 

- Chegando lá, Camila o leva até a cozinha e mostra o quebra-cabeça sobre a mesa. 

- O namorado dá uma olhada, balança a cabeça, chora, dá um soco na parede, conta até 10 três vezes, e, após longo e pensativo silêncio não aguenta e explode: 

- Não é possível  !!!!! Bota já os sucrilhos de volta na caixa!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Mediocridade do Meio

Meus Rabiscos

"Não Espere Pelo Epitáfio... Provocações Filosóficas", é um prazeroso livro de Mário Sérgio Cortella que reúne crônicas publicadas na Folha de São Paulo, entre 1994 e 2004. O livro foi publicado em 2005. Ainda assim, os argumentos são contemporâneos, atualizadíssimos.

Discutindo sobre o "caminho do meio" ou os riscos provocadores de transbordamentos, há trechos da crônica "Não espere pelo epitáfio", quatro parágrafos, que precisam ser reproduzidos, tamanha reflexão permitida.

"Ora, há dezenas de mitos, fábulas e histórias com a finalidade de exaltar a exclusividade e preferência do caminho do meio; o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade. Em nome da sobriedade, da prudência e do comedimento, o máximo que se obtém em muitas situações é a mornidade mediana, regrada e constantemente refreada".

O autor prossegue discutindo a questão da "mornidade", se é que podemos dizer assim, e a necessária e cabível compreensão do que é radicalismo e sectarismo. E continua nas provocações...

"É preciso ter limites, mas, estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro; muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um 'eu devia ter...' Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros Titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora (e muitos com eles): 'Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer'...
A sabedoria para equilibrar essas inquietações pode ser encontrada na reflexão feita no século 5 a.C. pelo filósofo chinês Confúcio: 'Eu sei por que motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém'."

E ele conclui: "Radicalidade  é uma virtude; o vício está na superficialidade".

Por que eu quiz trazer esse texto à tona? É que, numa abordagem anterior (Mania de Pressa), eu discuti a questão do nosso ritmo frenético. A maneira como esse mundo globalizado está a exigir respostas rápidas. Mal conseguimos respirar em meio a passos atordoados. E a gente acaba se esquecendo de olhar coisas tão simples do cotidiano. Nossa leitura sofre o revés do óculos da pressa. E por meio dele criamos conceitos, concluímos, definimos atitudes. Eu continuo concordando com Antonio Porchia: "as pequenas coisas são o que é eterno, e o resto, todo o resto, é brevidade, extrema brevidade".

Já numa outra discussão (Sapo Escaldado), discuti a nossa intolerância às mudanças graduais, a forma como nos acostumamos e nos permitidos acomodar. O quão inertes ficamos ante as desacomodações necessárias. E o quando é imperioso o inconformismo consciente.

Mas então, o caminho certo é o do meio? Nem pressa e nem acomodação? Cortella entende que o meio pode ser mediocridade. O meio é medo de ousar. O meio é acomodação.

É um convite interessante esse, o da ousadia, dos transbordamentos. Contudo, somos seres tão imperfeitamente diferentes que tenho medo de verdades absolutas.

A "blogueira" Pri Sganzerla, do "Devaneios e Metamorfoses" fez um comentário extremamente relevante, acerca do "Sapo Escaldado":
"Só trazendo um testemunho: realmente não é nada fácil adotar essa postura. E nem sempre isso é uma escolha, tem gente que simplesmente 'nasce' assim. E enfrenta muitos percalços ao longo do caminho por ser 'diferente'. Difícil adaptar-se a um mundo que, a todo instante, insiste em te cozinhar vivo. Mas sucumbir não é uma opção pra mim. Porque eu sei que a dor de perder a si mesmo é bem maior do que a de lidar com a dificuldade de ser diferente".

Então, penso que o ponto é esse: a dor de perder a si mesmo...Se abdico da ponte que me liga a outros transbordamentos, então me perco.

Não dá pra fugir de uma simples verdade pedagógica: o ritmo e o tempo de aprendizagem é diferente em cada um. A transitoriedade dos atos que constroem qualquer sujeito pode colocá-lo, em algumas circunstâncias, no meio. Não significa estacionar por ali, permanecer inerte. Significa, isso sim, que há um tempo exigido para novas reconstruções do ser. E o simples fato de melhorar a minha compreensão de mundo, de reagir à acomodação, de impulsionar outros sonhos, por menor que seja, é um transbordamento, na respectiva medida de cada um.

Perder a si mesmo é não ter norte. Não saber o caminho. Não acreditar nas escolhas. É permitir-se ser subjugado. É não aprender a consciência de lugar, de cidadania. É por isso que ainda permaneço na dúvida, mesmo na concordância com Cortella.Contraditório, não? O meu meio é ancoradouro de reminiscências de aceitação? É estágio de transgressões? É ponto de parada e estacionamento? Ou é degrau que exige o próximo passo? É parte da construção que faço de mim mesmo ou são estereótipos que se acoplam à minha face? É abrigo de minhas ambiguidades e idiossincrasias ou é visão de futuro, metas e utopias de vida? É medo, paralisia e indolência ou é instância de reflexão e ação? É bem? É mal?

Propositadamente essa discussão permanecerá, aqui, inacabada. Devo permitir que se manifeste em cada um, conforme a visão de "estrada" que se constrói individualmente. E você? O que acha?



Publicado originalmente em 27 de maio de 2010