terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Caso do Espelho



Metáfora
Espelho
Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.

Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos: 

      Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?

      Isso é um espelho — explicou o dono da loja.

      Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.

Os olhos do homem ficaram molhados.

      O senhor... conheceu meu pai? — perguntou ele ao comerciante.

O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.

      É não! — respondeu o outro. — Isso é o retrato de meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?

O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho.

Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira. A mulher ficou só olhando.

No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.

      Ah, meu Deus! — gritava ela desnorteada. — É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu! 

Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.

      Que foi isso mulher? 

      Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato? 

      Que retrato? — perguntou o marido, surpreso.

      Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira! 

O homem não estava entendendo nada.

      Mas aquilo é o retrato do meu pai! 

Indignada a mulher colocou as mãos no peito: 

      Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa? 

A discussão  fervia feito água na chaleira.

      Velho lazarento coisa nenhuma! — gritou  o homem, ofendido.

A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa.

      Que é isso menina? 

      Aquele cafajeste arranjou outra!

      Ela ficou maluca —berrou o homem, de cara amarrada.

      Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá no  quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher! 

A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato. Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.

      Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje! 

E completou, feliz, abraçando a filha: 

— Fica tranquila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova! 

 Revista Nova Escola – abril/99

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A Menina e o Pássaro Encantado

Outros Autores
Pássaro livre

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar, mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades... 

 Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. 

— Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...

E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro. Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça. 

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as estórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. Mas chegava sempre uma hora de tristeza. 

— Tenho que ir — ele dizia.

— Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar....

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro.

— Eu também vou chorar. Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar.

Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma ideia malvada. 
— Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz.

Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. 

Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. 

Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. 

Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro. 

— Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias... Sem a saudade, o amor irá embora...

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. 

Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio; deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. 

E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... 
Até que não mais aguentou. Abriu a porta da gaiola. 

— Pode ir, pássaro, volte quando quiser...

— Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar.

E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia. 

— Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos... 

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje.

Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar.

Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama... 

E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: 

— Quem sabe ele voltará amanhã...

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
Rubem Alves

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"Mico" de novato



Humor
Advogados

Aquele jovem advogado recém-formado montou um luxuoso escritório num Prédio de alto padrão na Av. Paulista e botou na porta uma placa dourada:

"Dr. Antônio Soares - Especialista em Direito Tributário".

No primeiro dia de trabalho, chegou bem cedo, vestindo o seu melhor terno e sentou-se atrás de sua escrivaninha, cheio de empáfia e ficou aguardando o primeiro cliente. Meia hora depois batem à porta. Rapidamente ele apanha o telefone do gancho e começa a simular uma conversa: 

-Mas é claro, Sr. Mendonça, pode ficar tranqüilo! Nós vamos ganhar esse negócio! O juiz já deu parecer favorável! Sei... Sei... Como? Meus honorários? Não se preocupe, o senhor pode pagar os outros 50 mil na semana que vem! É claro!... O senhor me dá licença agora que eu tenho um outro cliente aguardando, ok? Obrigado... Um abraço!

Bate o fone no gancho com força e vai atender o rapaz que o aguarda:
 
-Pois não, o que o senhor deseja?

-Eu vim instalar o telefone...

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Insegurança "Masculina"

Meus Rabiscos
Filme "A Guerra do Fogo"

Noite fria aquela. As nuvens fecharam a cara, lançaram olhares tenebrosos e com elas o movimento uivante do gélido vento. Pedia cama. Edredon de maciez convidativa. Aconchego dos corpos. Eu nem sabia, mas era aniversario  de casamento. Eu ficara durante o dia remexendo em papéis, relatórios a fazer e a data equivocada na cabeça.

Nada pior que isso: esquecer datas. O olhar fulminante passa a acompanhar cada movimento. Como se perguntas fossem feitas ininterruptamente. Será que ele não vai lembrar? Esses homens! Que importância dão às datas? Que falta de sensibilidade!

De repente, já desistindo da possibilidade do assunto ser retomado, finalmente confessa o incômodo: "você sabe que dia é hoje"? Eu, ainda mergulhado em datas equivocadas, prontamente respondi, sem a menor cerimônia: "ora, dia três".

A vermelhidão da face já me dava a entender. Não era. A ficha caiu. Como pude me esquecer? Que insensatez a minha! Quanta ausência de cumplicidade! 

Tempo então de refazer os enganos e de nada adiantava tentar explicar as confusões com datas. Melhor seria tentar reparar, com urgência. Sair para jantar. Era uma tentativa desesperada de compensar a frustração sentida.

Restaurante aconchegante. Costumávamos frequentá-lo em outros tempos. Um barzinho no canto, lugares mais acolhedores que outros. Mesas esparramadas. Famílias ocupando os pontos estratégicos. Não gosto do meio. Preciso ter ampla visibilidade de todo o movimento. Ali, no meio, era como se estivesse no centro da roda, onde todos os olhares passeavam. Não podia refugar. Qualquer desculpa seria imperdoável. Ouviria ao longo da semana toda sorte de lamentações. Resoluto, sem demonstrar incômodo, só restou escolher para qual lado daria as costas.

Azar o meu. Já sentado é que percebi um espelho envelhecido numa parte do balcão de atendimento. Isso não estava aí, eu pensei. Tarde demais. Precisava fazer valer o momento, valoriza-lo como merecia, independente das minhas insatisfações ou estorvos.

Para não olhar o espelho, precisava ficar meio de lado. Não, incômodo demais! isso não! Aí já seria exigir muito! O grande problema é que o espelho refletia a imagem de um casal acompanhado de um amigo. E, por mais que eu quisesse, meus olhos insistiam em passear pelo espelho. Não buscavam a mulher. Muito ao contrário. Eu não tinha olhos para mais ninguém. Precisava reparar um desacerto, compromisso inarredável.

Os olhares do homem acompanhado pressentiram ameaças. Elas não existiam, mas o espelho argumentava contrariamente. Maldito espelho! E os olhos não paravam de se mover em direção a ele. Por mais esforço que fizesse, ele estava ali, na minha frente, impassível. Impassível nada! Aquele espelho estava adorando a cena! Propunha maldades quando delas eu fugia. Precisava arranjar uma forma de me esquivar. O jeito foi buscar as imagens da televisão. Coisa mais “chinfrim”, logo pensei.

E, para meu maior espanto e contrariedade, ao buscar outros cenários fui eu quem passou a incomodar-se com olhares lançados à mesa. Num canto, um pouco escondido pela escassez de luz, havia um sujeito, barba e cabelos brancos, que não significavam idade avançada,  parecia insistir olhar em direção à minha mulher. Indignei-me! Cara folgado! Que falta de respeito! Pensava nisso e me lembrava do espelho. Certamente todo tipo de impropérios já me haviam sido destilados.

E esse duplo incômodo durou uma eternidade. Eu até já conseguia não olhar o espelho. O meu incômodo era maior. Precisava me concentrar nele. Dito e feito! Resolvi que devia vigiar mais de perto os olhares furtivos. Passei a fulminar o sujeito na penumbra em que se escondia. Por pouco não me levantara para perguntar-lhe o que havia perdido por ali.

E assim foi boa parte da noite. Jantamos, brindamos, sorrimos. Relembramos tempos idos. Passagens românticas, dolorosas e engraçadas. Havia conseguido amenizar o “bendito” esquecimento das datas. O melhor ainda estava por vir, pensava eu, já imaginando o edredom. Melhor então apressar os desejos. Pagar a conta. Agradecer e bater em retirada.

O sujeito ainda continuava lá, sorvendo seu whisky a conta gotas. O espelho? Já nem sabia que ele existia. Já não era perseguido pelo camarada, da outra mesa, com a mulher. Ele havia constatado que as intenções não se direcionavam àquele lugar. Quanto a mim, o problema ainda permanecia sem solução. Vez por outra eu pegava o sujeito parecendo lançar olhares suspeitos. Uma afronta!

Na saída do balcão de atendimento eu teria que passar por ele. Feito. Não resisti. Fechei a cara. Semblante compenetrado, amarrado. E sisudo impus minha voz. A mais forte e grossa que consegui. Olhei o “vovô”  e já fui logo cumprimentando, com toda a ironia e sarcasmo: "boa noite, tudo bem? Nos conhecemos de algum lugar"?

Aí me surpreendi mais ainda. O "cara", educadamente acenou que não. Meneou a cabeça e num relance se virou. Quase morri de vergonha! O "vovô" era estrábico ao extremo. Quando parecia me olhar na conversa, na verdade direcionava à porta. Esse sim, era um vesgo com propriedade! Já não dei continuidade à conversa. Apressei os passos e desapareci.

Já na volta, dei risadas da cena. Passara a noite fugindo de um olhar ciumento e perseguindo um outro invasor. Ao final, nada se revelou verdade. Ainda bem que a minha calmaria estava de plantão.

Já pensando no edredom, imaginando as cenas calientes, de sobressalto sou tomado por resquícios de um “machismo” que beirava à mais pueril insegurança. Absorto ainda nas cenas experimentadas, indagações perambularam incitando a ira. Seria mesmo o estrabismo, ou fui ludibriado? Coisa difícil perguntar à mulher. Mulheres não revelam, a tempo, tais ocorrências! Será?

Sem pestanejar, desferi logo o golpe. Ela, com toda calma, como se em hipótese alguma houvesse sido flertada, nega veementemente. E para comprovar, aperta o abraço, aconchega seu corpo ao meu e lasca logo um beijo. Pensei comigo: "sei não, carinho demais... amor demais..."  

Melhor optar pelo estrabismo!
Publicado originalmente em 07 de junho de 2010