quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Adversidades

Meus Rabiscos



"As adversidades não tornam os homens nem melhores nem piores. 
Apenas revelam-nos como são"(autor desconhecido).


Adversidade: s.f.l. Desgraça, infortúnio. 2.
Contrariedde. 3. Qualidade ou caráter de adverso.

Adverso: adj.1.Contrário, desfavorável, inimigo, oposto.
2.Que traz desgraça,infelicidade.

A sinonimia explicita que cada um de nós está propenso às adversidades cotidianas, sejam elas de intensidade ínfima ou monstruosa. Basta viver e relacionar-se para que o revés, a sorte adversa, o infortúnio ou a infelicidade inaugurem dores, feridas de difícil cicatrização, ausência de paz no coração e alguns vazios lancinantes, que só se preenchem num renascer de extremado embate com os próprios limites.

É fácil e inodoro estabelecer constructos acerca da adversidade, "decifrá-la em letras" até, o difícil é suportar o hálito asqueroso da dor lambendo a face; o difícil é tolerar o ardor dos olhos que desaprendem a secar lágrimas; o difícil é conter os pulos do coração que dispara rumo à garganta, tentando fugir do peito, tamanho o desamparo; difícil é respirar no inóspito lugar de ar rarefeito, onde até o chão parece dissipar-se; difícil é resistir, animar o próximo passo, fazer mover pernas e braços, quando tudo ao redor, num pavor desconhecido, mais se assemelha a areia movediça, contrariando todos os movimentos. Difícil é não perder-se de si mesmo.

Adversidade é a pedra no meio do caminho, da qual insistentemente falou Drummond. E se os olhos mirarem apenas a pedra, temendo a dor do choque, então o caminho passa a ser esquecido e o horizonte se perderá no tempo nublado, sujeito a raios e trovões.

A consciência não pode desfalecer. É preciso mantê-la pulsante, de sorte a não esmorecer as utopias de vida, não minar crenças e nem usurpar valores humanos norteadores dos propósitos trazidos na caminhada. E aqui resgato Horácio, quando anuncia que "a adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas". E é dessa capacidade de suplantar os próprios limites que falo. A adversidade pode impulsionar o nosso refazimento, posto que, ela é o escancaramento do nosso inacabamento.

Tempo então de resiliência! Resiliência enquanto capacidade de resistir às condições desfavoráveis no enfrentamento da adversidade, mantendo integralmente a essência humana. Um dos exemplos mais contundentes de que a essência humana pode soprepor-se e nortear a sobrevida foi o difícil embate vivido pelos 33 mineiros chilenos, da mina San José. A esperança foi servida a cada instante de escuridão e a consciência de vida se manteve ativa.

A adversidade não pode ocasionar os processos internos, equivocadamente defensivos, de vitimização, onde cada um se revela incapaz de suplantar os próprios dissabores, numa desesperadora tentativa de justificar as debilidades. A esperança, assim, passa a ser comparada a um mero bilhete de loteria, já corrido e que nada mais vale.

Resistir de forma resiliente significa construir a própria capacidade de absorção das intempéries mudanças; de agir na transformação de tais mudanças, convertendo-as em oportunidades de melhoria; significa exercer, sistematicamente, o aprendizado na ambiguidade dos desencontros. Significa ousar escolhas sem abrir mão de si mesmo, não perder-se de si, não abdicar-se de si mesmo. Não abrir mão de protagonizar o próprio refazimento.

Significa ainda extirpar, para bem longe, qualquer possibilidade de aproximação da "Síndrome de Burnolt", onde as apatias pessoal, emocional e espiritual ocasionam o desânimo de continuar os passos, fazendo o horizonte se perder no negrume da ausência de sonhos e vontades.

Romper a casca! Não sufocar-se, sobretudo porque a vida, uma outra vida, num renascimento mágico até, começará lá fora, longe do revés.

Retomo então dois trechos de uma outra postagem que fiz (Resiliências), onde disse que nessa imersão profunda para dentro de si mesmo, acende-se um novo desafio, que é o enfrentamento do problema maior que a competência. E já se tem a clara consciência de que é permitido e é preciso aumentar a própria competência para que o enfrentamento enfraqueça as causas e alcance êxito na solução.
As adversidades já não fazem surtar a “alma”. Aprende-se, ante extremismos de escolhas, a reconstruir-se, a refazer-se por conta das deformações impostas.


Para ilustrar, há uma boa metáfora sobre a adversidade:

A filha queixa-se à mãe sobre sua vida e como as coisas estão difíceis, tanto que já não sabia mais o que fazer e queria desistir. Estava cansada de lutar e combater, pois sempre que um problema se resolvia, um outro surgia.

A mãe, paciente e sábia, levou-a até a cozinha. Encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo alto. Logo a água começou a ferver nas panelas. Em uma delas colocou cenouras. Em outra, ovos e, na última, pó de café. Deixou que tudo fervesse, sem dizer uma palavra. A filha deu um suspiro de incompreensão, mas esperou impacientemente, imaginando o que estaria fazendo ali.
Minutos depois, a mãe desligou o fogo. Pegou as cenouras, os ovos e o café e colocou-os em recipientes separados. Virou-se para a filha e perguntou:
- Minha filha, o que você está vendo aqui?
- Cenoura, ovos e café, minha mãe!
A mãe traz então a filha para mais perto e pede para que experimente as cenouras. A filha o faz e constata o quanto estão macias. Depois a mãe pede que pegue um ovo e o quebre. A filha obedeceu e, depois de retirar a casca, verifica que o ovo endurecera com a fervura. Finalmente a mãe lhe pede que tome um gole de café. A filha, sorrindo, sentindo o aroma delicioso, toma um gole e pergunta:
- O que significa tudo isso, mãe?
A mãe responde:
- Cada um destes, a cenoura, o ovo e o café, enfrentou a mesma adversidade: a água fervendo. Entretanto, cada um reagiu de forma diferente. A cenoura, que antes era crua e rígida, amoleceu e se tornou frágil. Os ovos, que eram frágeis, mesmo com sua casca protegendo o líquido interior, tornaram-se firmes e mais resistentes, duros até. Já o pó de café é incomparável! Depois que o coloquei na água fervente, ele mudou a própria água.

Depois de um profundo silêncio e troca de olhares, a mãe prosseguiu:

- Qual deles é você? Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde? você é a cenoura, o ovo ou o pó de café? Você é como a cenoura, parecendo firme e forte, mas com a dor e a adversidade murcha e se torna frágil, perdendo sua força? Será que você é como o ovo, começando maleável, mas depois de sofrer alguma pressão da vida, torna-se dura? Sua casca até parece a mesma, mas por dentro, você está dura! Ou será que você é como o pó de café? Você transforma o meio que a aflige, altera o que está trazendo a dor e oferece algo melhor e mais saboroso do que havia antes da adversidade?

Nada mais foi dito. Bastou o abraço entre mãe e filha!


Imagem: desconheço os direitos autorais. 
Ela foi scaneada de um quadro encontrado "num armário de escola", sem maiores informações.
Se alguém souber a origem, por favor, me comunique! 
Gostaria muito de dar créditos ao autor ou autora, pela relevância e significado da obra.
Publicado originalmente em 20 de novembro de 2010

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