quinta-feira, 25 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Metade de mim...

 
"Pegadas", de Antonio Felix

Metade

Oswaldo Montenegro


 
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

sábado, 20 de novembro de 2010

Adversidades

Imagens que falam (V)

"As adversidades não tornam os homens nem melhores nem piores. 
Apenas revelam-nos como são"(autor desconhecido).


Adversidade: s.f.l. Desgraça, infortúnio. 2.
Contrariedde. 3. Qualidade ou caráter de adverso.

Adverso: adj.1.Contrário, desfavorável, inimigo, oposto.
2.Que traz desgraça,infelicidade.

A sinonimia explicita que cada um de nós está propenso às adversidades cotidianas, sejam elas de intensidade ínfima ou monstruosa. Basta viver e relacionar-se para que o revés, a sorte adversa, o infortúnio ou a infelicidade inaugurem dores, feridas de difícil cicatrização, ausência de paz no coração e alguns vazios lancinantes, que só se preenchem num renascer de extremado embate com os próprios limites.

É fácil e inodoro estabelecer constructos acerca da adversidade, "decifrá-la em letras" até, o difícil é suportar o hálito asqueroso da dor lambendo a face; o difícil é tolerar o ardor dos olhos que desaprendem a secar lágrimas; o difícil é conter os pulos do coração que dispara rumo à garganta, tentando fugir do peito, tamanho o desamparo; difícil é respirar no inóspito lugar de ar rarefeito, onde até o chão parece dissipar-se; difícil é resistir, animar o próximo passo, fazer mover pernas e braços, quando tudo ao redor, num pavor desconhecido, mais se assemelha a areia movediça, contrariando todos os movimentos. Difícil é não perder-se de si mesmo.

Adversidade é a pedra no meio do caminho, da qual insistentemente falou Drummond. E se os olhos mirarem apenas a pedra, temendo a dor do choque, então o caminho passa a ser esquecido e o horizonte se perderá no tempo nublado, sujeito a raios e trovões.

A consciência não pode desfalecer. É preciso mantê-la pulsante, de sorte a não esmorecer as utopias de vida, não minar crenças e nem usurpar valores humanos norteadores dos propósitos trazidos na caminhada. E aqui resgato Horácio, quando anuncia que "a adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas". E é dessa capacidade de suplantar os próprios limites que falo. A adversidade pode impulsionar o nosso refazimento, posto que, ela é o escancaramento do nosso inacabamento.

Tempo então de resiliência! Resiliência enquanto capacidade de resistir às condições desfavoráveis no enfrentamento da adversidade, mantendo integralmente a essência humana. Um dos exemplos mais contundentes de que a essência humana pode sobrepor-se e nortear a sobrevida foi o difícil embate vivido pelos 33 mineiros chilenos, da mina San José. A esperança foi servida a cada instante de escuridão e a consciência de vida se manteve ativa.

A adversidade não pode ocasionar os processos internos, equivocadamente defensivos, de vitimização, onde cada um se revela incapaz de suplantar os próprios dissabores, numa desesperadora tentativa de justificar as debilidades. A esperança, assim, passa a ser comparada a um mero bilhete de loteria, já corrido e que nada mais vale.

Resistir de forma resiliente significa construir a própria capacidade de absorção das intempéries mudanças; de agir na transformação de tais mudanças, convertendo-as em oportunidades de melhoria; significa exercer, sistematicamente, o aprendizado na ambiguidade dos desencontros. Significa ousar escolhas sem abrir mão de si mesmo, não perder-se de si, não abdicar-se de si mesmo. Não abrir mão de protagonizar o próprio refazimento.

Significa ainda extirpar, para bem longe, qualquer possibilidade de aproximação da "Síndrome de Bournolt", onde as apatias pessoal, emocional e espiritual ocasionam o desânimo de continuar os passos, fazendo o horizonte se perder no negrume da ausência de sonhos e vontades.

Romper a casca! Não sufocar-se, sobretudo porque a vida, uma outra vida, num renascimento mágico até, começará lá fora, longe do revés.

Retomo então dois trechos de uma outra postagem que fiz (Resiliências...), onde disse que nessa imersão profunda para dentro de si mesmo, acende-se um novo desafio, que é o enfrentamento do problema maior que a competência. E já se tem a clara consciência de que é permitido e é preciso aumentar a própria competência para que o enfrentamento enfraqueça as causas e alcance êxito na solução.
As adversidades já não fazem surtar a “alma”. Aprende-se, ante extremismos de escolhas, a reconstruir-se, a refazer-se por conta das deformações impostas.


Para ilustrar, há uma boa metáfora sobre a adversidade:

A filha queixa-se à mãe sobre sua vida e como as coisas estão difíceis, tanto que já não sabia mais o que fazer e queria desistir. Estava cansada de lutar e combater, pois sempre que um problema se resolvia, um outro surgia.

A mãe, paciente e sábia, levou-a até a cozinha. Encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo alto. Logo a água começou a ferver nas panelas. Em uma delas colocou cenouras. Em outra, ovos e, na última, pó de café. Deixou que tudo fervesse, sem dizer uma palavra. A filha deu um suspiro de incompreensão, mas esperou impacientemente, imaginando o que estaria fazendo ali.

Minutos depois, a mãe desligou o fogo. Pegou as cenouras, os ovos e o café e colocou-os em recipientes separados. Virou-se para a filha e perguntou:
- Minha filha, o que você está vendo aqui?
- Cenoura, ovos e café, minha mãe!
A mãe traz então a filha para mais perto e pede para que experimente as cenouras. A filha o faz e constata o quanto estão macias. Depois a mãe pede que pegue um ovo e o quebre. A filha obedeceu e, depois de retirar a casca, verifica que o ovo endurecera com a fervura. Finalmente a mãe lhe pede que tome um gole de café. A filha, sorrindo, sentindo o aroma delicioso, toma um gole e pergunta:
- O que significa tudo isso, mãe?
A mãe responde:
- Cada um destes, a cenoura, o ovo e o café, enfrentou a mesma adversidade: a água fervendo. Entretanto, cada um reagiu de forma diferente. A cenoura, que antes era crua e rígida, amoleceu e se tornou frágil. Os ovos, que eram frágeis, mesmo com sua casca protegendo o líguido interior, tornaram-se firmes e mais resistentes, duros até. Já o pó de café é incomparável! Depois que o coloquei na água fervente, ele mudou a própria água.

Depois de um profundo silêncio e troca de olhares, a mãe prosseguiu:

- Qual deles é você? Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde? você é a cenoura, o ovo ou o pó de café? Você é como a cenoura, parecendo firme e forte, mas com a dor e a adversidade murcha e se torna frágil, perdendo sua força? Será que você é como o ovo, começando maleável, mas depois de sofrer alguma pressão da vida, torna-se dura? Sua casca até parece a mesma, mas por dentro, você está dura! Ou será que você é como o pó de café? Você transforma o meio que a aflige, altera o que está trazendo a dor e oferece algo melhor e mais saboroso do que havia antes da adversidade?

Nada mais foi dito. Bastou o abraço entre mãe e filha!
Um ótimo final de semana a todos! 

Imagem: desconheço os direitos autorais. 
Ela foi scaneada de um quadro encontrado "num armário de escola", sem maiores informações.
Se alguém souber a origem, por favor, me comunique! 
Gostaria muito de dar créditos ao autor ou autora, pela relevância e significado da obra.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Velha Curandeira ou Milagreira?!


"A Curandeira" (Confraria das Três Águas), de Guilherme Guion 
 
Quintas de Humor
Noite escura. Uma senhora em casa, sozinha, vê um vulto masculino passar à sua frente.
Preocupada e resoluta, ousa aproximar-se dele, por trás e, sem ser percebida, com cuidado, agarra-lhe os testículos, aperta-os com toda força e pergunta aos gritos:

- QUEM É VOCÊ?

Ela, não obtendo resposta, aperta com mais força ainda, e novamente pergunta:
 
- QUEEEEM ÉÉÉÉÉ VOOOCÊÊÊÊ?

Mantém-se o silêncio, ela aperta ainda mais, e já com pedaços da pele dos testículos escapando-lhe por entre os dedos, volta a perguntar:

- QUEEEEM ÉÉÉÉÉ VOOOCÊÊÊÊÊÊ????

Eis que uma voz, num tom profundo e sofredor, consegue balbuciar:

- P...a...a...u...u...l...o...

Então ela pergunta, apertando ainda mais:

- PAULO? QUE PAULO?

E ele responde:

- O...o... ...muuudinho!!!
 
Uma boa quinta a todos!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tarefa de vida!

"A Dura Tarefa de Aprender", de  Renato Marques e Grace Snows

Outros Autores
TAREFA
         Geir Campos


Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo;
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto;
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- o amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

sábado, 13 de novembro de 2010

Reciclar é preciso...

Imagens que falam (IV)


Não é tarefa fácil revisar conceitos ou pressupostos já inculcados! Não é tarefa fácil abdicar de constructos já internalizados como verdades! Não é tarefa fácil rever posturas, atitudes e, principalmente, valores!

Ainda assim, é preciso ousar a reflexão que conduza à prática revisionista. É preciso ousar a descoberta da própria consciência de inacabamento, caso contrário, nenhum refazimento de si será alvo de novos passos. E não "reciclar-se" é adormecer na mesmice, com equivocado sabor de novidade.

O problema crucial é saber o momento, aliás, é saber em que proporções e onde mudar. Saber-se incompleto, pronto ao refazimento, é mergulhar nas entranhas tão difíceis de enxergar; é meter o dedo em cicatrizes ainda expostas, embora camufladas; é volver o olhar para os passos mais obscuros e, quem sabe, até mais indesejáveis que ainda perambulam soltos na confortável inconsciência do ser; é, eu acredito, o grande desafio de descobrir-se menor do que dá conta de enxergar e mais frágil que a força que imaginava possuir.

Deparar-se com o contraste mais cruel de si mesmo e escolher atirar ao lixo pedaços ainda respirando posicionamentos, não é tarefa simples ou banal. Ao contrário, é o enfrentamento que dilacera, mas faz amadurecer e vislumbrar outros propósitos.

Jogar fora o lixo que impregna as falas maltrapilhas, que entorpece as crenças e turva as  visões de mundo e de ser humano, é desafio heróico na reconstrução humanizadora de qualquer novo homem ou nova mulher! Não é nada fácil abrir mão das "coisas"! E tudo "coisificado" que já ocupava lugares vitais...

Então, ainda que seja árdua a decisão de esvaziar-se, como eu já pontuei, o mais difícil é enxergar o que precisa ser esvaziado. O mais difícil é saber-se em processo de inacabamento e refazimento, consciente, na exata medida, de quais gargalos e atrofiamentos reclamam reciclagem!

E estes são os convites da imagem desta semana: esvaziar-se e refazer-se!

Refazer conceitos, posturas, atitudes, propósitos... Refazer-se emocionalmente! Refazer-se espiritualmente! E alguns reencontros, em Deus, são esplêndidos! Precisam ser precipitados, ou seja, precisam ser iniciados. Tudo o mais será acrescentado no tempo certo!

Um ótimo final de semana a todos!





Imagem: desconheço os direitos autorais. 
Ela foi scaneada de um quadro encontrado "num armário de escola", sem maiores informações.
Se alguém souber a origem, por favor, me comunique! 
Gostaria muito de dar créditos ao autor ou autora, pela relevância e significado da obra.